Por que a temível 'Ilha Navio de Guerra' gerou briga entre países da Ásia |
Por que a temível 'Ilha Navio de Guerra' gerou briga entre países da Ásia
32º37'N, 129º44'LIlha HashimaNagasaki, Nagasaki, Japão
A Ilha Hashima já foi um dos locais mais densamente povoados do mundo. O amontoado de prédios, além do muro que a circundava, lhe rendeu o apelido Gunkanjima, ou "ilha navio de guerra" em japonês.
Hoje, ela é um ponto turístico de certa popularidade em Nagasaki, no extremo sul do Japão. E não um qualquer: a estranha ilha faz companhia às mais de duas dúzias de castelos, templos e paisagens únicas do Japão que são patrimônios da Unesco.
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A entidade considera que Hashima é testemunho de um período específico da história japonesa. Mas a maneira como o Japão conta essa história enfureceu outros países diretamente envolvidos, em especial a Coreia do Sul.
Era para ser apenas um destino turístico alternativo, voltado aos fãs de locais abandonados. Mas virou uma crise diplomática entre potências asiáticas.
A vida em Hashima girava em torno do carvão, que foi descoberto ali em 1810 e, no Período Meiji (1868-1912), foi o motor da Revolução Industrial no Japão. Ela fica a apenas 5 quilômetros da costa, mas começou a ser povoada somente no fim do século 19.
Em 1890, a Mitsubishi adquiriu a ilha para explorar as minas submarinas. O carvão foi um dos primeiros setores em que o conglomerado industrial, um dos mais importantes do Japão, se envolveu.
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Cada vez mais trabalhadores chegavam para viver em Hashima. Em 1916, a Mitsubishi construiu ali o primeiro edifício de concreto armado do Japão. A estrutura reforçada era uma forma de tentar resistir à fúria dos tufões.
A partir dos anos 1930, civis coreanos (além de prisioneiros de guerra chineses) foram enviados à ilha em um regime de trabalho forçado. A Coreia era colônia do Império Japonês desde 1910.
Era uma rotina brutal. Em 2015, um desses trabalhadores contou ao jornal britânico "The Guardian" que quase desmaiou em sua primeira descida às minas. Muito calor, umidade extrema e um pó de carvão onipresente, que cobria o corpo e até a pouca comida a que tinham acesso, levavam à exaustão.
Eu era uma das 'toupeiras'. Extraía carvão e depois ajudava a quebrá-lo para que fosse retirado da ilha. Era um trabalho extenuante, então eu passava todo o meu tempo livre dormindo contou Tomoji Kobata ao jornal.
Cerca de 60 mil coreanos viveram nesse regime em Hashima e outras seis ilhas. As habitações eram minúsculas, mas tinham luz elétrica. A ilha contava com hospital, escola e até cinema e quadras esportivas, para quem tinha alguma energia no tempo de folga.
"Eu sempre estava faminto, recebíamos muito pouca comida", disse Joo Seok-Bong à agência Associated Press.
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A taxa de mortalidade varia conforme a fonte. Algumas falam em dezenas, mas, segundo uma reportagem da revista "Cabinet", 1.300 trabalhadores coreanos morreram na ilha.
Alguns em acidentes subterrâneos, outros de doenças relacionadas a exaustão e desnutrição. Houve também quem escolheu uma maneira mais rápida e menos macabra de morrer, ao pular da muralha e tentar, em vão, chegar à terra firme.
Em 1959, a população da ilha, que tem uma área equivalente a metade da área construída do Copan, em São Paulo, era de mais de 5 mil pessoas. Isso dava uma densidade de 83 mil habitantes por quilômetro quadrado (ou 139 mil, levando em conta somente o distrito residencial de Hashima).
Não chegava a ser como a antiga cidade murada de Kowloon, em Hong Kong (tema da coluna há uns anos). Mas era um dos locais mais densamente povoados do mundo.
Com a derrota do Japão na Segunda Guerra, a Coreia recuperou a independência. Os trabalhos forçados foram abolidos.
Nos anos 1960, o petróleo substituiu o carvão como principal matriz energética do Japão. Minas em todo o país deixaram de operar, a Mitsubishi encerrou as atividades em Hashima em 1974 e os últimos habitantes deixaram a ilha.
Largada às intempéries do tempo, do mar e do clima, Hashima virou um retrato desgastado do passado. A natureza começou a preencher espaços entre os blocos de apartamento, a muralha e as antigas estruturas fabris.
Em 2005, a cidade de Nagasaki assumiu a administração da ilha. Em 2009, uma pequena parte dela foi aberta ao turismo.
Quem chega vê as torres sem janelas, as escadarias em ruínas, as sacadas sem vista e sem vida. O passeio é limitado a passarelas delimitadas, pois o local, apesar da brutalidade aparente do concreto, é muito frágil.
Os guias de turismo falam baixo, as pessoas precisam caminhar com cuidado. Tudo é apertado, o vento assobia por entre becos e passagens estreitas, aumentando ainda mais a sensação do mar pressionando a muralha por todos os lados.
Patrimônio da humanidade e revisionismo histórico
Em 2009, o Japão inscreveu na Unesco uma série de locais que o país julgava representativos do período de industrialização entre os séculos 19 e 20. Esse é o primeiro passo oficial para tentar emplacar um destino como patrimônio da entidade.
A inclusão de Hashima entre esses lugares enfureceu os governos de Coreia do Sul, Coreia do Norte e China. Seul argumentou que um reconhecimento oficial da Unesco, caso fosse aceito, violaria a dignidade dos sobreviventes dos trabalhos forçados.
Os países chegaram a um acordo, e o Japão se comprometeu a "contar a história toda". Os turistas que visitassem Hashima teriam informações à disposição e à vista a respeito desse período da história.
Em 2015, Hashima e os outros 22 lugares - a maioria no sul, mas também no centro e no norte do Japão - se tornaram patrimônio cultural da Unesco. Os 23 sítios foram agrupados sob um título instigante: "A Revolução Industrial do Japão da Era Meiji: Ferro e Aço, Construção Naval e Mineração de Carvão". ((https://whc.unesco.org/en/list/1484/maps/))
Então, os problemas começaram. Os coreanos criticaram que a documentação não dizia que as pessoas foram vítimas de trabalho forçado, mas que elas foram apenas requisitadas a trabalhar contra a própria vontade e em más condições.
Fumio Kishida, então ministro das relações exteriores do Japão, declarou que não ia voltar atrás e que o país manteria os textos daquele jeito. Uma aula de embromation, digna de post no Linkedin.
Koko Kato, ex-membro do gabinete do então primeiro-ministro Shinzo Abe, assumiu o cargo de diretora do Centro de Informação do Patrimônio Industrial, museu de Tóquio dedicado aos novos sítios chancelados pela Unesco. Logo ela criou polêmica.
Conservadora como seu ex-patrão (assassinado em 2022), Kato não pensou duas vezes antes de expor seu ponto de vista. O museu nem havia sido inaugurado quando ela usou parte do orçamento para publicar vídeos e artigos que negavam a existência de trabalho forçado na ilha.
Quando o centro abriu as portas, em 2020, o ministério das relações exteriores da Coreia do Sul foi enfático ao classificar os textos como "revisionistas". Houve críticas também na imprensa do Japão, afinal os abusos cometidos antes e durante a guerra são bem documentados.
No ano seguinte, um comitê da Unesco analisou o caso e concluiu que o Japão não cumpriu o trato. Disse que os textos das placas informativas do museu se basearam principalmente nas fontes usadas pela equipe de Kato, a maioria delas do Japão. Dizia o documento:
Há somente um testemunho de um coreano, e ele era uma criança na época, que não se lembra das condições de trabalho
A Unesco deu um prazo para que Kato fizesse as correções necessárias. Mas ela não só se negou, como afirmou que "o povo coreano e da Ilha Hashima apoiava o sistema de produção intensificada em uma harmoniosa força de trabalho, como uma família".
No ano passado, a Coreia do Sul solicitou que o tema fosse reaberto de maneira oficial pelo Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco. Só que isso exigia consenso entre os 21 membros.
O Japão, que integra o comitê, se negou a aceitar. Então o assunto foi para votação, o que é raro.
A Coreia acabou perdendo. A maioria dos integrantes votou para não incluir o tema na pauta oficial. Seria uma maneira de evitar uma politização da Unesco.
A situação não é inédita. Existem diversos patrimônios da humanidade que representam alguns dos episódios mais asquerosos da história. Os fortes, castelos e outros pontos de não retorno de escravizados em Gana e no Senegal, o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polônia e até o Coliseu, em Roma, palco de atrocidades contra humanos e animais ao longo de séculos, são alguns exemplos.
Em 1996, o Japão esteve envolvido em outro episódio do tipo. Os Estados Unidos se opuseram à inscrição do Domo de Hiroshima, ruína que simboliza a devastação da bomba atômica, como patrimônio da Unesco.
Os americanos alegavam que o Japão se mostrou apenas como vítima, sem dar — o que eles consideravam — o devido contexto que levou a tão extrema medida. A crítica não foi levada muito em consideração, e o domo ganhou o selinho da Unesco.
Nada indica que a narrativa na Ilha Navio de Guerra vá mudar. A visita continuará rolando — curiosa, interessante, provocadora. Mas quem quiser saber mais sobre a versão coreana da história vai ter que ir para a Coreia.
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