Empréstimos estudantis mostram que decisões difíceis só vão piorar no Reino Unido

Comentarista-chefe de economia no Financial Times, doutor em economia pela London School of Economics

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Empréstimos estudantis mostram que decisões difíceis só vão piorar no Reino Unido

Debate sobre financiamento universitário expõe dilemas fiscais e sociais de longo prazo no país

Expansão do ensino superior é sucesso, mas cobra preço crescente de estudantes, universidades e governo

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Assim como muitos outros países, o Reino Unido enfrenta desafios estruturais quase insolúveis: obrigações inevitáveis que impõem escolhas dolorosas. Com uma população envelhecendo e uma economia de crescimento lento, a tendência é que essas decisões fiquem cada vez mais difíceis.

Um exemplo claro é o debate espinhoso sobre os empréstimos estudantis. O Institute for Fiscal Studies resume o quadro: em média, os estudantes deixam a universidade com pouco mais de 50 mil libras (R$ 350 mil) em dívidas.

Os pagamentos são vinculados à renda —muitos graduados quitam pouco ou nada, enquanto outros pagam 9% do que ganham acima de um determinado patamar por décadas, frequentemente vendo o saldo da dívida aumentar. O modelo levou a críticas sobre injustiça e à percepção de que estudantes aceitaram empréstimos cujas regras mudaram ao longo do tempo.

Esse resultado controverso decorre de uma tentativa imperfeita de resolver um problema extremamente complexo: como financiar a expansão do ensino superior de forma justa e fiscalmente viável, preservando ao mesmo tempo a independência institucional e a excelência acadêmica que tornaram o sistema britânico respeitado.

Em discurso de 2022, Nick Hillman, do Higher Education Policy Institute, lembrou que havia apenas 85 mil estudantes em tempo integral no início dos anos 1950, contra 2,2 milhões hoje.

O país ampliou enormemente o acesso à educação —especialmente para mulheres, que passaram a superar os homens nas universidades.

Segundo a Times Higher Education, o Reino Unido tem hoje seis das 50 melhores universidades do mundo, com Universidade de Oxford, Universidade de Cambridge e Imperial College London entre as dez primeiras.

A França tem apenas uma instituição nesse grupo e a Alemanha, três. O setor também se tornou uma potência exportadora, com 686 mil estudantes estrangeiros em 2024/25. Em muitos aspectos, trata-se de um triunfo.

A transformação das economias e das aspirações individuais tornou inevitável essa expansão. Quando o autor deste texto ingressou na universidade, apenas 5% de sua geração o faziam —algo visto, com razão, como desperdício de talento.

Mas a ampliação do acesso trouxe dilemas: como financiar o sistema? Como dividir os custos entre estudantes e sociedade? Como manter padrões de ensino e pesquisa? E como preservar a autonomia das instituições acadêmicas?

Nos debates do início dos anos 2000 sobre financiamento do setor, a solução defendida —alinhada à política do governo de Tony Blair— foi a introdução de mensalidades mais altas e empréstimos atrelados à renda, implementados em 2004.

A estratégia parecia a melhor possível: era politicamente inviável obter todos os recursos apenas via impostos, e graduados tendem a se beneficiar economicamente da educação superior. Além disso, a cobrança direta de taxas aumentaria a autonomia das universidades, enquanto o pagamento proporcional à renda funcionaria como uma forma de proteção para quem tivesse trajetória profissional menos bem-sucedida.

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A avaliação permanece válida, mas os detalhes —e suas mudanças ao longo do tempo— complicaram o modelo. Inicialmente, as mensalidades foram limitadas a 3.000 libras (R$ 21 mil) por ano, valor claramente insuficiente. Sob o governo de coalizão, o teto subiu para 9.000 libras (R$ 63 mil) e o financiamento público direto ao ensino foi eliminado.

Parte da justificativa veio de uma convenção contábil que ignorava a inevitável perda futura com dívidas não pagas, permitindo registrar uma economia artificial nas contas públicas ao substituir gasto direto por empréstimos.

Ajustes posteriores incluíram prazos mais longos para perdão das dívidas, juros mais altos e o congelamento do valor nominal dos limites de renda para pagamento. Devedores reclamam, com razão, que é injusto o governo alterar as condições de seus débitos ao longo do tempo.

Ao mesmo tempo, a receita com mensalidades não acompanha os custos de formar estudantes locais, levando universidades a subsidiar cursos caros, como medicina e ciências, com a renda de áreas mais baratas, como humanidades.

O resultado é um setor bem-sucedido, mas profundamente dependente do Estado —que tenta escapar dos custos transferindo o peso para os estudantes. Isso gera imprevisibilidade e sensação de injustiça inevitável. É o melhor que se pode fazer? Em grande medida, sim. Ainda assim, o governo precisará voltar a oferecer mais apoio direto ao ensino.

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