Assentados conduzem plano para reflorestar 75 mil hectares em SP
O canavial ondula e uma lâmina d'água se estende pelo horizonte. Seguimos por uma estrada de terra no oeste paulista, às margens do Rio Paraná, fronteira líquida entre os estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul.
Ali, a monocultura avassala a paisagem que um dia foi uma floresta estacional semidecidual, também chamada de Mata Atlântica de interior — cujas folhas caem diante da ausência da chuva.
Em sua picape, o biólogo e mestre em Agronomia Haroldo Gomes, de 47 anos, carrega um mundo vegetal diverso: ipês, angicos, aroeiras, cedros, copaíbas, guarantãs, paineiras e pitangueiras; são quase 70 espécies nativas da Mata Atlântica em busca de um pedaço de chão.
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Houve um tempo em que a família de Haroldo também andava sem chão. "Quando a gente veio para o acampamento, eu tinha onze anos", disse ele, que é filho de assentado da reforma agrária. "Na época dos conflitos, a gente ficou seis anos em um barraco de lona. "Eu já corri de bala em ocupação de terreno."
Hoje Haroldo é coordenador de campo do projeto Corredores de Vida, do Ipê (Instituto de Pesquisas Ecológicas). Foi ali que tanto ele quanto uma biodiversidade de espécies nativas de plantas e animais encontraram um lugar para chamar de casa. Desde 2002, a partir do esforço de assentados, o projeto reflorestou mais de 6 mil hectares — o equivalente a 8,4 mil campos de futebol — com 10 milhões de árvores plantadas.
O futuro, no entanto, é ainda mais ambicioso: o grupo pretende restaurar 75 mil hectares de áreas prioritárias para a conservação até 2041, em 30 municípios de São Paulo. A área equivale à superfície da cidade de Nova York.
Segundo Laury Cullen Jr., coordenador-geral do projeto Corredores de Vida, há potencial para recuperar 250 mil hectares de áreas degradadas nos últimos 40 ou 50 anos. "Elas deveriam estar restauradas como floresta, mas não estão", disse.
Rodar pelas estradas de terra e orientar quem faz o plantio é parte da rotina de Haroldo, que trabalha há 24 anos no IPÊ. Trata-se de uma corrida contra números negativos: "Hoje em dia, temos 8% de vegetação nativa na região do Pontal [do Paranapanema, em São Paulo]. Há municípios que não têm nem 2% de floresta", disse à Mongabay.
O contexto histórico explica os danos. A região do Pontal do Paranapanema, que compreende 32 municípios no extremo oeste paulista, foi marcada por desmatamentos no início do século 20. A história passa pela Estrada de Ferro Sorocabana, responsável por escoar a produção de café e a extração de madeira do estado. Anos depois, a obra abriu caminho para que grileiros tomassem as terras remanescentes, repetindo um processo comum em áreas da Amazônia afetadas por obras de infraestrutura.
Nesse percurso de redivisão dos espaços rurais, o que surgia pelo caminho era ameaçado — tanto a biodiversidade quanto os povos indígenas da região, como os Kaiowá e os Kaingang. Enquanto isso, os bois marchavam e a monocultura avançava, ocupando até mesmo terras de propriedade do Estado. Em meados do século 20, na região do Pontal, última parada da Sorocabana, restava apenas 1,85% de cobertura florestal.
Décadas mais tarde, nos anos 1990, esse mesmo cenário de fragilidade fundiária faria eclodir movimentos sociais na região do Pontal. Nessa área, até hoje, encontra-se a maior extensão de assentamentos agrários do estado de São Paulo.
Dados do Itesp (Instituto de Terras do Estado de São Paulo) revelam que o Pontal conta com 98 assentamentos estaduais, que somam mais de 120 mil hectares, além de 23 assentamentos federais, distribuídos em outros 30 mil hectares. A diferença está na competência administrativa: os federais são coordenados pelo Incra (Instituto Nacional de........
