Clientes e chefs 'exibidos' transformam comer em ato para ver e ser visto |
Clientes e chefs 'exibidos' transformam comer em ato para ver e ser visto
Olhe para o lado na próxima vez que sair para jantar e repare: há algo de voyeurismo tomando conta dos restaurantes das grandes cidades.
Não falo só das pessoas a vivenciarem o momento de comer fora cada vez mais pelas telas dos celulares do que pelos próprios olhos. Fotografam os pratos, filmam o ambiente, gravam sempre que o chef vem à mesa explicar alguma das receitas.
Mas há também algo de exibicionismo dos próprios cozinheiros e das equipes, cada vez mais dispostos a performar. Nos discursos, nos gestos e no serviço.
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As cozinhas abertas deixam todos os movimentos e equipamentos à mostra. Os vidros logo na entrada permitem ver a massa de pizza sendo preparada antes de ir ao forno. Os carrinhos estacionados ao lado da mesa parecem dizer: "olha aqui o espetáculo que estamos te servindo".
Eu já tenho reparado nisso há um bom tempo, desde que as cozinhas abertas viraram tendência crescente, desde que os chefs se tornaram celebridades e que os restaurantes deixaram de ser 'lugares para comer' e passaram a ser 'lugares para viver uma experiência'.
Mas foi uma reportagem recente do Taste que me fez reconhecer este novo momento voyeur, em que as cozinhas funcionam, ao mesmo tempo, como palco, ferramenta de marketing e símbolo de transparência.
Claro que há uma relação direta com a própria fetichização da profissão de cozinheiro, alimentada por figuras como Anthony Bourdain, séries como The Bear e chefs sex symbols em poses de modelos de grifes da moda.
O cozinheiro deixou de ser invisível para se tornar figura pública. Em muitos restaurantes com cozinha aberta, eles levam pratos às mesas, conversam com clientes e participam do serviço, tarefas antes exclusivas do salão.
Talvez seja necessário um pequeno flashback: há não muito tempo, as cozinhas estavam à sombra, no fundo dos restaurantes, com os maîtres tendo mais protagonismo que seus correspondentes da cozinha. O chef quase só vinha à mesa para ouvir algum elogio ou então enfrentar a ira de algum cliente insatisfeito com o prato.
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Com a gastronomia a se tornar cultura pop, isso mudou. Os restaurantes passaram a ser desenhados tendo a cozinha como elemento principal, todo o resto a orbitar em torno dela. Fornos caríssimos, bancadas de mármore travertino, os melhores equipamentos. 'Olhem aqui para dentro, como sabemos o que estamos fazendo'.
Esse novo voyeurismo teve aspectos positivos também. Ele ajudou a transformar não apenas a experiência do cliente, mas também, quero pensar, as próprias estruturas de trabalho do setor.
Em cozinhas imaculadas e propositadamente abertas, já não cabem mais assédio e violência. Pelo menos não durante o horário de serviço, o mais estressante do cotidiano de um restaurante.
O lado mais positivo de toda essa exposição é justamente podermos ver o que se passa ali, como testemunhas do que vamos vivenciar por algumas horas. Mas também somos, de alguma forma, os guardiões de uma paz, ainda que ensaiada, que nem sempre imperou nesses ambientes. Não se pode gritar ou oi agredir com tamanha plateia.
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Mas há outra questão a considerar. Esse ímpeto de mostrar tudo acabou produzindo um efeito semelhante nos próprios clientes, cheios de vontade de registrar tudo o que acontece para compartilhar com contatos e seguidores.
Na semana passada visitei um restaurante com um amigo que ficou tão impressionado com a decoração tradicional do espaço que já entrou no salão com o celular na mão. Fez um tour e, sem se dar conta, ignorou o senhor a gesticular efusivamente em protesto à gravação.
Atento apenas à qualidade da imagem do vídeo, meu amigo nem percebeu a cena e logo foi ao banheiro. Enfurecido, o homem o seguiu e, dentro do sanitário, passou a gritar exigindo que ele apagasse o vídeo.
Ter sua imagem captada num restaurante hoje é quase como ter seu nome e seus dados disponíveis no Google: não há muito como evitar, por mais que não se goste da ideia.
E se já não bastassem os celulares, agora influenciadores e clientes vão jantar munidos de óculos capazes de registrar tudo o que se passa ao redor da mesa. Uma reportagem recente do The New York Times conta como esses novos aparelhos ao alcance dos olhos estão mudando os restaurantes silenciosamente, porque muitas vezes passam despercebidos, nesses espaços.
O texto relata a história de Tom Wong, dono de um restaurante em Chinatown, em Nova York, que se tornou viral no TikTok após ser filmado sem saber por uma cliente usando esses novos smart glasses. O vídeo ultrapassou dois milhões de visualizações e transformou Wong em uma celebridade involuntária, a ponto de ele deixar de trabalhar na frente do restaurante por puro desconforto.
Alguns criadores de conteúdo, entretanto, defendem o uso dos óculos como uma forma mais autêntica e natural de registrar experiências, substituindo o celular e capturando uma perspectiva subjetiva, o estilo POV que tomou as redes.
O fenômeno ilustra uma nova realidade nos restaurantes. Sair para comer hoje significa correr o risco constante de ser filmado, muitas vezes de forma discreta e sem consentimento.
Ainda que filmar em espaços públicos seja um ato amplamente protegido pela lei, os restaurantes ocupam uma zona cinzenta. São propriedades privadas abertas ao público. Isso coloca alguns clientes em situação desconfortável, assim como donos e garçons, que ficam no meio da disputa sobre quem está certo nessa história.
A verdade é que esse novo voyeurismo gastronômico chega em boa hora para inibir comportamentos abusivos nas cozinhas, ainda que esteja longe de mudar por completo uma cultura estrutural baseada em autoridade, violência e ego.
Mas também criou uma sensação permanente de exposição que vamos ter que nos acostumar. Hoje, quando entramos em um restaurante, nunca sabemos se estamos ali apenas para jantar ou se, sem perceber, já nos tornamos parte de algum espetáculo.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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