Opinião | E se fosse eu? O lado que não queremos ver sobre a inclusão no mercado de trabalho em Portugal

Fala-se muito em inclusão. Está presente nos slogans, eventos e em redes sociais corporativas. Aparece nos relatórios de sustentabilidade e nos compromissos públicos que as empresas assumem com orgulho. Mas quando saímos de palco, os holofotes se apagam e olhamos para dentro, para os nossos processos, as nossas lideranças e as nossas equipas, percebemos a verdade: nós não estamos preparados para incluir.

E esse “nós”, é mesmo nós, é mesmo coletivo. Não são só “as empresas” ou “os outros”. Somos nós, enquanto profissionais, enquanto líderes, enquanto colegas. Somos nós que ainda não sabemos como agir. Somos nós que não criámos espaço, não fizemos perguntas, não desconstruímos preconceitos. Somos nós que deixámos a inclusão para o fim da lista.

Quando trabalhamos diariamente para integrar pessoas com incapacidade, vemos isso de perto. Empresas com boas intenções, mas sem estrutura. Lideranças que valorizam o tema, mas sem tempo ou capacidade para incluir. Equipas que querem ajudar, mas não sabem como. Processos que não foram pensados para a diversidade, muito menos para pessoas com incapacidades motoras ou psicológicas.

A verdade é dura e custa ouvir: a maioria de nós não está preparado para acolher, adaptar, ensinar ou acompanhar estes profissionais. Falamos de produtividade, de performance e resultados, mas esquecemo-nos de que a inclusão é parte disso. Porque integrar vai além de contratar – é preparar, adaptar, acompanhar e, sobretudo, reconhecer valor onde normalmente não olhamos.

Se falamos tanto em escassez de talento, precisamos de admitir que estamos a ignorar uma parte valiosa. Não por falta de mérito dos profissionais, mas por falta de visão, preparação e compromisso nosso.

A integração de pessoas com incapacidade no mercado de trabalho não pode continuar a ser empurrada para “mais tarde”. Tem de parar de ser adiada porque está a acontecer agora. E estamos a falhar. Falham as escolas, porque não têm recursos. Falha o Estado, por não apoiar suficientemente as famílias. E, consequentemente, falhamos nós, as empresas, porque não temos modelos de integração adaptados.

Estes jovens enfrentam um percurso académico mais longo, mais solitário e mais exigente. Muitos desistem. E os que chegam finalmente ao mercado de trabalho, o que encontram? Silêncio. Portas fechadas. “Nãos” constantes. São candidatos com talento, vontade e capacidades. Mas que precisam de mais atenção, mais acompanhamento e mais sensibilidade. Não se trata de integrar de forma desigual, mas sim de forma justa.

Mas nós, enquanto profissionais, também falhamos, diariamente, quando não repensamos os nossos critérios, os nossos métodos, os nossos preconceitos. Quando dizemos “não temos condições” em vez de perguntar “o que é preciso para termos?”. Quando confundimos justiça com favoritismo ou privilégio. Quando não nos esforçamos para compreender a realidade de quem vive num corpo, numa mente ou num contexto diferente do nosso.

A verdade é que estas pessoas não querem privilégios. Querem acessos, querem oportunidades. Precisam de empresas que não só os aceitem, mas que saibam como os acolher. E isso dá trabalho. Dá mesmo! Mas é esse trabalho que separa as organizações que crescem das que estagnam.

Se queremos liderar com propósito, se queremos criar uma cultura inclusiva que vá além de palavras bonitas no website, precisamos de agir. Rever processos de recrutamento. Formar lideranças e equipas. Preparar as nossas empresas. Criar planos de integração reais. Trabalhar com especialistas. Ouvir quem sabe. Ouvir, sobretudo, quem vive num outro contexto.

Falta-nos a coragem de fazer diferente, de sair da zona de conforto, de reconhecer a nossa falta de preparação — e fazer disso um ponto de partida. Por isso, deixamos uma pergunta incómoda, mas necessária: E se fosse eu?

Chegou a hora de parar de fingir que está tudo bem. Está na hora de mudar.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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