Recuo de Trump na guerra do Irã é um presente eleitoral para Lula |
Recuo de Trump na guerra do Irã é um presente eleitoral para Lula
O cessar-fogo de duas semanas anunciado por Donald Trump na noite de ontem, menos de duas horas antes do prazo final de seu ultimato ao Irã, encerra, ao menos temporariamente, o ciclo mais agudo da guerra iniciada em 28 de fevereiro.
O acordo, mediado pelo Paquistão, tem como base a proposta iraniana de dez pontos que o próprio Trump havia classificado como "não boa o suficiente" 24 horas antes, e prevê a liberação do Estreito de Hormuz sob coordenação de Teerã.
A queda no preço do petróleo logo após o anúncio interessa ao Brasil por causa do efeito direto sobre o bolso do eleitor, a pouco mais de seis meses das eleições.
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Segundo os dados da Palver, que analisa em tempo real mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram, 32,8% das mensagens monitoradas sobre as questões internacionais entre 3 e 8 de abril tratam do conflito, consolidando-o como um dos temas dominante no período.
Dentro desse universo, 20,4% das mensagens mencionam petróleo, diesel, dólar ou inflação, proporção que evidencia que a guerra chegou ao debate brasileiro, dados seus impactos no custo de vida. A maior parte das mensagens dos temas internacionais, equivalentes a 67,2%, não menciona diretamente a guerra ou seus atores.
Do lado crítico à ofensiva norte-americana, a Palver registra 10,9% das mensagens enquadrando a postura de Trump como "imperialismo", "crime de guerra", "irresponsabilidade" ou "descontrole".
Essas mensagens não se organizam a partir de simpatia ao Irã, uma vez que os indicadores de alinhamento com Teerã são residuais, mas como críticas aos efeitos econômicos das ações de Trump.
É o mesmo enquadramento que o governo Lula vem explorando desde o início da guerra, argumentando que "a guerra é do Trump, não é do povo brasileiro", além da implementação de ações como a Medida Provisória que subsidia o diesel e o discurso permanente de blindagem da mesa do trabalhador.
A análise desses números sugere que o Planalto pode se beneficiar do tema no curto prazo, uma vez que, quanto mais a guerra é processada em decorrência dos custos econômicos, sob responsabilização de Trump, menor o custo político de uma posição contrária aos EUA, historicamente arriscada no eleitorado brasileiro. O recuo de Trump oferece ao governo uma rara chance de capitalizar política externa em popularidade, principalmente se os preços dos combustíveis caírem antes de o ciclo eleitoral avançar.
Do lado favorável à ofensiva, os dados apontam apenas 5,3% das mensagens, proporção equivalente à metade do campo crítico. Esse bloco, articulado sobretudo por canais alinhados à direita bolsonarista, mobiliza a caracterização do Irã como regime terrorista e a tese da ameaça nuclear, que corresponde a 9,7% das mensagens. Esse grupos de direita revelam muita frustração com as ações de Trump, uma vez que esperavam uma demonstração de força militar, o que não ocorreu.
Apenas 0,7% das mensagens sobre o acordo o enquadram como "vitória de Trump", indicando que mesmo o bloco alinhado aos EUA tem dificuldade de apresentar argumentos após o recuo.
Para a oposição brasileira, que orbita politicamente a agenda Trump-Netanyahu, o desfecho, pelo menos até o momento, é negativo, dado que uma escalada serviria para polarizar as discussões em torno de uma discussão de bem contra o mal, a despeito do impacto econômico. O recuo, no entanto, fragiliza a criação de narrativas pró-EUA.
Em síntese, os dados da Palver revelam um Brasil que está acompanhando a guerra pela lente do impacto econômico no dia a dia. Nas próximas duas semanas, enquanto as negociações avançam em Islamabad, no Paquistão, Lula tem a oportunidade de converter a redução do preço do petróleo em narrativa eleitoral, colocando-se como alguém que sabe navegar esses momentos de crise e que, acima de tudo, preocupou-se em blindar o povo brasileiro. Resta saber se o acordo de cessar-fogo irá perdurar e se há novas aventuras previstas no horizonte de Trump.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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