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Paulo Saraiva: entre bombas no Congo e Alcaraz no RJ, muita raça e gratidão

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17.04.2026

Paulo Saraiva: entre bombas no Congo e Alcaraz no RJ, muita raça e gratidão

A história de Paulo André Saraiva dos Santos, filho de diarista e pedreiro e que começou no esporte em um projeto social, é uma das melhores histórias do tênis brasileiro. Entrevistei o brasiliense pela primeira vez em 2018, quando o então adolescente conquistou seu primeiro ponto na ATP aos 17 anos.

Nestes quase oito anos, a vida de Paulo teve todo tipo de altos e baixos e experiências duras e fascinantes. Passou um par de anos sem condições financeiras de jogar torneios profissionais; em um treino com Carlos Alcaraz no Rio de Janeiro, soube que houve um convite para treinar com tudo pago na academia de Juan Carlos Ferrero, na Espanha - convite que ninguém lhe descreveu da maneira correta; mais tarde, ouviu tiros e bombas em uma competição no Congo; e hoje, atual #502 do mundo, tem o melhor ranking de sua carreira e segue sonhando.

A história do brasiliense de 25 anos também é uma história de gratidão. Sentimento que mostrou em 2018, na nossa conversa em Brasília, e que ficou evidente neste papo aqui. Saraiva cita diversos nomes que lhe ajudaram na caminhada e deixa um recado claro: quer devolver ao tênis e mostrar que, mesmo sem um grande aporte financeiro por trás, é possível fazer uma carreira mais do que respeitável no tênis. Leia abaixo a íntegra da conversa:

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Talvez você não lembre disso, mas a gente conversou em 2018, em Brasília, quando você conquistou seu primeiro ponto no ranking.

Claro que lembro. Lembro demais!

E minha ideia aqui é contar o que aconteceu com você nestes últimos oito anos. Eu tenho visto seus resultados, mas vi também que em 2019 e 2020 você jogou muito poucos torneios profissionais. Como é que foi esse período depois de conquistar o primeiro ponto, mas sem conseguir competir?

Cara, eu posso te dizer que foi um dos momentos mais duros da minha vida no sentido mental. Depois daquele ponto, eu achei que as coisas iam começar a fluir, só que digamos que eu não estava bem assessorado. E é uma coisa que o Brasil sofre, né? A transição. Isso acontece bastante. E foi um momento duro assim pra mim. Eu tinha vontade de jogar, jogava joguei bastante torneio de grana ["torneios de grana" é como são conhecidas competições regionais com premiação em dinheiro, mas que não fazem parte do circuito mundial e não contam pontos para o ranking] essa época. Jogava bem contra uns jogadores que estavam ali entre 300-400 do mundo, ganhava vários jogos, e isso meio que me matava por dentro, assim, sabe? Eu sentia muito "quero estar lá", mas cheguei a parar de jogar praticamente. Mas uma coisa que aconteceu e fez muita diferença na minha vida foi um treino com o Alcaraz no Rio Open. Fiquei sabendo que recebi uma proposta da academia do Ferrero [Juan Carlos, então técnico de Carlos Alcaraz] depois daquela nossa entrevista do primeiro ponto, mas não chegou até mim.

Basicamente, o que eu fiquei sabendo é que tinha treino grátis, moradia grátis, alimentação grátis, e teria que pagar só o meu voo. E esse rapaz iria me ajudar.

E esse convite não chegou?

Até mim, não. Na época. Eu estava treinando com o Alcaraz no Rio Open, e ele chegou e conversou comigo e perguntou o porquê que eu recusei a academia do Ferrero na época. E eu não sabia direito porque o que chegou até mim foi seis meses depois, que tinha uma proposta da academia, só que eu teria que pagar. Muito vago. Obviamente, não tinha condições. Eu perguntei se tinha uma uma chance de isso acontecer de novo - essa é a primeira vez que eu tô falando abertamente, geralmente falo isso só com pessoas mais próximas a mim - e a resposta dele meio que foi tipo "isso agora é difícil". Acredito que o Pablo Carreño Busta na época tinha conquistado a medalha de bronze [olímpica], então a academia já era muito grande. Lembro que depois desse papo dentro da quadra, o Alcaraz ia jogar contra o Berrettini, se eu não me engano. Esse dia eu fiquei meio mal no vestiário, e eu lembro até que o Bruno Soares veio e me deu um conselho que mudou minha perspectiva de vida.

Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Paulo Saraiva (@_paulo_saraiva)

Um post compartilhado por Paulo Saraiva (@_paulo_saraiva)

Ele falou que quando as coisas não acontecem, é que realmente não tinha que que acontecer. E isso me deu uma luz pra todas as vezes quando alguma coisa não sai como eu planejo. Nessa época, eu tinha um ponto na ATP. Eu demorei, depois disso aí, uns 2-3 anos pra conquistar meu outro ponto. E esse rapaz pegou meu número - até posso falar o nome dele, Marcelo Michelucci, que é uma pessoa que eu tenho que ser grato a minha minha vida inteira - ele conseguiu um patrocinador para me mandar pra Espanha, que foi onde eu fiz minha primeira quartas de final. Passei só uns 3-4 meses na academia, e foi mágico pra mim.

A academia do Ferrero?

Academia do Ferrero. Eu tinha treinos... Lembro de um treino que eu estava treinando com o Emilio Nava, e o Ferrero mesmo parou e me deu conselhos no treino. Foi tipo um momento muito, muito especial assim pra mim. E de lá já fiz alguns pequenos resultados que, pra mim, na época, eram muito grandes.

A gente tá falando aqui de 2021,........

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