Por que manter o nome de um feminicida em uma rua de SP é um erro

Por que manter o nome de um feminicida em uma rua de SP é um erro

A CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara Municipal de São Paulo aprovou na quarta-feira (18) um PL (Projeto de Lei) que propõe mudar o nome da Rua Peixoto Gomide, na região da Avenida Paulista, para Sophia Gomide. A proposta vai a plenário. Ou seja, 55 vereadoras e vereadores dirão se concordam ou não com a mudança. É um termômetro importante para as próximas eleições, por isso vale acompanhar.

Peixoto, que era advogado e ocupava uma cadeira no Senado, assassinou a própria a filha, em 1906. Oito anos mais tarde virou nome de uma das ruas mais conhecidas da capital paulista. Já Sophia foi esquecida da história oficial. A própria Câmara, que tem a atribuição legal de nomear os espaços comuns da cidade, não registrou na época da homenagem o feminicídio cometido por Peixoto, apenas oito anos antes. Agora, uma campanha busca corrigir essa e tantas outras histórias.

"Feminicida Não é Herói" busca colocar no centro da memória pública quem sempre foi colocada de lado, quando muito. É um movimento pela aprovação da PL 483/2025, que impede nomeações do tipo. Porque rua não é, apenas, onde se passa indo a algum lugar, a rua já é o próprio lugar. E os nomes que recebem dizem muito sobre quem a cidade decide lembrar. Parece um detalhe burocrático, está longe de ser isso.

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"Quando a gente caminha pela cidade estamos atravessando as suas escolhas", explica a pesquisadora Wans Spiess. "O nome dado às ruas é, também, aquilo que ela decide contar como história. O que a gente, como sociedade, decidiu chamar de importante", explica a criadora do Quer Caminhar Comigo, projeto que promove experiências de caminhadas sensoriais pela capital. Mais de perto, as pessoas conhecem os detalhes de onde moram.

Wans afirma que uma rua carregar o nome de quem praticou uma violência tão brutal não é, apenas, um detalhe histórico, mas a continuidade de uma narrativa que normaliza as violências. A pesquisadora defende que renomear, como é a proposta, não é apagar, mas reposicionar. "É afirmar que queremos contar outras histórias, dar visibilidade para outras formas de existência, contribuição e construção da cidade".

A doutora em História Cultural Paula Janovitch, concorda e vai além.

Paula defende que "é importante que, junto com a mudança do nome da rua, também exista uma explicação do porquê da troca. Uma placa, algo assim, que venha junto da nova que será colocada". É neste trabalho de contextualização das pessoas e dos lugares que nomeiam os espaços comuns da cidade, ela diz, que acontece a educação da própria população sobre sua a história. Aquela que é lembrada, aquela que não.

Levantamento da prefeitura aponta que São Paulo tem cerca de 65 mil logradouros. São espaços públicos como ruas, avenidas, alamedas, praças e travessas. Dentro deste universo, 68% das vias recebem nomes de pessoas e apenas 16% são femininos. O documento, que pode ser lido na integra aqui, detalha inclusive como se dá essa divisão entre as vias consideradas mais importantes. Entre os 87 viadutos, para ficar num exemplo, 77 homenageiam homens. Não é um acaso.

Em 2024, a Câmara dos Vereadores de São Paulo elegeu aquela que é considerada a sua maior bancada feminina da história. Mesmo sendo a maioria populacional, 52,7% numa das maiores cidades do mundo, mulheres são 36% das representantes da casa. Se considerarmos que nós homens, 64% da casa, em geral, reconhecemos apenas outros homens como autoridade e referência, daí é só ligar os pontos.

Wans comentou algo poderoso, vale fechar com isso: "É mais que a troca de uma placa, é uma mudança de visão de mundo". É quando uma sociedade escolhe ser saudável e consciente, passando a não homenagear quem carrega junto uma, entre as tantas violências presentes no país. Todos os dias.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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