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O fim de Hollywood como centro global do entretenimento

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26.03.2026

O fim de Hollywood como centro global do entretenimento

"Made in Hollywood, USA" foi, por décadas, uma marca do audiovisual dos Estados Unidos. Hoje, essa frase corre risco de extinção.

O bairro de Los Angeles tem uma história que se confunde com a do cinema e da TV — a ponto de se tornar sinônimo da indústria, assim como Wall Street é do mercado financeiro norte-americano. Mas isso está mudando.

No ano passado, o número de produções na região caiu 16%, informa a FilmLA, entidade que gerencia as filmagens e atua no fomento do audiovisual na cidade. A situação só não foi pior porque houve uma recuperação no final de 2025.

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Quando comparado com os níveis pré-pandemia, a queda é ainda maior. Entre o último trimestre de 2019 e o final de 2024, houve uma redução de 53% em dias de gravação — uma métrica do setor —, informa o Milken Institute.

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Para quem circula pelos backstages de Los Angeles, o cenário é desolador. Profissionais estão sem trabalho e sem perspectiva de recolocação em um futuro próximo. Com menos atividade e menor geração de receita, empresas secundárias fecham, criando um efeito cascata que afeta toda a economia da cidade — que é famosa pelo seu alto custo de vida.

A conjuntura tem preocupado até na esfera política — com repercussões no atual processo de consolidação de Hollywood. Caso a venda da Warner Bros. Discovery para a Paramount Skydance seja aprovada, um único grupo de mídia controlará alguns dos grandes estúdios de cinema e TV do país, e cortes de custos — incluindo demissões — podem ter impacto ainda mais devastador considerando o momento.

É por isso que David Ellison, CEO da Paramount, enviou uma carta para congressistas da Califórnia, incluindo nomes como o senador Adam Schiff e a deputada Laura Friedman, afirmando que não tirará mais empregos do estado, como informa The Hollywood Reporter.

"A região de Los Angeles reúne alguns dos profissionais de cinema e televisão mais talentosos e bem preparados do mundo, e espero que os compromissos que assumi ajudem a preservar e ampliar empregos bem remunerados no setor", afirmou o executivo.

Junto com a proposta de fusão, Ellison defende que o conglomerado irá lançar 30 longas-metragens por ano nos cinemas.

Esse é o verdadeiro legado de Hollywood, e minha promessa a vocês é construir uma Hollywood mais forte, mantendo esses dois estúdios históricos operando de forma separada — preservando e, potencialmente, ampliando empregos. David Ellison, CEO da Paramount Skydance, em carta

Ellison, neste momento, tem grande poder em mãos — e por isso uma enorme responsabilidade. É que, apesar do momento ruim na cidade, os estúdios da Warner Bros. são um ponto fora da curva, garantindo muitos postos de trabalho.

O lote — localizado em Burbank, uma cidade que faz parte da Grande Los Angeles — obteve uma taxa de ocupação de 92% em 2025, informa a FilmLA. O valor é muito superior à média de 62% obtida por toda a região no segundo semestre do mesmo ano.

Nesse contexto, a Warner segue na contramão: agora em março, o grupo abriu o "Rancho", nome dado às instalações secundárias. O espaço, que também fica em Burbank, conta com 16 novos estúdios, elevando a contagem da empresa para 50.

"David Ellison tem falado abertamente sobre um compromisso contínuo com a produção", garantiu Simon Robinson, presidente de experiências globais e operações da Warner, ao THR. "Para isso, ele precisa de ativos imobiliários."

Acontece que esses ativos também valem dinheiro — e, de acordo com a própria Paramount, a união com a Warner Bros. resultará em uma companhia com o astronômico valor de US$ 79 bilhões (R$ 414 bi) em dívidas.

Por isso, o caminho pode ser justamente a venda do lote da Paramount Pictures, uma área de cerca de 260 mil metros quadrados e que, no passado, também foi ocupada por nomes históricos da indústria como RKO e Desilu. Clássicos como "O Poderoso Chefão", "Bonequinha de Luxo" e "Jornada nas Estrelas" foram rodadas ali — e o estúdio é o último entre os grandes na ativa que ainda opera nos limites geográficos do bairro Hollywood.

Quem aponta nessa direção é o jornal LA Times, que afirma que a entidade combinada entre Paramount, Skydance e Warner tende a, no futuro, concentrar toda a sua atividade no atual lote da WB em Burbank.

A verdade é que o panorama ruim não surgiu da noite para o dia.

Nas últimas décadas, grandes centros como Nova York, Atlanta, Vancouver (Canadá) e Londres (Reino Unido) se tornaram mais atrativos para a filmagem de filmes e séries. Esse movimento faz parte de políticas públicas não só para atrair investimentos e criar empregos, mas também para fomentar o turismo e ampliar o reconhecimento dessas regiões.

Um caso de sucesso, por exemplo, é a Nova Zelândia, que serviu de cenário para a trilogia "O Senhor dos Anéis" e "O Hobbit". Mas isso vai além: filmes de sucesso que se passam nos Estados Unidos foram rodados em outros lugares — um exemplo é "Os Vingadores", que teve parte da paisagem de Nova York recriada na Inglaterra.

Outro exemplo é a Netflix, que está construindo um novo lote em uma antiga área do Exército em Fort Monmouth, em Nova Jersey, ao sul de Manhattan. O terreno conta com 1,2 quilômetros quadrados e, com um investimento de US$ 1 bilhão (R$ 5.22 bilhões), terá 12 estúdios que totalizarão 46,5 mil metros quadrados — algo como seis a sete campos de futebol.

Pesa também a diversidade que a nova era do streaming trouxe: hoje temos mais séries em língua estrangeira pensadas para o mercado internacional, fazendo sucesso em todo o mundo.

Esse movimento também foi facilitado pela descentralização na produção. Há décadas, os grandes estúdios operam de forma mais burocrática, gerenciando propriedades intelectuais, financiando projetos e administrando a distribuição. O lado criativo fica, muitas vezes, na mão de produtoras — que atuam de forma mais livre para determinar onde filmar, desde que estejam dentro do orçamento.

Enquanto isso, Los Angeles não se movimentou na velocidade que deveria e se tornou "hostil" com custos altos, burocracia e taxas — o que acelera a migração da produção para outras regiões.

O cenário piorou nos últimos anos, com a crise da covid-19 e as greves de atores e roteiristas, que, em 2023, pararam as gravações nos Estados Unidos por mais de seis meses.

Essas greves também consolidaram o fim da chamada Peak TV, quando TV e streaming aumentaram de forma exponencial o volume de filmagens. Hoje, estamos em uma era de contenção de despesas, em que investidores se preocupam com a saúde financeira dos grupos de mídia.

Para fechar esse ciclo de notícias ruim, o ritmo das séries mudou. Antes, cada temporada tinha mais de 20 episódios, com uma rotina de produção que ia de agosto a maio. Hoje, esses títulos possuem menos episódios por temporada, sem um cronograma fixo.

O senador Adam Schiff, que recebeu a carta de David Ellison, é um dos empenhados em reerguer a indústria local e nacional por meio de incentivos fiscais e também com pressão nos grandes conglomerados de mídia e tecnologia.

O próprio presidente Donald Trump já comentou o tema em pelo menos duas ocasiões, chegando a ameaçar produções estrangeiras com tarifas. No entanto, não levou a discussão adiante.

Seja como for, inspiração na própria Hollywood não falta. Afinal, a região já passou por grandes transformações e crise no passado. Uma das mais severas foi a partir dos anos 1950, após o antigo "Studio System" ruir, encerrando a Era de Ouro do cinema norte-americano.

Nesse período, Los Angeles se tornou uma sombra do que fora no passado — e até o famoso letreiro de Hollywood ficou em ruínas. A recessão só foi acabar nos anos 1970, quando uma nova geração de cineastas e executivos reinventou a indústria — criando o modelo moderno de produção e os blockbusters.

Talvez o caminho seja exatamente esse: refundar Hollywood por uma terceira vez, com novas vozes e ideias. De uma forma que faça sentido no mundo atual.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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