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Gatos jazzistas e força para bancar desejos marcam romance surpreendente

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17.03.2026

Gatos jazzistas e força para bancar desejos marcam romance surpreendente

Freddie Freeloaeder encontra Arturo sentado nas escadarias de um prédio público de San José, capital da Costa Rica. Chove ao anoitecer. Freddie se aproxima do garoto de uns sete anos e lambe a sua mão. Nota que o rapazinho solitário é cego.

A criança abandonada pelas ruas é acolhida pelo gato e passa a ser criada por um grupo desses animais. Um sexteto, melhor dizendo. São gatos que tocam jazz. Varam as noites costa-riquenhas com os seus improvisos nos telhados da cidade.

Animais humanizados. Um gato narrador. Um garotinho fragilizado que logo de cara desperta compaixão. Um ser humano aprendendo com os felinos as belezas e os perrengues da vida. Um livro que nasce com a melhor das intenções - Fernando Contreras Castro, seu autor, o escreveu para especular quais lições gostaria de transmitir a seus futuros filhos.

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"Certo Azul" tinha tudo para dar errado. Reúne atributos suficientes para facilmente descambar numa história moralista, condescendente, com pegada de autoajuda. Mas a literatura é mesmo fascinante. Castro resvala, às vezes se desequilibra, mas consegue se manter firme diante das armadilhas para entregar uma belezinha de livro aos leitores.

No diminutivo porque a coisa é breve. Publicado no final do ano passado pela Zain com tradução de Leonardo Pinto Silva, o romance magrelinho não tem mais do que 90 páginas. É uma boa alternativa para quem ainda está empolgado com a onda de orgulho latino-americano emanada de Bad Bunny e deseja ter o primeiro contato com uma literatura pouco difundida por aqui, a da Costa Rica.

A literatura de "Certo Azul" está profundamente entrelaçada com a música. A obra não só dialoga, mas incorpora desde o seu título "Kind of Blue", de Miles Davis. O álbum ocupa papel central na história da música, essa linguagem universal que, pelas mãos de Castro, vira o elo entre bichanos e humanos.

"Assim é a rua, fonte infinita de admiração e dor. [...] A verdade é que eu não trocaria nem sequer uma das minhas malditas pulgas por um segundo da minha liberdade", diz Freddie Freeloaeder. A citação dá o tom do que encontramos ao longo da narrativa.

Há as festas, as reuniões entre músicos, as noites atravessadas entre arranjos, solos e muita diversão. E há também as adversidades. Os pontapés, as perseguições, o risco dos vícios.

Não é fácil bancar uma vida noturna, efusiva e livre enquanto a sociedade tenta impor a sua moralidade diurna. Entre paixões intensas e regozijos perigosos, "Certo Azul" é também um livro sobre ter consciência de seus prazeres e, diante das adversidades, ter disposição para bancá-los.

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Também há uma camada política nesse romance que a todo tempo nos lembra do atrito entre como as coisas são (ou estão, pois as mudanças são permanentes) e a forma como desejamos o mundo.

A liberdade defendida, propagada e ostentada pelos gatos ecoa a busca pela liberdade dos negros que, fugindo das armadilhas do racismo, da estupidez alheia e das arbitrariedades oficiais, encontraram na música uma forma de se unir, resistir e expressar muito do que sentiam.

Existem algumas passagens piegas na narrativa. Vez ou outra clichês aparecem e Castro opta por metáforas óbvias, que soam escritas de forma automática. São problemas que, no entanto, se dissipam pelas páginas com polifonia de vozes cheias de humor e ironia, sonhos e fantasias, amizade e lealdade.

"Como a fome é garantida, e a felicidade, não, então seguimos improvisando até o anoitecer", lemos em algum momento de "Certo Azul". Pois se os dias difíceis certamente virão, que aproveitemos bem a festa enquanto os músicos estiverem no palco.

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