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Quo vadis, Brasil? Educação, ressentimento e a crise do mundo comum

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18.10.2026

O Brasil foi, para mim e para muitos portugueses da minha geração, uma espécie de segunda pátria. Não apenas pela proximidade linguística e cultural, mas pela experiência de uma sociedade que, apesar das suas enormes desigualdades, parecia possuir uma extraordinária capacidade de reinvenção, de convivência com a diferença e de construção democrática. É por isso que acompanho estas eleições com uma inquietação que ultrapassa a curiosidade de quem observa um país estrangeiro. O resultado do primeiro turno obriga-me a olhar para o Brasil, mas também para algumas das certezas com que temos pensado a educação e a democracia.

A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, separados por uma diferença relativamente pequena no primeiro turno, revela uma sociedade profundamente dividida. Mas os dados disponíveis não autorizam explicações simples. Na sondagem Datafolha realizada entre 29 de setembro e 1 de outubro, Lula e Flávio Bolsonaro apareciam tecnicamente empatados entre os eleitores com ensino médio e também entre os que tinham ensino superior. A diferença era mais nítida entre os eleitores com apenas o ensino fundamental, onde Lula tinha vantagem, e nas faixas de rendimento mais elevadas, onde Flávio se destacava. O nordeste permanecia claramente favorável a Lula, enquanto o sul se inclinava para Flávio; entre católicos e evangélicos encontrava-se também uma das divisões mais marcadas do eleitorado.

É precisamente esta complexidade que torna a questão interessante. Se queremos compreender o que está a acontecer no Brasil, não basta perguntar quem ganhou ou perdeu, nem sequer identificar as características sociológicas dos eleitores. É preciso perguntar por que razão, numa sociedade que conheceu uma extraordinária expansão da escolarização, o conhecimento não parece ter produzido, por si só, maior capacidade de resistência à polarização, ao ressentimento e às narrativas políticas que transformam o adversário em inimigo.

Talvez tenhamos acreditado demais numa relação que nunca foi automática: mais escolarização significaria mais conhecimento; mais conhecimento produziria pensamento crítico; e o pensamento crítico conduziria naturalmente a uma cultura democrática. A História mostra que não é assim. Uma pessoa pode possuir formação universitária elevada e continuar a interpretar a sociedade por meio de categorias profundamente hierárquicas; pode dominar conhecimentos especializados e ter uma compreensão limitada da História e das estruturas sociais que condicionam a sua própria vida. A escolarização é uma condição indispensável da democracia moderna, mas não é, por si só, educação democrática.

Recordar Paulo Freire

É neste ponto que Paulo Freire volta a ser uma referência incontornável. A sua ideia de conscientização foi muitas vezes reduzida a uma espécie de pedagogia política destinada a despertar os oprimidos. Era muito mais exigente. Conscientizar significava aprender a ler criticamente a realidade, relacionando a experiência vivida com as estruturas históricas e sociais que a produzem. Não bastava saber ler a palavra; era necessário aprender a ler o mundo. E essa leitura não poderia ser substituída pela simples........

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