Uma grande potência sem protetorados. Opinião de António Caeiro

Depois da intervenção militar dos EUA na Venezuela e no Irão, muitos comunistas chineses terão questionado a sua convicção acerca do “declínio da América”. Inversamente, parte do público ocidental deve ter concluído que, afinal, as estreitas relações económicas e políticas entre a China e aqueles países não constituíam um pacto de assistência mútua e, muito menos, uma aliança militar. “A China provou ser um amigo inútil para os seus aliados autoritários”, comentou o embaixador norte-americano Nicholas Burns, que esteve colocado em Pequim durante a Administração Biden.

Um conselheiro do governo chinês, o professor de Ciências Políticas Zheng Yongnian, defendeu que “a tradicional doutrina de não intervenção” do seu país “necessita urgentemente de reflexão e ajustamento”. A China devia “demonstrar a força e as políticas apropriadas a uma grande potência”, afirmou. Não são essas, contudo, as “prioridades” da liderança chinesa. Para Pequim, “as questões internas vêm em primeiro lugar”, escreveu Wang Zichen, vice-secretário geral do Center for China and Globalization, um think tank sediado na capital. “Por mais poderosa que a China se tenha tornado, continua preocupada com a modernização interna: revitalizar a procura, criar empregos, gerir a dívida, lidar com a pressão demográfica, sustentar a atualização tecnológica e preservar a estabilidade social.”

Durante uma semana, entre 5 e 13 de março, enquanto a guerra contra o Irão dominava os noticiários na Europa, o que a imprensa chinesa destacava diariamente dizia respeito à reunião anual da Assembleia Nacional Popular que decorria no Grande Palácio do Povo, em Pequim. Trata-se do “supremo órgão do poder de Estado”, com cerca de 2900 deputados. A agenda incluía a aprovação do 15º Plano Quinquenal (2026-2030), destinado a “estabelecer uma base sólida” para conseguir duplicar o produto interno bruto per capita em apenas 15 anos e “ultrapassar os 20 000 dólares em 2035”. A China atingirá então “o nível de um país moderadamente desenvolvido”, concretizando “um processo de modernização a uma escala nunca vista na História humana” e que “até agora, menos de 30 países, com uma população conjunta inferior aos 1400 milhões de chineses, conseguiram realizar”, proclamou a agência noticiosa oficial Xinhua. A “estabilidade social” também depende disso. Cerca de 120 milhões de camponeses (8% da população) vivem com pensões inferiores a 300 yuan (40 euros) por mês – menos de um décimo do que os reformados urbanos recebem. Alguns deputados propuseram que as pensões rurais subissem para 1000 yuan (130 euros) até 2030, mas o aumento foi de apenas 20 yuan (três euros) por mês. A “prosperidade comum” prometida pelo Partido Comunista continua por cumprir.

Segundo o orçamento aprovado para este ano, o investimento na ciência e na tecnologia aumentará cerca de 10% em relação a 2025. É “o maior aumento entre as grandes despesas do Estado, ultrapassando as percentagens registadas na defesa, na diplomacia, na segurança pública e na educação”, contabilizou um jornal de Hong Kong. “Desenvolvimento de alta qualidade” é a palavra de ordem. A mão de obra parece assegurada. Oficialmente, mais de 250 milhões de chineses têm educação superior e o número cresce todos os anos mais de dez milhões. O objetivo é “desenvolver tecnologias que não dependam de outros países” e construir “um completo e autossuficiente ecossistema tecnológico”, salientou o economista Yao Yang, professor da Beida, doutorado em Princeton, nos EUA.

Em vez de aliados, a China tem parceiros, incluindo em Israel. O porto de Haifa, por exemplo, é operado por uma empresa de Xangai. Uma outra companhia chinesa construiu uma linha do metro de superfície de Telavive. Outras grandes infraestruturas em curso na região – nomeadamente estações de dessalinização na Arábia Saudita, no Iraque, em Omã e nos Emirados Árabes Unidos – foram também adjudicadas à China. Entre 2019 e 2024, o Médio Oriente foi mesmo a região do mundo onde o investimento chinês mais cresceu: 89 mil milhões de dólares, apurou a consultora Eurasia Group.

Excetuando na península coreana, em 1950, quando as tropas norte-americanas se aproximaram da sua fronteira, a China nunca entrou em guerra para ajudar outro país. “A moderna identidade política da China foi forjada através de invasões, coerção e humilhação nacional”, argumentou Wang Zichen. “Um país com esta experiência está menos inclinado a romantizar a ideia de que os Estados fortes devem sair das suas fronteiras para reordenar os mais fracos pela força.” O mesmo ensaísta considera que “o risco maior não é que a China se torne como os EUA”, um país “incapaz de imaginar uma grande potência sem protetorados”. O “risco” – afirma – é Washington “continuar a confundir contenção com fraqueza”.


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