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Até quando, foda-se

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09.03.2026

Ontem chorei ao ler uma entrevista no jornal. Nunca me tinha acontecido. A entrevistada era Gisèle Pelicot, a mulher cuja frase, que parece ser o seu lema de vida, dá título à nossa troca de correspondência: A vergonha tem de mudar de lado. Através do seu testemunho, uma longa confissão tão crua como a carne no açougue, fui atravessada por diversas emoções: incredulidade, choque, tristeza, repugnância, revolta e, sobretudo, compaixão por aquela mulher que, após o horror, tem vivido de forma exemplar. Ao sabermos os detalhes de algumas das violações a que foi sujeita, nomeadamente uma situação sórdida e violentíssima em que ficou sem um dente — e tudo isto diante dos olhos do companheiro com quem partilhou cinquenta anos da sua vida — ficamos completamente devastadas perante a realidade. Sabemos que dificilmente a sua história seria uma ficção verosímil. E estou certa de que o impacto da leitura desta entrevista se agigantou pelo facto de ser Dia Internacional da Mulher. Que mundo é este, Patrícia? A que bizarrias sexuais, para não falar de outras, estamos sujeitas a todas as horas, em todos os pontos do mundo?

Sabias que, por exemplo, no Brasil dez mulheres são violadas a cada hora? Sabias que mais de 700 mulheres foram violentadas e assassinadas em contexto de violência doméstica em Portugal desde 2002? Que um estudo da OMS revela que 263 milhões de mulheres com mais de 15 anos sofreram violência sexual? Que barbárie é esta a que chamam sexualidade masculina?

Quero falar sobre os abusos sexuais contra as mulheres. Podia falar sobre tantos outros abusos, mas quero debruçar-me sobre os sexuais. Segundo dados da ONU, no final de 2025, 316 milhões de mulheres foram vítimas de um parceiro íntimo. Uma em cada três mulheres — perto de 840 milhões em todo o mundo — já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida. Se nos perguntarmos porque abusam os homens das mulheres, a resposta parece simples: porque podem. Porque não há retaliações à altura, porque é uma lógica que está enraizada de uma forma ancestral e ligada à ideia de poder. A psiquiatra turca Sahika Yuksel explica bem isto numa entrevista dada à BBC, onde diz ser completamente errado supor que homens abusam sexualmente de uma mulher por causa de necessidades hormonais. “O abuso não é um ato sexual. É um ataque. Trata-se de vencer, de conseguir um objeto — e a mulher é objetificada neste caso. Trata-se de poder.”

Talvez seja por tudo isto que eu chorei ao ler o testemunho de Gisèle Pelicot, por ter de encarar um exemplo que espelha bem a História da violência sexual sobre a mulher, o medo e a humilhação que todas sentimos. Os abusos sexuais dos homens sobre as mulheres não são um desvio, uma exceção trágica, são uma realidade persistente e global que atravessa culturas, classes e gerações. O mundo parece continuar a assistir impávido, e talvez seja por isto que eu hoje não consigo escrever sobre mais nada. Temos de aguentar até quando? Daí o palavrão no título, perdoa-me o desabafo, mas senti muita vontade de o escrever: Até quando, foda-se.

Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela


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