Entre o 'Brasa' e a rua, seleção vai ficando mais longe do povo |
Entre o 'Brasa' e a rua, seleção vai ficando mais longe do povo
Aos 13 anos, boa parte das crianças da nossa geração via o auge da vida em qualquer coisa que as levasse ao futebol. A seleção brasileira masculina era um acontecimento que rendia horas de conversa antes, durante e depois da aula, no dia seguinte de qualquer amistoso. O futebol feminino nunca chegou como informação ou possibilidade afetiva naquela época. Mas se isso mudar agora, o futuro será bem diferente. Tomemos essa decisão.
Mesmo sem rede social anos atrás, quase todas as pessoas sabiam alguma coisa que envolvia o sonoro 1 a 0 contra um país sobre o qual se precisava da ajuda da professora de Geografia para procurar no mapa. Nem todo mundo se importava com a partida em si, mas a história que brotava dela parecia atravessar mais a vida das pessoas do que hoje.
Alguém que assistiu com a mãe, no único momento em que ela conseguia fugir da sua sobrecarga de trabalho e ficar ali, do lado. Para o outro, que assistia com o pai, o futebol era uma espécie de iniciador de conversas entre dois homens que não foram ensinados a falar nada sobre o que sentem.
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Na dimensão digital das nossas vidas, sem dúvida uma das grandes conversas da semana por aqui, senão a maior delas, foi o lançamento da camisa com que o time brasileiro jogará a próxima Copa do Mundo. Sim, este é um ano de Copa, apesar de não parecer tanto. Nas redes sociais, muita gente se aproveitou da situação para diminuir a profissional que viralizou apresentando toda a história. Ela é uma trabalhadora, que cumpre o que lhe foi solicitado pelas várias camadas de chefia às quais responde. Não disfarce um preconceito como posicionamento.
Pensado por dezenas de profissionais preparados para desenhar campanhas e tudo mais, coisa que admiro como habilidade, mas que não é meu campo de jogo, o lançamento dos uniformes engajou por motivos que, imagino, não eram bem os esperados. Virou meme, risada, raiva de gente mais apaixonada e até algumas colunas jornalísticas, como esta. Bom mesmo é estar na boca das pessoas pelos motivos bons.
Do "Brasa", justificado como o canto da torcida brasileira, mesmo que ninguém saiba de onde isso saiu, ao canarinho de três pernas voando da gaiola, passando pelas explicações conceituais que fazem pouco ou nenhum sentido aqui do lado de fora do mundo do futebol, tudo pareceu meio desconectado para quem está só a um degrau de distância da conversa. Imagine quem nem se interessa pela seleção. Faz tempo que tudo o que envolve o time brasileiro dos meninos parece, mesmo, meio desconectado.
Não é só um bom desempenho, coisa que o time verde e amarelo não tem faz tempo, ou a história, coisa que temos de sobra, que criam e sustentam vínculo emocional entre a arquibancada e o campo de jogo. É a identificação e o senso de pertencimento, coisas que os clubes conseguem construir no dia a dia e que a seleção parece perder, ano a ano, pelos mais diferentes motivos.
Identificação é a capacidade que aquela camisa e tudo o que ela quer dizer, os jogadores que a vestem e o universo em que estes elementos estão inseridos têm de mobilizar sentidos e sensações até em quem tem coisa mais urgente para fazer com a vida. Muitas vezes, correr para sustentar de pé a própria vida.
Pertencimento é essa mesma pessoa não acreditar que existe um "nós e eles" e se sentir parte, de alguma maneira, do que está sendo feito no estádio. Mesmo tão longe física e socialmente de quem ganha em um mês o que nós, mortais, não ganhamos na vida toda.
Porque, no fim, quem gosta de qualquer coisa, inclusive do futebol, quer mesmo é um motivo para contar uma boa história para dentro de si mesmo numa experiência com aquilo. Algo que encoraje e inspire, depois que aquele instante acabar. Não se assiste ao seu time pelo que ele faz no jogo, mas pelo que faz com a gente. E há anos a seleção masculina não faz boa parte da sua torcida sentir nada.
Se aquela experiência, no caso um time de futebol vestindo amarelo correndo atrás de uma bola a quilômetros de distância, não consegue contar uma história para quem está voltando para casa cansado, não será um conceito, por melhor que seja, que vai conseguir. O foco e a atenção criativa deveriam estar nas pessoas que nos motivam a fazer o que fazemos, criar o que criamos, não apenas no conceito e na narrativa que embalam aquela história para o mundo.
Se as pessoas não se veem mais em quem é chamado para a Copa do Mundo, conte quem são esses jogadores, o que gostam de fazer no tempo livre e como foram as suas infâncias. Se a seleção só engaja quem trabalha com futebol ou é muito apaixonado pelo esporte, atravesse os ídolos na vida cotidiana, mostre que eles, como qualquer pessoa, às vezes têm preguiça de levantar para trabalhar.
Se a busca é por uma identidade realmente brasileira na camisa da seleção, convide o Instituto Letras que Flutuam para colaborar na criação da tipografia da camisa e envolva designers das periferias e favelas brasileiras no desenho dos demais elementos do uniforme. É a conversa genuína na feira, e não a algorítmica da rede social, que constrói sentido, pertencimento e cultura.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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