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Prémio Laranja Amarga para a melíflua diplomacia de apaziguamento de Trump

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25.02.2026

Quatro anos de guerra na Europa, superando já a participação russa ou americana na II Guerra Mundial e aproximando-se da duração total deste conflito, obrigam a uma reflexão sobre a ordem internacional assente no primado do direito, na resolução pacífica de conflitos no quadro das Nações Unidas e o caminho de dúbia irrelevância seguido pela diplomacia portuguesa.

Portugal, num contexto de uma posição tradicionalmente solidária no acolhimento de refugiados, que unia todas as forças políticas até à erupção do fenómeno Chega, recebeu cerca de 55 mil ucranianos no quadro do mecanismo de proteção temporária que pela primeira vez foi acionado pela União Europeia em 2022.

Já relativamente a outros refugiados o Governo Montenegro, fazendo parceria com a Hungria de Orban e a Eslováquia de Fico, recusou participar, em 2026, no mecanismo de solidariedade europeu que nos determinava o acolhimento de 410 pessoas provenientes de campos de refugiados na Grécia e na Itália, preferindo pagar mais de 8 milhões de euros para se livrar desse encargo humanitário e solidário com os nossos parceiros.

Igualmente, em matéria de apoio militar e logístico à Ucrânia, apesar das palavras frequentes de apoio moral e político, Portugal tem-se caraterizado por uma grande frugalidade no apoio concedido, muito distante do que tem sido prestado pelos países bálticos, nórdicos e pelas maiores economias europeias. O contributo nacional tem sido pelo mínimo denominador comum, seguindo as deliberações do Conselho Europeu, isto é, sem qualquer empenho na compensação do abandono da Ucrânia pela administração Trump.

Mas mais grave é a reiterada bonomia com que o Governo de Montenegro e o seu ministro Paulo Rangel se referem aos atentados ao direito internacional de Donald Trump.

Só em 2026 temos já três casos paradigmáticos de subserviência achando que o apaziguamento da liderança do nosso aliado tradicional atlântico confere alguma respeitabilidade.

Tivemos, em primeiro lugar, a declaração sobre a natureza “benigna” do ato de pirataria internacional ocorrido no início de janeiro em Caracas com o rapto do ditador Maduro. Paulo Rangel acompanhou a saudação à ação das forças especiais americanas na capital de um estado soberano por recomendações patéticas sobre a imediata democratização da Venezuela e quem deveria suceder no poder a Nicolás Maduro.

Passados quase dois meses, não se conhece nenhum plano de transição democrática, a vice-presidente de Maduro, cuja eleição não foi reconhecida por Portugal segundo Rangel, é agora considerada um interlocutor respeitável pelos Estados Unidos e a pretensão de julgamento em Nova Iorque de um chefe de Estado estrangeiro é vista como algo banal. Como diz Zelensky, se é este o tratamento dado a ditadores porque não fazer o mesmo a Putin?

Realizou-se a semana passada a primeira reunião do novo Conselho de Paz, criado e liderado por Trump, para o qual Portugal teve a duvidosa honra de ser um dos cerca de 60 países convidados.

Para além de pretender estabelecer um protetorado em Gaza destinado a uma grande operação imobiliária liderada pelo genro do próprio Trump, como se fosse credível um plano de paz que ignorasse a participação dos palestinianos, o novo Conselho de Paz, com entrada condicionada ao convite imperial americano, tem a ambição de substituir o Conselho de Segurança e de supervisionar a ação das Nações Unidas.

A maioria dos nossos aliados tradicionais rejeitou categoricamente participar nesta farsa criada para glorificação do pacificador Donald Trump. Foi o que fizeram o Reino Unido, a França, a Alemanha, a Santa Sé ou a Espanha, entre outros. O novo órgão só conseguiu reunir 22 países aderentes e alguns observadores, a maioria dos quais autocracias petrolíferas do Médio Oriente, ditadores encartados ou democracias iliberais como a Hungria ou a Turquia.

Espantosamente neste caso Paulo Rangel insiste em não coordenar a posição de Portugal com os aliados europeus, mantendo uma cúmplice disponibilidade para assumir um estatuto de observador desde que o famigerado Conselho se limite ao branqueamento do genocídio israelita em Gaza, apesar de Donald Trump não esconder ambições muito mais vastas.

Para culminar uma desastrosa semana de cegueira seletiva e de subserviência relativamente à administração Trump, tivemos as declarações tão sonsas quanto falsas sobre a provável utilização da base das Lages numa operação militar contra o Irão.

A teocracia de Teerão não se recomenda, mas, ao contrário da dinastia saudita que gosta de esquartejar jornalistas incómodos, até faz umas eleições razoavelmente competitivas para eleger Presidentes que mandam relativamente pouco e certamente muito menos do que os líderes supremos do regime desde Khomeini, em 1979, ao atual Khamenei.

Trump, eleito com base num discurso na linha da tradição isolacionista americana, tem sido de um notável ativismo internacional com ações militares em África, na América do Sul e na Ásia, sempre sem invocar qualquer agressão externa nem qualquer mandato internacional. Como se sabe da experiência da invasão do Iraque, o mais difícil é encontrar soluções de estabilidade posteriores que garantam a segurança das populações atingidas.

Também no caso do Irão, a intervenção americana, ardentemente desejada por Netanyahu, não tem qualquer cobertura das Nações Unidas e a alegada prevenção dos riscos do programa nuclear iraniano é uma visão muito elástica do conceito de legítima defesa.

Perante esta situação a França disse já que não daria apoio a uma intervenção militar no Irão e o Reino Unido recusou o pedido de utilização das bases britânicas no seu território, em Chipre e na ilha de Diego Garcia no Índico.

Novamente desalinhado da posição dos nossos aliados europeus, Paulo Rangel veio dizer que os Estados Unidos podem usar a base das Lages como entenderem sem precisar sequer de informar, muito menos pedir autorização, a Portugal.

Estas declarações de Rangel, na esteira do papel de Durão Barroso na cimeira que antecedeu a intervenção no Iraque, para além de reveladoras de uma visão minimalista do interesse nacional, são descaradamente falsas, já que a utilização das Lages sem restrições só poderia ocorrer, de acordo com o respetivo Tratado, no quadro de uma operação da NATO ou de uma ação aprovada pelas Nações Unidas.

Em caso de intervenção militar unilateral americana, o uso da base das Lages está dependente de informação prévia e concordância portuguesa como resulta expressamente do tratado de cooperação entre Portugal e os Estados Unidos.

Para culminar esta lamentável semana, temos as “contas à moda do Porto” entre Rangel e Rui Moreira, nomeando este para passar uns anos na OCDE no simpático XVI arrondissemnt de Paris, bem perto do estádio do PSG.

Pela tentativa de, com seráfica pretensa ironia, nos tomar por tolos e pela ridícula bajulação de Trump, desalinhada da posição dos parceiros europeus, o prémio Laranja Amarga de hoje vai para o ministro dos negócios estrangeiros e tripeiros Paulo Rangel.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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