PCC e Trump: como desinformação contamina o debate sobre defesa nacional

PCC e Trump: como desinformação contamina o debate sobre defesa nacional

Na última segunda-feira, o presidente Lula disse, ao lado do presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, durante cerimônia de assinatura de acordos em Brasília, que "se a gente não se preparar na questão de defesa, qualquer dia alguém invade a gente". Era o terceiro episódio em menos de uma semana a movimentar o debate sobre soberania, defesa e a relação do Brasil com os Estados Unidos.

O monitoramento de mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp pela Palver, combinado a dados de Instagram, YouTube e Telegram coletados entre 3 e 10 de março, permite reconstruir como esse debate circulou nas redes ao longo da semana. Cada novo episódio levantou discussões e debates, acelerando uma confusão informacional que resultou em diversas narrativas fragmentadas.

O primeiro evento aconteceu no fim de semana de 7 e 8 de março, quando Trump reuniu em sua propriedade na Flórida líderes de dezessete países da América Latina sob o nome de Escudo das Américas. Brasil, México e Colômbia ficaram de fora. Nos grupos públicos de direita, a ausência do Brasil circulou acompanhada de posts listando os países presentes com a pergunta "O que eles têm em comum?". Já nos grupos de esquerda, a leitura predominante era que dezessete governos haviam assinado com Trump um documento que abriria caminho para intervenção militar regional, sob pretexto de combate ao narcotráfico.

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No domingo, o UOL revelou que os Estados Unidos planejavam classificar o PCC e o Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras, lista que já inclui o Hamas e o Hezbollah. A medida permite ao governo norte-americano congelar ativos, impor sanções a quem financie essas organizações e, em tese, autorizar operações em território de terceiros. A notícia chegou em um momento em que a tensão internacional está elevada, com a guerra no Irã como pano de fundo, o que tornou as reações mais exaltadas de ambos os lados.

Foi nesse contexto que também chegou a fala de Lula com Ramaphosa na segunda-feira. Nos grupos de direita, a declaração sobre invasão foi interpretada como sinal de pânico presidencial diante do movimento norte-americano. A frase que mais circulou em diversas mensagens na terça era: "A química com Trump acabou. Lula compra briga para defender o PCC e CV no Brasil".

Nos grupos de esquerda, a narrativa dominante interpreta a classificação FTO como pretexto para intervenção, tendo a os precedentes da Venezuela e do Equador. No Telegram circulavam documentos atribuídos ao Departamento de Estado norte-americano, apontando suposta aliança operacional entre PCC e Hezbollah. Os dois campos usaram o mesmo material: a direita para ampliar a narrativa de terrorismo internacional, a esquerda para reforçar a tese de que a classificação servia a objetivos geopolíticos maiores.

Após Flávio Bolsonaro ser convidado para a posse do presidente do Chile José Antonio Kast, Lula cancelou a viagem, e o caso rapidamente entrou em circulação nos grupos, ainda na segunda-feira, e reforçou a sensação de que Lula estava sendo cercado na América Latina, sem ter para onde fugir. Imagens com o mapa da América do Sul onde a bandeira dos Estados Unidos aparece sobreposta aos países vizinhos foram amplamente compartilhadas.

Essa notícia deu gás para uma versão desinformativa de que Lula havia cancelado a viagem aos EUA com medo de ser preso em solo norte-americano. O texto que mais circulou nos grupos de WhatsApp nos dias 9 e 10, e foi amplamente republicado no Twitter, tinha o título "CRISE TOTAL: Rubio Acusa Três Poderes do Brasil de Conluio com Narcoterrorismo", e atribuía ao secretário de Estado Marco Rubio declarações nunca feitas: uma lista com dezenas de nomes de integrantes dos Três Poderes vinculados ao narcoterrorismo e o anúncio de uma "Operação Falcão" direcionada ao Brasil, que não existe. Para dar credibilidade, incluía citações fabricadas de veículos como The New York Times, Washington Post e Le Monde.

O texto funcionou porque todos os seus elementos de apoio têm correspondência na realidade. Rubio é uma figura real, o PCC é uma organização real, a tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos é real, e a viagem de Lula foi suspensa em função da escalada da guerra no Irã, segundo o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro. Os ganchos de compartilhamento reforçaram a circulação: a fórmula "Recebi isso e repasso" distribui a responsabilidade de quem encaminha, enquanto o "tic tac tic tac" no encerramento constrói uma expectativa de acontecimentos iminentes.

Quem recebe um volume denso de informações em pouco tempo não consegue verificar cada elemento de forma minuciosa. E quando decide checar algum ponto específico, frequentemente encontra meias confirmações. Essa sobreposição entre o fictício e o verificável é o centro da engenharia de narrativa que gera a confusão informacional. Em ano eleitoral, a capacidade de separar os fatos das versões distorcidas se torna o maior desafio para a democracia brasileira.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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