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'O Mandaloriano e Grogu' e o desafio para 'Star Wars' recuperar seu molho

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27.02.2026

'O Mandaloriano e Grogu' e o desafio para 'Star Wars' recuperar seu molho

Não houve melhor época para ser fã de "Star Wars" do que em 1999. Às vésperas da virada do milênio, George Lucas finalmente retomou sua ópera espacial após um hiato de quase duas décadas desde "O Retorno de Jedi". Eram outros tempos. Se em 1977 o lançamento de "Guerra nas Estrelas" foi um fenômeno que tomou o planeta de surpresa e mudou o cinema para sempre, desta vez havia expectativa. Os fãs - ora, o mundo! - estavam ansiosos para experimentar todo aquele frenesi pela primeira vez.

Pode-se argumentar, claro, que "A Ameaça Fantasma" frustrou parte de seu eleitorado com sua trama desnecessariamente truncada. É válido também apontar que, no cinema, "Matrix" terminou sendo o grande filme do gênero naquele ano. Mas "Star Wars", para o bem e para o mal, era um acontecimento, o momento em que a cultura pop convergia para uma paixão em comum: dos fãs acampados nas calçadas dos cinemas semanas antes da estreia à avalanche de todo tipo de produtos, o mundo respirava "Star Wars" em uníssono.

Eu estava em Nova York na semana do lançamento de "A Ameaça Fantasma" - escrevi sobre o impacto do filme aqui. Foi verdadeiramente uma experiência coletiva inesquecível. Os ingressos para as primeiras sessões esgotaram em minutos (um amigo da Fox garantiu os meus para uma sessão vespertina em um multiplex na Union Square). Havia um sentimento de pertencimento a uma comunidade que antecipou a forma de consumir blockbusters no novo milênio - de "O Senhor dos Anéis" a "Harry Potter" aos super-heróis Marvel. Não houve melhor época para ser fã de "Star Wars".

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Tudo isso passou como um raio por meus neurônios quando eu assisti ao novo trailer de "Star Wars: O Mandaloriano e Grogu", que marca o retorno da série ao cinema sete anos depois do equivocado "A Ascensão Skywalker". O impacto da nova prévia, fora do nicho dos admiradores mais fervorosos da saga, foi mínimo. Não existe, ao menos não de forma aparente, nenhum sinal de urgência em retornar à galáxia muito distante. A empolgação e a ansiedade que acompanhava cada novo filme parece ter evaporado. "Star Wars", para todos os efeitos, perdeu sua capacidade de mobilizar a cultura pop. Teria também perdido sem mojo? A ver.

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O fã mais tradicional, aquele que berra aos quatro ventos que "Star Wars" vive por aparelhos desde "O Retorno de Jedi", que ridicularizou a Nova Trilogia de George Lucas e demonizou inconformado a venda da Lucasfilm para a Disney em 2012, logo se apressou em apontar um culpado. Para essa turma, o flagelo da marca se chama Kathleen Kennedy, até recentemente presidente da Lucasfilm, que assumiu a empresa quando George Lucas a vendeu por US$ 4 bilhões. Mas essa turma, claro, está errada.

O primeiro filme produzido por Kennedy foi "E.T. - O Extraterrestre". Ao longo de uma carreira de mais de quatro décadas, ela foi responsável por boa parte da filmografia de Steven Spielberg, além de petardos como "Twister", "O Sexto Sentido" e "O Curioso Caso de Benjamin Button". Sob sua supervisão, "Star Wars" teve momentos irregulares - como a fileira de projetos cancelados, o que geraram incerteza acerca do potencial da marca - e outros de absoluto triunfo.

O maior deles foi sem dúvida a expansão real do universo criado por George Lucas. Apesar de sua escala épica, "Star Wars" parecia muitas vezes se passar na Vila do Chaves, com personagens se esbarrando cronologicamente e narrativamente mesmo com a galáxia inteira como tabuleiro. Foi sob o olhar de Kennedy que cineastas puderam ir além, às vezes voltando ao passado (como na malfadada "The Acolyte"), outras explorando o espaço com outros olhos (como vimos em "Skeleton Crew" ou "Star Wars: Visions"). "Andor", provavelmente a melhor história já contada neste universo desde a trilogia original, fui fruto de sua perseverança.

A responsabilidade sobre "O Mandaloriano e Grogu" é, portanto, imensa. Existe, claro, uma certa segurança em trabalhar com personagens que já foram apresentados ao público com imenso sucesso. O filme, dirigido por Jon Favreau, expande o série que ele mesmo criou para o streaming. Lançado na Disney+ em 2019, "The Mandalorian" acompanhou em três temporadas o mercenário interpretado por Pedro Pascal, guerreiro com código de honra inabalável, reavaliando seus valores ao se tornar guardião de uma criança misteriosa, um bebê alienígena com poderes Jedi latentes.

O fime, agendado para estrear em 21 de maio, chega aos cinemas enfrentando concorrência feroz não só de outras marcas poderosas da cultura pop - este anos temos novos exemplares de "Toy Story" e "Homem-Aranha", além de "Supergirl" e "A Odisséia" -, como precisa bater as expectativas pesadas atreladas ao universo "Star Wars". Em seu último "retorno" aos cinemas, com "O Despertar da Força" em 2015, a série navegou na curiosidade em ver o legado da família Skywalker e do reencontro com personagens emblemáticos como Han Solo, a princesa Leia e Luke Skywalker. Agora precisa de outro Norte.

"O Mandaloriano e Grogu" tem a seu favor, além de um ator no auge de sua popularidade, a aprovação de sua iconografia pela Geração Z, que abraçou o "Baby Yoda" com fúria. Mesmo disperso em um oceano de possibilidades midiáticas tão sedutoras quanto efêmera., é um público fiel, apaixonado e - o principal - engajado. Equilibrar essa fatia da audiência com a de fãs de meia idade em busca de um naco de sua própria inocência talvez seja o maior desafio do novo filme. Não será, como já percebemos, a primeira vez que "Star Wars" busca sair da hibernação.

Nos bastidores, este novo "Star Wars" marca a passagem do bastão, com Kathleen Kennedy estregando a liderança da Lucasfilm para a executiva Lynwen Brennan, que divide a responsabilidade com Dave Filoni. Catedrático em "Star Wars" e protegido de George Lucas, Filoni foi iniciado na série com a animação "Clone Wars" e aos poucos se familiarizou com o quinhão criativo de séries live action. O futuro criativo da saga repousa, hoje, em suas mãos.

O momento não poderia ser mais providencial. Ano que vem "Star Wars" completa 50 anos. O "Guerra nas Estrelas" original será relançado nos cinemas - embora não esteja claro qual versão, se a original ou a edição retocada digitalmente pós-1997. "Star Wars: Starfighter", também agendado para 2027, expande o jogo mais uma vez com Ryan Gosling à frente de uma aventura descolada de qualquer trama pregressa da saga, dirigida por Shawn Levy. Será um ano de celebração disparado antecipadamente por "O Mandaloriano e Grogu", culminando em uma volta ao passado e um olhar para o futuro.

"Star Wars" já esteve no abismo e voltou triunfante. Desde sempre, um grupo pequeno e ruidoso desabona qualquer nova interação da série que não seja exatamente como os filmes que marcaram sua infância. Desde sempre, "analistas" do mundo do entretenimento decretam o fim da saga porque "nenhuma criança compra os brinquedos" ou "nenhum personagem novo é memorável". Ainda assim, a marca segue viva, em constante expansão e como parte indelével do tecido da cultura pop moderna.

Talvez seja difícil, diria até impossível, reproduzir o entusiasmo em torno de "Star Wars" experimentado em 1999. O mundo mudou, se tornou menos físico e mais virtual, os fãs se agregam menos em filas (a não ser que seja para a volta do BTS) e mais em redes sociais. O tempo longe dos cinemas talvez tenha sido benéfico, talvez os fãs, de ontem e de hoje, enxerguem valor real em deixar o conforto do sofá e a comodidade do streaming para experimentar "Star Wars" coletivamente mais uma vez. É no cinema que eu, um fâ velho que não se fecha para o novo, estarei para me encontrar com "O Mandaloriano e Grogu". Este é o caminho.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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