menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Descobrimos uma ilha

12 0
11.06.2026

Ivanka Trump descreveu Sazan como uma ilha privada que ela e o marido descobriram. A frase merece ser lida devagar, porque diz quase tudo. Sazan é a maior ilha da Albânia. Pertence a um país inteiro, está dentro de um parque marinho nacional, e tem uma história documentada que recua à Antiguidade. Não foi descoberta por ninguém em 2026. Mas há um certo tipo de gente para quem as coisas só começam a existir quando lhes põem a mão em cima.

Vale a pena perceber o que é, de facto, esta ilha, porque a escolha não é inocente. Sazan fica à entrada da baía de Vlora, no ponto exato onde o Adriático encontra o Jónico. Durante mais de um século foi um dos lugares mais inacessíveis da Europa. Os italianos fascistas começaram a fortificá-la nos anos trinta. Depois veio o regime comunista de Enver Hoxha, que a transformou na base militar mais secreta do país e a encheu de betão. Falamos de cerca de três mil e seiscentos bunkers individuais, quilómetros de túneis, um hospital e um cinema subterrâneos, e três mil soldados a viver sob o medo permanente de uma invasão que nunca chegou. Uma revista americana chamou-lhe, nos anos quarenta, o Gibraltar secreto da Rússia.

Quero que se fixe esta ideia, porque é o centro de tudo. Durante um século, aquela ilha foi construída para resistir a estrangeiros. Resistiu a impérios, resistiu à guerra, resistiu à paranoia nuclear da Guerra Fria. Nenhum exército a tomou. E agora vai cair. Não por um desembarque, não por canhões, mas por um cheque. O que nenhuma potência militar conseguiu fazer, o capital faz com uma assinatura. A fortaleza que existia para manter os estrangeiros de fora vai ser entregue a estrangeiros, em nome do turismo de luxo.

E aqui chegamos à........

© Visão