Dezenas de cantores em espanhol eram ídolos no Brasil e ninguém se espantava |
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras
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Dezenas de cantores em espanhol eram ídolos no Brasil e ninguém se espantava com isso
A América Latina sempre fez parte da cultura brasileira. Só não era chamada por esse nome
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Correndo o risco de perder leitores pelo sincericídio, confesso que, até há 30 dias, se me falassem em Bad Bunny eu pensaria estar ouvindo uma referência a Bugs Bunny, o coelho dos gibis que, no Brasil, se chamava Pernalonga. Só então fiquei sabendo do cantor porto-riquenho que peitou para valer Donald Trump num jogo de futebol americano em defesa dos imigrantes e, embora sem ouvi-lo, fiquei seu fã. Leio agora que Bad Bunny cantou em São Paulo e, pelos comentários, fará com que nós, brasileiros, percamos nossa "histórica má vontade contra os artistas da América Latina".
Mas haveria essa má vontade e seria tão histórica? Pelo que sei, o argentino Carlos Gardel foi tão querido no Brasil quanto em todas as Américas, e seus tangos, como "Uno", "Mano a Mano" e "El Dia que me Quieras", continuaram a ser ouvidos aqui por décadas depois de sua morte, em 1935. Aliás, nas mesmas vitrolas em que rodava a orquestra de Francisco Canaro, e posso quase apostar que foi num 78 rpm de Canaro que Caetano Veloso aprendeu a letra do mortífero tango "Cambalache", que gravou em 1969.
E os boleros, coqueluche nacional com os mexicanos Agustín Lara, Pedro Vargas, Gregorio Barrios, Tito Guizar, Libertad Lamarque, Elvira Rios e o Trio Los Panchos, o cubano Bienvenido Granda e o chileno Lucho Gatica? E a rumba, com Xavier Cugat e os Lecuona Cuban Boys? E o mambo, com Perez Prado? E a incrível (pela extensão de voz) peruana Yma Sumac? E Sarita Montiel, que, como se não bastasse, cantava?
O próprio Brasil também produzia tudo isso, e bem. A Românticos de Cuba, sucesso internacional, era a Orquestra Tabajara de Severino Araújo sob pseudônimo. Nelson Gonçalves e Dalva de Oliveira gravaram dezenas de tangos em espanhol; o Trio Irakitan e Altemar Dutra idem, com os boleros; e até Elis Regina, recém-chegada do Sul e aspirando à capa da Revista do Rádio, estourou com o cha-cha-cha "Las Secretarias".
Dos anos 1920 a 1970, a América Latina fazia parte da cultura brasileira. Só não era chamada por esse nome.
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