Robôs já constroem casas - e agora?

A construção é um dos setores mais importantes da economia, mas também um dos que mais lentamente tem incorporado inovação tecnológica. Num contexto marcado por baixa produtividade, escassez de mão de obra qualificada, forte dependência de trabalho manual e elevados riscos de segurança, torna-se evidente a necessidade de novas abordagens. É neste cenário que a robótica e a automação surgem como uma oportunidade relevante para transformar a forma como se constroem edifícios e infraestruturas.

A robótica constitui um campo científico interdisciplinar que reúne conhecimentos da engenharia mecânica, eletrónica, informática e inteligência artificial, com o objetivo de desenvolver máquinas – robôs – capazes de executar tarefas físicas que tradicionalmente exigem intervenção humana, de forma automática ou autónoma. O seu desenvolvimento ganhou particular impulso na segunda metade do século XX, sobretudo na indústria automóvel, onde os primeiros braços robóticos foram introduzidos para tarefas como soldadura e montagem.

Nos últimos anos, a evolução tecnológica tem acelerado significativamente. Avanços na Inteligência Artificial, a redução dos custos de sensores, o aumento da capacidade de processamento, o desenvolvimento de algoritmos de visão computacional e a expansão da Internet das Coisas (IoT) têm permitido criar sistemas mais inteligentes e adaptáveis. Como resultado, os robôs deixaram de estar confinados a ambientes industriais altamente controlados e passaram a operar em contextos mais complexos e dinâmicos, como os estaleiros de obra.

Neste setor, a robótica revela-se particularmente útil na execução de tarefas repetitivas, fisicamente exigentes ou perigosas. Já existem diversas aplicações – robôs como o “Hadrian X” e o “SAM100” conseguem assentar centenas de tijolos por hora, com níveis de produtividade muito superiores aos métodos tradicionais. No caso do Hadrian X, a tecnologia permite mesmo construir paredes de alvenaria de forma altamente automatizada. Outros exemplos incluem o “TyBot”, utilizado na montagem de armaduras em estruturas de betão armado, e o “FieldPrinter”, que imprime diretamente no pavimento da obra as marcações necessárias à execução do projeto. Destaca-se ainda o sistema “Exosystem”, que, através de tecnologias como GPS, câmaras e inteligência artificial, permite transformar equipamentos de construção convencionais, como escavadoras e tratores, em máquinas autónomas.

As vantagens associadas à robótica na construção são evidentes. A possibilidade de produzir sem fadiga, com maior precisão e de forma contínua traduz-se num aumento significativo da produtividade. A redução de erros e retrabalho contribui para diminuir custos, enquanto a substituição de trabalhadores em tarefas perigosas permite melhorar a segurança em obra. No entanto, a adoção destas tecnologias não está isenta de desafios.

O investimento inicial necessário para a implementação de sistemas robóticos – incluindo equipamento, software e formação – constitui uma das principais barreiras. A integração com sistemas de planeamento e gestão de obra exige também mudanças organizacionais relevantes, assim como o desenvolvimento de novas competências tecnológicas por parte dos profissionais do setor.

Além disso, a robótica tende a ser mais eficaz em tarefas padronizadas e repetitivas. Existem, contudo, muitas atividades na construção que continuam a exigir adaptação constante, destreza manual e capacidade de decisão em tempo real, sendo, por isso, difíceis de robotizar. É o caso de certos trabalhos de acabamento, de instalações técnicas mais complexas (como eletricidade ou redes de águas e esgotos) ou de intervenções em superfícies muito irregulares.

A própria natureza dos estaleiros constitui outro desafio. Estes ambientes são dinâmicos e imprevisíveis, sujeitos a alterações frequentes, condições meteorológicas variáveis e à presença simultânea de múltiplas equipas. Estas características dificultam a implementação de sistemas totalmente autónomos e reforçam a necessidade de soluções flexíveis e adaptáveis.

Para promover a adoção da robótica na construção, são necessárias medidas a vários níveis. Ao nível dos projetos, destaca-se a importância da integração de tecnologias como o Building Information Modelling (BIM), bem como a aposta na pré-fabricação e na construção modular. Ao nível das empresas, é fundamental investir em inovação, formação tecnológica e colaboração com universidades e centros de investigação. Já ao nível nacional, políticas públicas como incentivos fiscais, financiamento de investigação e desenvolvimento de regulamentação adequada – nomeadamente em matéria de segurança e interação humano-robô – poderão desempenhar um papel decisivo.

O futuro da construção será inevitavelmente mais tecnológico. A integração de robôs, sistemas inteligentes e análise de dados permitirá criar estaleiros mais eficientes, seguros e produtivos. No entanto, esta transformação não implica a substituição total do trabalho humano. Pelo contrário, tudo indica que o setor evoluirá para modelos de colaboração, onde humanos e máquinas desempenham funções complementares: os robôs assumem tarefas mais repetitivas e exigentes, enquanto os profissionais se concentram no planeamento, supervisão e tomada de decisão.

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