Futebol e estupro coletivo: uma relação de horror

Futebol e estupro coletivo: uma relação de horror

Homens se tornam simbolicamente mais homens sobre o corpo de uma mulher. É o que meninos aprendem desde cedo: seu capital simbólico vem da quantidade de mulheres consumidas. Ficar e narrar. Transar e contar. Meninas existem para serem devoradas. Sobre seus corpos atualizam-se dominação, poder, força, patentes.

Estupro não é sobre tesão; é sobre dominação. O que importa é exercer o poder que acreditam ter sobre as mulheres e narrar a outros o ocorrido com o objetivo de somar pontos, de se vangloriar. No coletivo, num ritual macabro dentro do qual atualizam-se como homens sob o olhar dos demais, o estupro cancela a necessidade de ser narrado. Estavam todos ali. Todos viram. Todos se avaliaram.

O estupro coletivo é sobre essa relação de masculinidade que circula farta no ato de um crime sexual praticado em conluio. E não tem nada a ver com homossexualidade; muito pelo contrário. Tem a ver com a cultura da heterossexualidade e com a necessidade de homens se confirmarem fortes e dominadores entre si usando o corpo de uma mulher como veículo. Querem ser admirados pelos parceiros. Querem ser colocados na posição de alfa. Querem o poder que vem com o abuso, cuja performance é testemunhada pelos envolvidos, do corpo de uma mulher.

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O futebol tem muitas histórias como essas para serem contadas. Um ambiente repleto de masculinidade, altamente misógino e machista, onde eventos como crimes sexuais encontram campo fértil para acontecer.

Muitas dessas histórias de violência sexual e coletiva contra a mulher no futebol se tornaram públicas. Robinho está preso por uma delas. Quantas outras não vieram à tona? Quantas mulheres foram estupradas e estão guardando isso só para elas? Quantos jogadores cometeram o crime e seguem por aí sendo admirados porque nada foi revelado?

Os homens que estupraram coletivamente uma adolescente em Copacabana estavam se relacionando uns com os outros no ato do estupro. Era entre eles. A mulher é o descartável. O abusável. O que se joga fora.

Um dos denunciados por estupro é atleta de futebol do Serrano. Outros três são maiores de idade e alunos da escola Pedro II. Um quinto é menor de idade. A vítima tem 17 anos.

Não tivesse havido uma denúncia, estariam rindo entre si do ocorrido. Vangloriando-se. Congratulando-se. É assim a masculinidade. "Não generalize", alguns dirão. O que querem comunicar: eu não sou esse cara. Mas vejam: 95% das violências praticadas no mundo são praticadas por homens. Crimes sexuais têm um percentual semelhante: cerca de 90% praticados por homens. Como não dizer que existe um problema com a masculinidade?

João Gabriel Xavier Bertho, o atleta do Serrano de 19 anos, é acusado de ter arquitetado uma emboscada para, ao lado de quatro parceiros, estuprarem sua ex-namorada. Além de Bertho, Bruno Felipe dos Santos Allegretti e Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, e Matheus Veríssimo Zoel Martins, de 19. O quinto, menor de idade, não teve a identidade revelada. Todos são considerados foragidos.

O caso veio a público depois da conclusão do inquérito conduzido pela 12ª DP, em Copacabana. O delegado responsável pela investigação, Ângelo Lajes, acredita que o crime foi uma "emboscada planejada". Vivemos dentro de uma emboscada planejada. Ser mulher é existir nessa realidade. Andamos por aí tentando escapar, mas nem sempre conseguimos.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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