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Como contrato de US$ 60 milhões de Meghan e Harry explica o YouTube

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20.03.2026

Como contrato de US$ 60 milhões de Meghan e Harry explica o YouTube

Imagine pagar US$ 60 milhões — cerca de R$ 315 milhões na cotação atual — para Meghan Markle e o príncipe Harry produzirem filmes e séries. Seis anos depois, o resultado: duas produções não roteirizadas, nenhum projeto de ficção e apenas 23 episódios.

Enquanto isso, Hollywood e os streamings apertam os cintos. O dinheiro encurta, o risco diminui — e uma geração inteira de novas vozes vê as portas dos canais tradicionais se fecharem. Sem espaço, esses criadores estão sendo empurrados para a autodistribuição.

O principal destino deles? O YouTube — que cresce a passos largos e já é hoje a força dominante do vídeo online no mundo, Brasil incluído.

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A história de Meghan e Harry

Quando a Netflix fechou o acordo com o casal da família real britânica, o mundo era outro.

A Archewell Productions foi fundada em 2020. Na época, o mundo entrou na pandemia da covid-19 — o que amplificou o uso de plataformas de vídeo, acelerando a adesão do público. Pouco antes, Meghan e Harry haviam anunciado a sua saída da família real — algo que os colocou ainda mais nos holofotes da imprensa.

Na época, parecia que ambos queriam construir um império. Nunca uma figura real como o duque de Sussex se viu fora das correntes da nobreza, permitindo que ele passasse a atuar diretamente no entretenimento. Já a duquesa tinha uma imagem consolidada como atriz nos Estados Unidos.

Por isso, houve um verdadeiro leilão para que a nova companhia fechasse um acordo de exclusividade. Disney, Apple, Warner Bros., Discovery, NBC Universal: todos deram seus lances. O contrato ficou com a Netflix, que, de acordo com a Variety, pagou US$ 60 milhões em setembro de 2020.

Além disso, a gigante do streaming investiu dinheiro na marca As Ever, criada pela duquesa e focada em curadoria de produtos e estética pessoal.

Dessa união, apenas dois projetos saíram do papel. O primeiro foi a série documental "Harry & Meghan", com seis episódios, lançada em dezembro de 2022. Foi a maior estreia para o gênero na história da empresa, sendo assistida por 28,7 milhões de contas em todo o mundo. Contudo, a produção teve recepção mista da crítica e baixa aprovação do público — vista como mais um excesso de exposição do que um relato envolvente.

Outra tentativa foi "Com Amor, Meghan", que se propunha — de forma ambiciosa — a reinventar os programas de estilo de vida. Ao todo, foram 17 episódios lançados em 2025, entre duas temporadas e um especial de fim de ano. A primeira leva somou 1,9 milhão de visualizações até 31 de dezembro, segundo a própria Netflix. A segunda chegou a 2 milhões — o suficiente apenas para colocá-la na 1.218ª posição entre os títulos mais assistidos da plataforma no segundo semestre do ano passado.

"Com Amor, Meghan" não teve o contrato renovado.

A pioneira do streaming por assinatura tinha grandes expectativas com o casal.

Não era sem motivo: "Suits", drama legal que teve Meghan Markle como co-protagonista até o final da sétima temporada, entrou no catálogo do serviço nos EUA em 2023 — e virou um sucesso absoluto. A série, de acordo com a Nielsen e contando também com as visualizações na plataforma Peacock, foi a mais assistida nos Estados Unidos naquele ano, com 57,7 bilhões de horas.

Porém, como revela agora uma reportagem da revista Variety, a parceria nunca deu os resultados esperados. Nem a marca As Ever decolou, sofrendo com a falta de foco, identidade e tração junto ao mercado.

"Por aqui, o clima é de 'já deu'", disse uma fonte da Netflix à publicação.

Um dos problemas seria que a dupla segue insistindo em versões reempacotadas de sua própria saída da família real. Além disso, a relação teria se deteriorado nos bastidores — inclusive com a falta de comunicação sobre uma entrevista do casal à Oprah Winfrey, exibida pela concorrente CBS em 2021, entre outros pontos.

Em agosto passado, o acordo de exclusividade — aquele que custou US$ 60 milhões — foi rebaixado a um "first-look", no qual a plataforma tem preferência na análise de novos projetos.

Se em 2020 o mundo do entretenimento vivia o chamado "peak TV", em que estúdios gastavam muito dinheiro com conteúdo para ganhar mercado, isso mudou. Hoje, investidores cobram a saúde financeira das empresas do setor — e isso envolve gastar menos e faturar mais.

O acordo com Meghan e Harry já sinalizava parte do que vemos atualmente: dinheiro nas mãos de nomes famosos e/ou de franquias de sucesso. Acontece que houve um componente de risco que não se assume mais: o casal, apesar da fama na mídia, nunca tinha produzido nada antes.

Hoje, Hollywood prefere ficar ainda mais na zona de conforto: menos acordos de exclusividade, e mais projetos com gente reconhecida — como Taylor Sheridan (de "Yellowstone"), Shonda Rhimes ("Grey's Anatomy" e "Bridgerton") e Ryan Murphy ("Glee" e "American Horror Story").

Enquanto isso, as portas para entrar na indústria se fecharam. As séries possuem menos episódios, diminuindo as oportunidades para assumir postos em direção e produção. Nomes conhecidos ocupam quase todos os créditos, e salas de roteiro diluem a autoria de escritores novatos.

Dizem que, na política, não existe vácuo de poder: se o espaço surge, uma nova força ocupa. No entretenimento, podemos dizer o mesmo.

Quem ocupou esse espaço é o YouTube. Concebido para ser uma plataforma para conteúdos criados pelos usuários, toda uma geração de novas vozes cresceu nela — com muitos desenvolvendo seus próprios estúdios.

É um caminho que, nos últimos 15 anos, foi pavimentado por grandes sucessos, incluindo propriedades intelectuais como Galinha Pintadinha e Cocomelon; creators como o MrBeast, PewDiePie e Luccas Neto; além de produtoras como KondZilla — um grupo que colocou o serviço em um patamar próprio.

Hoje, o YouTube responde por 22% de todo o consumo de vídeo em telas no Brasil, segundo o Ibope — mais de três vezes o share da TV paga, que tem 7%, e bem à frente da Netflix, com 5,5%. Os dados são de fevereiro.

Nos últimos anos, esse avanço aconteceu justamente onde seus principais concorrentes sempre foram mais fortes: a televisão. Também de acordo com o Ibope, a plataforma de vídeos do Google já concentra 15,3% do consumo nessa tela, contra 5,7% da Netflix.

Nos Estados Unidos, o maior mercado para essas empresas, os dados são parecidos — ainda que o setor esteja mais pulverizado. Segundo a Nielsen, o YouTube conta com 12,5% do consumo, contra 8,8% da Netflix. A TV paga, de décadas de tradição no mercado norte-americano, ainda retém 21,2% do share — apesar da queda considerável nos últimos anos. A pesquisa é de janeiro e compreende apenas TV, sem outras telas.

O impacto fica claro na parte financeira: o Google teve uma receita de US$ 60 bilhões (R$ 315 bi) em 2025 com vídeo online. É muito mais do que os US$ 45 bilhões (R$ 235 bi) faturados pela Netflix, e colocam a plataforma, segundo a consultoria MoffettNathanson, no posto de maior companhia de mídia do mundo — superando a Disney.

Isso cria um círculo virtuoso. Afinal, enquanto os estúdios e streamings por assinatura estão focados em mitigar risco e diminuir custos, novas vozes agora possuem o próprio YouTube para se aventurar — testando formatos, criando relação com o público e tirando ideias do papel.

Nem tudo são flores, é verdade. Se nomes como Harry e Meghan ficam com acordos que valem milhões, aos independentes sobram contratos de divisão de receita. Ou seja, recebem cerca de 55% do valor pago por anunciantes. Se não houver views, o ganho é zero. Por isso, os orçamentos — principalmente no começo — são extremamente comedidos, ou dependem de investimentos no risco.

Seja como for, hoje o YouTube preenche justamente esse espaço de inovação e lançamento de novos nomes e rostos — o que ajuda a fortalecer a própria posição da plataforma no mercado.

A Netflix é uma daquelas que já percebeu isso. Na campanha para a compra da Warner Bros. Discovery, o co-CEO da empresa, Ted Sarandos, bateu várias vezes na tecla de que o serviço do Google é o seu principal concorrente. Trata-se de uma disputa por atenção, inventário publicitário e por anunciantes nesta que é a segunda guerra do streaming.

Por isso, a companhia também fechou recentemente acordos para tirar os videocasts da produtora The Ringer, do Spotify, de dentro do YouTube e adicioná-los na própria Netflix. Os programas são um sucesso naquilo que, hoje, se tornou um ativo valioso: reter o espectador por horas enquanto mantém o orçamento baixo.

Mas isso ainda é pouco: no Google, a especialidade é a cauda longa. Enquanto cada conteúdo para entrar na Netflix depende de acordos caros — e atritos, como na história do casal real —, criadores independentes e grandes produtores sobem cerca de 500 horas de vídeo por minuto no YouTube.

O grande calcanhar de Aquiles — que ainda limita a descoberta desse conteúdo — é a interface do site e do app, pensada para uma outra lógica de consumo. Isso, porém, deve mudar em breve, com uma nova experiência de usuário.

Ou seja, continuar jogando na zona de conforto pode se tornar um grande problema para Sarandos e seu time.

Experimentar é preciso

Curiosamente, uma inspiração pode vir da própria TV legada.

Por quase toda a sua história, as emissoras abertas dos Estados Unidos utilizaram um modelo em que o episódio piloto era uma peça fundamental. Os canais concordavam com um projeto vindo dos estúdios e financiavam a produção de um único capítulo, que funcionava como comprovação para aquela ideia. A partir disso, uma primeira temporada poderia ser encomendada — mediante alterações ou não — ou a ideia ser totalmente descartada antes mesmo de ser assistida pelo público.

Era um caminho que não só mitigava o risco, mas permitia que novos nomes ao menos colocassem a sua ideia à prova, permitindo aos executivos julgar se valia a pena não só gastar dinheiro em mais 20 episódios, mas também reservar um espaço na sua concorrida — e escassa — programação.

Nos anos 1990, o executivo Fred Seibert levou esse conceito a um novo patamar. No canal pago Cartoon Network, então parte da Turner, ele lançou o projeto chamado Estreia Mundial de Toons. Nele, financiou a execução de 48 curtas-metragens de animação que seriam provas de conceito para novas franquias.

A diferença é que os desenhos animados não morreram na sala da diretoria do canal, mas foram exibidos em horário nobre, medindo o interesse das crianças.

Assim surgiram propriedades intelectuais que, hoje, são joias do portfólio da Warner Bros., como As Meninas Super-Poderosas, O Laboratório de Dexter e A Vaca e o Frango. Gente como Craig McCracken, Genndy Tartakovsky e Seth MacFarlane tiveram ali a sua primeira grande vitrine.

Acontece que, em meados dos anos 2010, a Netflix matou esse processo. Influenciada pela certeza dos números, na necessidade de preencher catálogo com velocidade e precisando criar uma disrupção no audiovisual, a plataforma passou a encomendar diretamente as primeiras temporadas. Em alguns casos, como o de "House of Cards", garantiu duas logo de cara.

Isso permitiu, em um primeiro momento, sucessos como "Stranger Things" — uma criação de dois cineastas pouco conhecidos, Matt e Ross Duffer, que assim tiveram a oportunidade de criar uma temporada inteira pensada como um grande filme, sem as necessidades que um piloto pede.

Não demorou para os concorrentes adotarem o mesmo formato, claro.

Contudo, hoje o mercado virou refém dessa nova realidade. Temporadas inteiras ainda são encomendadas de uma vez, mas apostando apenas em nomes reconhecidos — à frente ou atrás das câmeras — para justificar esse investimento.

Por isso, os pilotos ensaiam um retorno. O Hulu, por exemplo, escolheu esse caminho para a volta da franquia "Buffy: A Caça-Vampiros" — e engavetou a ideia na última semana. O Peacock, da NBC, encomendou seis episódios do tipo para a próxima temporada.

Mas ainda é pouco. Se os streamings por assinatura quiserem elevar a competição com o YouTube enquanto mantém os custos sob controle, a estratégia precisa crescer para aumentar a escala — junto com cabeças mais frescas.

Nisso, um formato perfeito pode ser justamente o horizontal, das novelinhas que surgiram na China e vêm ganhando o Ocidente. Também com custos de produção menores e episódios ultracurtos, podem servir como uma "estreia mundial" para muita gente boa — tal qual Fred Seibert fez há 30 anos.

Caso contrário, Netflix e suas cópias serão engolidas pela onda.

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