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As terras raras da segunda ruralidade. Ensaio de António Covas

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05.06.2026

Estamos em 2026. Pergunto-me se será, ainda, possível definir uma espécie de contrato social entre a sociedade e a natureza que seja um imperativo ético-político e uma utopia prática que nos levem, enfim, do rural tardio e remoto português até à segunda ruralidade do século XXI. Num tempo de aceleração tecno-digital sem precedentes, vale a pena fazer uma breve incursão por este mundo paradoxal que mistura o rural tardio e remoto com as agriculturas de precisão, digitalizadas e automatizadas.

Em primeiro lugar, é importante recordar os erros cometidos e as falhas mais estruturais de política pública agro-rural acumuladas ao longo de décadas. Eis as mais importantes: a falta de uma política urbana de cidades médias – as capitais de distrito; as falhas de ordenamento do território e política fundiária – cadastro, banco de solos, arrendamento rural e gestão agrupada; as falhas de política pública em matéria de extensão rural e aconselhamento técnico; as falhas associativas de rejuvenescimento e transição intergerações; as falhas de coordenação entre instituições de Ensino Superior, associações empresariais e administrações públicas que não levaram a uma maior empresarialização; as falhas de engenharia financeira para apoiar a agricultura familiar e a gestão associativa; as falhas de regulação pública dos mercados agroalimentares que não permitiram uma repartição mais justa de rendimento; as falhas de articulação intermunicipal em relação às redes de produção e abastecimento alimentar, da pequena agricultura aos circuitos de institutional food; a remissão de quase toda a política de incentivos financeiros para os programas europeus sem diferenciar uma parte dos apoios à produção.

Em segundo lugar, a globalização e a modernização do agronegócio acelerou a desigualdade face à pequena e média agricultura familiar do rural tradicional. Eis os aspetos fundamentais: a globalização das cadeias logísticas e a eventual descontinuação nas fileiras; a crescente mobilidade do fator terra, que provocou, simultaneamente, abandono e concentração da propriedade e, logo, o risco de incêndio; o aumento do investimento direto estrangeiro acompanhado da volatilidade dos capitais com impactos sobre os valores naturais e o sistema-paisagem; o excesso de zelo regulamentar e administrativo que cria dificuldades adicionais às micro e pequenas explorações; a não atualização da missão das instituições de Ensino Superior face às necessidades de intervenção nas economias locais e regionais; a incultura sobre os recursos identitários e simbólicos do território que danifica a sua estrutura de oportunidades; as falhas nas carreiras da função pública que levaram ao envelhecimento e à desvitalização dos serviços regionais.

Em terceiro lugar, um fator relevante nesta transição diz respeito aos conceitos novos que carregam consigo os riscos de uma carga prescritiva e normativa elevada. Falo de conceitos como sustentabilidade, multifuncionalidade, coesão, governança, segurança, regeneração. O risco implicado é de que a política pública rural adote as recomendações prescritivas e normativas sem, no entanto, a........

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