Carnaúba fortalece cooperativas e expõe desafios do trabalho no semiárido |
Carnaúba fortalece cooperativas e expõe desafios do trabalho no semiárido
Símbolo da sociobiodiversidade da Caatinga, a palmeira carnaúba (Copernicia prunifera) é refúgio para a fauna nativa e aves migratórias — e também uma aliada diante da crise climática. Os carnaubais são fundamentais para conter a erosão do solo e proteger rios do assoreamento. Além disso, ela tem grande importância socioeconômica. Dessa palmeira versátil, tudo se aproveita.
Sua palha é usada na produção de artesanato e adubo. Já as raízes viram remédio em comunidades tradicionais. Mas é a cera de carnaúba, extraída das folhas, o carro-chefe dessa cadeia. Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte lideram o ranking de exportações mundiais desse produto de ampla aplicabilidade industrial, muito demandado no mercado internacional por fabricantes de alimentos, cosméticos e medicamentos. Em 2024, o Ceará foi responsável por 71,19% das vendas externas brasileiras de cera de carnaúba, alcançando US$ 76,9 milhões.
Por trás dessa cifra, porém, está o custo social na ponta dessa cadeia produtiva, ou seja, na extração manual da palha dessa palmeira nos carnaubais do semiárido e no seu posterior processamento artesanal. A atividade é marcada por jornadas de trabalho exaustivas, infraestrutura precária e falta de direitos trabalhistas. E ainda há relatos de violações de direitos humanos, com trabalhadores sendo resgatados em condições análogas à escravidão.
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Esse cenário de insegurança e informalidade era o que Francisco Arcanjo Rodrigues Chaves, produtor de Groaíras, no Ceará, enfrentava. Presidente da Associação dos Trabalhadores na Extração e Produção de Cera de Carnaúba de Groaíras (ATEPCG), fundada em 2019, ele já havia, inclusive, pensado em desistir dessa organização. "Faltavam parcerias e, sem apoio, era difícil administrar todas as demandas". Questões jurídicas e contábeis eram as mais desafiadoras frente à falta de recursos financeiros.
Seis anos depois, com aproximadamente 800 associados, a ATEPCG tornou-se referência em gestão e articulação social, passando a receber vários visitantes em Groaíras, a 235 quilômetros da capital Fortaleza. Sua área de influência ainda alcança outros três municípios cearenses: Forquilha, Canindé e Santa Quitéria, de onde passaram a vir trabalhadores interessados em se associar. Eles foram atraídos pela máquina de beneficiamento da palha de carnaúba, da qual é extraído o pó usado na fabricação de cera, além de outras melhorias estruturais que se refletem nos rendimentos financeiros.
Arcanjo, como se tornou conhecido, destaca que a transformação gradativa da sua associação e de outras organizações regionais tem sido possibilitada pela participação no projeto Carnaúba e Desenvolvimento Sustentável, parceria estabelecida entre instituições do Brasil e da Alemanha, entre as quais a Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ). A iniciativa envolve cooperativas, órgãos públicos, empresas e outras redes que têm fomentado essa cadeia produtiva com melhores práticas ambientais e trabalhistas, capacitação, valorização de conhecimentos tradicionais, além de estímulo ao cooperativismo e ao associativismo.
Para a ATEPCG, o cenário começou a mudar após um evento realizado em 2021, quando Arcanjo foi apresentado a uma liderança da GIZ. Desde então, novas parcerias vêm sendo firmadas e o aprendizado tem se fortalecido, principalmente quanto à segurança e outras medidas de proteção dos trabalhadores.
Como exemplo, ele destaca que as jornadas de trabalho foram alteradas. Devido aos impactos do sol na saúde e na qualidade de vida dos trabalhadores, a produção, que antes ocupava o dia todo, foi concentrada pela manhã, entre 5 e 11 horas. Adotaram-se, também, medidas simples como o uso cotidiano de protetor solar, roupas adequadas ao clima do Ceará e óculos escuros. Garrafas térmicas individuais passaram a garantir o acesso à água gelada durante as atividades.
Com a parceria no projeto de sustentabilidade dessa cadeia, entre outros avanços, a associação conquistou assessoria jurídica e ganhou um novo ânimo. Tendo um produto forte de exportação e com mais estrutura para atender às exigências internacionais de rastreabilidade da produção, melhorias como o aumento da produtividade e da capacidade de organização tornaram-se perceptíveis. Também há planos de expansão até 2027.
Mas pensar no futuro ainda traz uma divisão de sentimentos para a ATEPCG e seus associados. "A maior preocupação é acabar a parceria. A gente tem medo de regredir." Segundo Arcanjo, "havendo continuidade, todos acreditam que têm muito a progredir, pois até agora melhorou muito a estrutura e a forma de produção".
O Manual da Cadeia Produtiva da Carnaúba, elaborado pela Associação Caatinga, destaca a importância desse setor produtivo para assegurar atividade rentável aos trabalhadores rurais no período de estiagem no semiárido, especialmente entre agosto e dezembro, época da colheita das palhas. A agricultura familiar na região é muito dependente do regime de chuvas, geralmente concentrado no início do ano.
Cooperativa diversifica negócios com a carnaúba
Emanuella de Souza Pereira, diretora da Cooperativa Agrofamiliar dos Frutos da Terra, (Coafrut), localizada em Piripiri, no Piauí, é outra entusiasta dessa cadeia produtiva que está percebendo possibilidades de progresso a partir da participação no projeto Carnaúba e Desenvolvimento Sustentável.
Tendo a fruticultura como carro-chefe, essa cooperativa foi fundada em 2011, com apoio de um pequeno grupo de agricultores envolvidos com a produção de polpas de frutas. Há cerca de seis anos, após participação da diretora em um evento internacional, a palha de carnaúba entrou no circuito local. Ela explica que, em vez de criar outra cooperativa para impulsionar essa nova alternativa de renda, foi decidido agregá-la às atividades da organização. "Assim fortalecemos o empreendedorismo que já existia".
Com apoio da GIZ e demais organizações parceiras, a cooperativa adquiriu um maquinário destinado ao beneficiamento da palha de carnaúba, por meio do qual se extrai o pó que dá origem à cera para uso industrial. O novo equipamento atraiu a atenção de produtores da região, que antes precisavam terceirizá-lo, reduzindo seus rendimentos financeiros. Assim, a quantidade de cooperados se ampliou de 36 para 50 até o final do ano passado e a diretora segue confiante em novas adesões.
Emanuella explica que, enquanto parte dos cooperados passou a produzir o pó da carnaubeira, mulheres da região vêm sendo motivadas e treinadas a trabalharem com artesanato da fibra extraída da palha da palmeira. "Eu não sabia nada sobre carnaúba. Estou aprendendo com esse projeto. Percebo que tem havido um trabalho de base que vai abrindo espaço para muitas melhorias. Temos diversas ações de capacitação que vão nos fortalecendo como empreendedores e vamos também repassando esse aprendizado".
Embora os agricultores tenham dificuldades de adesão às atividades de capacitação, principalmente por demandas de sobrevivência em rotinas árduas, a diretora pondera que "tem sido gratificante observar as oportunidades e soluções possíveis geradas pelo fortalecimento do associativismo". Ao mesmo tempo, ela reflete que "os conhecimentos tradicionais dos agricultores estão sendo resgatados pelo projeto e a oferta de tecnologia tem contribuído para melhorar a qualidade de vida das famílias envolvidas".
Segunda etapa do projeto prossegue até 2028
Bruno Filizola, coordenador do projeto pela GIZ, recorda que a agência começou a trabalhar com essa cadeia há nove anos, quando descobriu que muitos trabalhadores enfrentavam jornadas exaustivas sem água e equipamentos de segurança, além de ficarem em alojamentos precários. "Faltava definir boas práticas". A força-tarefa disposta a mudar esse cenário tem alcançado resultados positivos, segundo ele.
Como parte dos resultados do projeto, desde 2021, foram fortalecidas nove organizações, alcançando mais de 1.500 pessoas no Ceará, Piauí e Maranhão. Isso incluiu apoio técnico, jurídico e contábil para quatro cooperativas, além de quatro associações e um sindicato. Como impactos socioeconômicos, mais de 280 trabalhadores tiveram melhorias comprovadas nas condições de trabalho e, com treinamentos, cerca de cem pessoas passaram a contar com novas fontes de renda na entressafra.
Na primeira fase do projeto, entre 2021 e 2024, o principal enfoque foi a garantia de boas práticas na cadeia extrativista. Os esforços deram ênfase à regularização profissional, garantindo jornadas de trabalho com carteira assinada e outros direitos trabalhistas. Além do conhecimento compartilhado, houve acompanhamento de processos desde então.
A segunda etapa, iniciada em 2025, prossegue até 2028, visando à manutenção das práticas conquistadas e o fortalecimento de manejo e restauração de carnaubais, além de estímulo às atividades agroflorestais. Essas iniciativas são capazes de gerar renda e ampliar a segurança nutricional dos pequenos produtores. Ações de gestão e treinamento ainda estão previstas.
Filizola explica que o manejo adequado dos carnaubais é fundamental para evitar a proliferação de espécies invasoras como a unha-do-diabo (Cryptostegia madagascariensis), que pode levar à degradação e à morte da vegetação em áreas abandonadas ou não manejadas adequadamente. "O manejo precisa de mais pessoas, sobretudo na fase de extrativismo". Ele também destaca a importância dos carnaubais para o enfrentamento da crise climática, sobretudo em uma região já afetada pelo avanço da desertificação.
Para o coordenador, o fortalecimento do cooperativismo e do associativismo tem sido uma importante contribuição dessa iniciativa, que também tem ampliado o protagonismo dos produtores. Impulsionados pelos treinamentos, os agricultores têm se organizado e deixado de arrendar seus carnaubais para terceiros. "A gente não quer tirar os atravessadores. Quer dar condições para os pequenos entrarem. Esse é um espaço onde deve caber todo mundo". Isso significa incluir, principalmente, agricultores familiares. Segundo ele, "a carnaúba gera muita riqueza que precisa ser melhor distribuída".
Por Elizabeth Oliveira
*Notícias da Floresta é uma coluna que traz reportagens sobre sustentabilidade e meio ambiente produzidas pela agência de notícias Mongabay, publicadas semanalmente em Ecoa. Esta reportagem foi originalmente publicada no site da Mongabay Brasil
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