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Cem anos de solidão. Opinião de Filipe Luís

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19.02.2026

“Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias. Houve épocas de chuvisco, em que toda a gente pôs a sua roupa de domingo e compôs uma cara de convalescente para festejar a estiagem, mas logo se acostumaram a interpretar as pausas como anúncios de recrudescimento. O céu desmoronou-se em tempestades descomunais e o norte mandava furacões que destelhavam as casas, derrubavam as paredes e arrancavam pela raiz os últimos talos das plantações.”

Assim começa um dos últimos capítulos do imortal romance de Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão, onde se descreve o dilúvio bíblico que se abateu sobre Macondo, a cidade imaginária onde se centra a trama. “O mal era que a chuva atrapalhava tudo e, nas máquinas mais áridas, brotavam flores por entre as engrenagens se não fossem lubrificadas de três em três dias, enferrujavam-se os fios dos brocados e nasciam algas de açafrão na roupa molhada. A atmosfera estava tão húmida que os peixes poderiam entrar pelas portas e sair pelas janelas, navegando no ar dos aposentos.” O realismo mágico de Gabriel García Márquez, Prémio Nobel da Literatura em 1982, surpreende pela ousadia, pela imaginação e pela hipérbole irresistível, e dele muito me lembrei nas últimas semanas de comboios de tempestades e de rios atmosféricos que nos infernizaram a vida.

Não me lembrei apenas deste trecho da sua obra-prima mais celebrada, mas do comentário que, a propósito do título que escolheu para o seu romance, o escritor deixou para a posteridade, numa das suas entrevistas. Oiçamo-lo a bater no ponto que mais interessa: “De Cem Anos de Solidão, escreveram-se toneladas e toneladas de papel, disseram-se coisas absurdas, coisas importantes, coisas transcendentes, mas ninguém tocou o ponto que a mim mais me interessava, ao escrever o livro, e que é a ideia........

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