As lebres e a tartaruga |
Como se conta no perfil publicado nesta edição, António José Seguro foi praticante federado de atletismo. Nos meetings particulares de atletismo de pista, determinados participantes são contratados para servirem de lebres, estimulando o andamento e o ritmo e proporcionando a possibilidade de se baterem recordes. São as lebres e vão à frente, a “puxar”. Passadas as primeiras voltas, já exaustos, estes atletas desistem, ou ficam para trás, oferecendo o palco e as marcas aos consagrados, que farão a despesa do que resta da corrida. Nestas presidenciais, houve várias lebres – e uma única tartaruga. António José Seguro, no seu passo constante, a trabalhar “a gasóleo”, sem se cansar, foi essa tartaruga. E o recorde aconteceu: foi o mais votado de sempre numa primeira eleição presidencial, em percentagem, e obteve o maior número de votos de sempre, contabilizadas todas as eleições presidenciais da III República. E a perplexidade que se coloca é a seguinte: como é que uma figura que muitos analistas consideravam cinzenta e sem rasgo, com fraca capacidade de mobilização e aparentemente incapaz de empolgar o eleitorado, conseguiu este feito único, levando um país exaurido pelas catástrofes naturais a ir votar (como anotou um frustrado apoiante de André Ventura)… de “barco a remos”?
António José Seguro fez tudo bem. Maturou este passo durante mais de uma década. Preparou-se com antecedência. Identificou uma oportunidade. Percebeu o tempo em que o estilo histriónico, a procura do clickbait, a polarização e a atenção ao algoritmo seriam sempre mais do mesmo e que o alegado cinzentismo era, afinal, o seu principal trunfo. Aquilo que o distinguia dos demais. Na sua intuição política, que nunca perdeu (fazendo, nisso, lembrar Mário Soares…), compreendeu que o País, o País real, das pessoas reais, o País que conhece bem do seu contacto com o........