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'X9' da Faria Lima: quem é o investidor que peita Master, Tanure e mercado

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07.03.2026

'X9' da Faria Lima: quem é o investidor que peita Master, Tanure e mercado

A nova tatuagem do gestor financeiro Vladimir Timerman, 46, já está escolhida.

Se vencer a ferrenha disputa judicial que vem travando há anos contra o investidor bilionário Nelson Tanure, o desenho de um Arcanjo Miguel derrotando o dragão poderá dividir espaço com Ares e Atenas na pele de Timerman, da Esh Capital.

Ele é o que se chama no mercado de gestor ativista. Sua tese de investimentos é adquirir participações minoritárias em empresas que considera mal geridas para tentar influir no futuro do negócio, lucrando com a valorização das ações.

Nos últimos oito anos, Timerman atuou como uma espécie de "X9 do bem", denunciando toda sorte de irregularidades no mercado de capitais, comprando briga com gente poderosa —e frequentemente ultrapassando limites no trato com os adversários, acusados de "vagabundos" e "bandidos" no tribunal das redes sociais, antes de qualquer condenação formal.

O histórico de disputas com pesos-pesados das finanças, como Tanure, o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, e também com integrantes da burocracia estatal responsável pela vigilância do sistema financeiro do país, o transformou em uma espécie de "elemento radioativo" na Faria Lima, centro financeiro do Brasil.

As deusas gregas da guerra tatuadas —uma representando a força bruta e a outra, sabedoria e estratégia— são as marcas de um outro embate travado pelo gestor em defesa dos acionistas minoritários da Smiles, que levou a Gol a desembolsar R$ 270 milhões a mais em favor de pequenos investidores na operação de retirada da Bolsa de Valores das ações da companhia (operação conhecida como deslistagem).

Em seus confrontos com os poderosos, Timerman bateu, levou e quase esmoreceu.

Desde o final do ano passado, contudo, seus ânimos foram renovados com a deflagração do escândalo do Banco Master, com a prisão de Vorcaro e após Tanure ter virado réu em uma ação de "insider trading" —temas das denúncias que o gestor vinha fazendo há anos para a Polícia Federal, Ministério Público, CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e Banco Central.

"A Gafisa (construtora ligada a Tanure) financiou o início do Master para fazer rolos com precatórios de usinas de álcool falidas. O Master inflava os fundos para aumentar o patrimônio e poder captar mais CDBs.

Em 2023, o Master tinha R$ 8 bilhões de CDB apenas. Se a CVM tivesse feito o trabalho dela, eles não teriam chegado a R$ 40 bilhões, R$ 50 bilhões", acusa Timerman.

O UOL procurou todos os citados para comentar as acusações de Timerman.

Tanure não quis comentar sobre sua relação com Timerman. A CVM afirmou que "em linha com o princípio da impessoalidade da Administração Pública, não compete à CVM se manifestar sobre casos, perfis ou avaliações individuais de participantes do mercado". O Banco Central e a Gafisa não quiseram comentar.

Em nota na época da operação policial, Tanure declarou que sua relação com o Master era estritamente comercial e que a cobertura foi marcada pela "publicação de inverdades, dando ares de realidade ao que não passa de especulação".

"Não fui nem sou controlador do extinto Banco Master, tampouco seu sócio, ainda que minoritário, direta ou indiretamente, inclusive por meio de opções, instrumentos financeiros, debêntures conversíveis em ações ou quaisquer mecanismos equivalentes", disse.

Antítese do "farialimer"

Barbudo, tatuado, fumante compulsivo e mal-ajambrado, Timerman é a antítese do "farialimer" engomado e de coletinho. É insistente, verborrágico e um tanto misantropo.

Estuda profundamente cada caso e, quando parte para a acusação, vai com o pé na porta. E não se furta a entupir as caixas postais de diretores da CVM, autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda responsável por fiscalizar o mercado de valores, cobrando o andamento de suas representações.

Esse estilo briguento, um tanto quixotesco, já rendeu duas condenações criminais —uma por calúnia, contra o gestor Daniel Alberini, da CTM Investimentos, e outra por perseguição, movida por Tanure.

Na decisão em primeira instância do processo movido por Tanure, a juíza Eva Lobo Chaib Dias Jorge, da 12ª Vara Criminal de São Paulo, argumentou que Timerman assumiu em depoimento que usa suas redes "para pressionar, constranger, atemorizar e causar efeito manada no mercado".

A defesa anexou tuítes em que Timerman supostamente falaria sobre Tanure, mas sem citar seu nome. Em um deles, diz que ""vagabundo comprou uma clínica de imagem para uma filha para vender para uma companhia aberta por 10x o que pagou". Ele nega que estava falando sobre o investidor.

Ficou ainda 120 dias sem poder usar as redes sociais e está proibido de mandar mensagens e fazer menções nas redes ao ex-presidente da CVM João Pedro Nascimento.

Em tempos de vacas gordas, logo após a vitória contra a Gol no caso Smiles, em 2021, o fundo Esh Theta chegou a liderar o ranking de rentabilidade dos hedge funds do país, com valorização de 104,2%.

No entanto, desde que a Gafisa obteve uma liminar bloqueando as cotas e ações do Esh Theta —há dois anos e ainda sem julgamento de mérito—, o fundo perdeu algumas dezenas de cotistas, com a rentabilidade acumulando queda de 74,74%.

Mas o golpe que mais o abalou veio de uma denúncia anônima: foi acusado de roubar dinheiro do próprio fundo e remeter para Malta — aquele mesmo paraíso fiscal que estava na rota de fuga de Vorcaro.

A denúncia estourou três dias antes de uma oitiva na ação de perseguição movida por Tanure, quando foi alvo de uma cautelar de busca e apreensão. Teve contas de WhatsApp e redes bloqueadas, o email pessoal foi invadido e chegou a temer um pedido de prisão.

"Abri meu Imposto de Renda, apresentei meu passaporte e dei a senha dos meus eletrônicos. Não tenho nada a esconder", diz. A denúncia foi arquivada por falta de consistência.

Timerman responde hoje a nove processos —entre civis e criminais, incluindo as duas condenações que ainda tenta reverter em segunda instância.

Ele acumula 14 vitórias —sendo a mais célebre no processo de difamação movido por Daniel Vorcaro, naquele que ficou conhecido como o único processo que se tem notícia conduzido pela advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Alexandre Moraes, em nome do Banco Master.

"Eu só falei verdades. Fui atacado. Enfrentei tudo de peito aberto e cabeça erguida. Se tivesse feito qualquer coisa errada meus adversários já teriam descoberto e usado contra mim. Mas tiveram que inventar mentiras e criar uma narrativa porque não acharam nada", argumenta.

Questionado sobre seu estilo "pé na porta", ele responde: "Se a crítica está bem fundamentada, não tem porque tratar bandido como não bandido".

Timerman já era acionista minoritário da Alliar, um dos maiores grupos de medicina diagnóstica do Brasil, e da Gafisa, quando Tanure começou a adquirir participações nas duas empresas.

Estava portanto bem posicionado e assistiu de camarote quando as teias do Master começaram a avançar nas empresas abertas controladas por Tanure.

Ainda pouco difundido no Brasil, mas bastante forte nos EUA, o ativismo societário é uma atividade de alta litigância, com minoritários fazendo valer seus direitos para não serem atropelados pelos acionistas controladores. Uma briga de Davi e Golias, movida por interesses econômicos. Quando os minoritários vencem uma disputa, os gestores que lideram as ações faturam muito dinheiro.

O próprio Timerman definiu assim o seu ativismo, em uma entrevista no YouTube que foi retirada do ar: "Acabei me especializando nesta parte de ativismo corporativo, de chegar e encontrar uma brecha e entortar o braço dos caras até arrancar um troco a mais".

Para "arrancar o troco a mais", o gestor precisa estar muito bem fundamentado nos argumentos, a Justiça tem que ser célere, e a CVM precisa funcionar.

Timerman protocolou tantas denúncias que diretores da autarquia passaram a tratá-lo como "denunciante contumaz" — alcunha frequentemente usada para justificar o arquivamento de denúncias.

"Não é só denunciar. Você tem que brigar para não arquivar, acompanhar, contestar. Tem que trabalhar para não deixar a CVM deixar de trabalhar", diz.

Em 2023, muito antes da operação da Polícia Federal que desbaratou o esquema de Vorcaro, cansado de ver suas denúncias arquivadas, Timerman bateu à porta do Banco Central. Em maio, alertou que Tanure poderia ser o sócio oculto do Banco Master por meio de uma estrutura de fundos fechados.

Em setembro daquele ano, fez uma segunda denúncia, alertando sobre o uso de precatórios para inflar o balanço. Ambas as denúncias ganharam materialidade com as investigações da PF iniciadas em 2025. O BC, então comandado pelo economista Roberto Campos Neto, não indicou a Timerman a existência de irregularidades.

No mês seguinte, o BC baixou uma norma tornando mais rígida a regra para a declaração de precatórios no balanço dos bancos, medida que afetou diretamente o Master.

No entanto, segundo o UOL apurou, a norma já vinha sendo elaborada desde o início do ano, quando os precatórios e pré-precatórios começaram a aparecer com mais intensidade nos balanços de instituições financeiras.

Depois que Gabriel Galípolo assumiu o comando do BC, em janeiro de 2025, Timerman tentou por sete vezes marcar uma audiência, mas deu com a cara na porta.

Ele também levou as mesmas denúncias que fez na CVM e ao BC para o MPF (Ministério Público Federal) e à PF.

Em janeiro, uma dessas denúncias culminou em um processo aberto na 5ª Vara da Justiça Criminal Federal em São Paulo, com Tanure se tornando réu pelo suposto uso de informação privilegiada para obter vantagem financeira com ações da Gafisa. O empresário nega qualquer irregularidade.

Ao longo de todos esses anos, Timerman encarou o silêncio de seus pares, receosos de se indispor com seus adversários. E mesmo os que acreditam que Timerman esteja do lado certo questionam seu estilo "muito heterodoxo" e "quixotesco".

"É um cara de lua, mas honesto e do bem. A causa é legítima", diz um gestor.

Engenheiro elétrico formado pela Escola Politécnica da USP, Timerman foi trabalhar no mercado financeiro como um ato de rebeldia e enfrentamento ao pai, Artur Timerman, um médico infectologista de alma comunista e coração corintiano, que participou da fundação da Gaviões da Fiel.

O pai, que morreu em 2019, também era incansável, mas sua batalha era outra: o vírus da Aids. Nos anos 80, esteve na linha de frente da luta contra a doença.

Nos atestados de óbito, se recusava a declarar a Aids como causa mortis, diferentemente da praxe da época. Dizia que as pessoas não morriam de Aids, mas de pneumonia ou outra insuficiência. A garantia a cobertura dos planos de saúde, além de livrar a família do estigma associado à doença na época.

A irmã do meio, Natalia Timerman, seguiu os passos do pai na medicina. Especializada em psiquiatria, iniciou a carreira em um hospital prisão, experiência que virou livro. Hoje ela é também uma celebrada escritora, autora de "Copo Vazio" e "As Pequenas Chances".

"Minha formação foram as arquibancadas do Pacaembu e os corredores do Hospital das Clínicas", lembra Vladimir, cujo nome é uma homenagem do pai ao amigo jornalista Vladimir Herzog, morto pela ditadura em 1975, quatro anos antes de ele nascer.

Enquanto o pai comunista dirigia seu Lada pela cidade, o filho nerd e de poucas habilidades interpessoais dava seus primeiros passos no mercado financeiro, desenvolvendo algoritmos para automatizar a compra e venda de ações.

"Eu odiava pessoas. Melhorei depois que me casei com a Sandra", diz sobre a segunda esposa, uma profissional de RH que o introduziu ao mundo da programação neurolinguística, metodologia de autoconhecimento usada no desenvolvimento de lideranças.

Chegou a passar um mês de férias em Cuba —para ver com os próprios olhos o regime idealizado pelo pai— mas diz que xingou Fidel Castro e por pouco não acabou preso.

Depois do expediente, para desgosto ainda maior do pai, estudava a obra de Ludwig von Mises, o expoente da Escola Austríaca de economia, defensor do liberalismo clássico. O encantamento com o ultraliberalismo, no entanto, teve vida curta.

"Deixei de ser um anarcocapitalista no dia em que peguei um Uber no Rio, estava sem bateria e o motorista me largou em uma favela. Aí entendi que o livre mercado era uma falácia."

Antes de ter a própria gestora, Timerman passou pela tesouraria do Itaú BBA e pelo Unibanco. Mas não se adaptou ao ambiente corporativo. "Odiava ter de usar terno e fazer política."

O que o motiva? "Claro que tem interesse econômico. Passei aperto esses últimos três anos. Não passaria o que eu passei se não fosse convicção. Dinheiro não move uma agulha. Tem que ser consequência. Meu pai morreu duro."

Além de Ares e Atenas, aguardam a chegada de Miguel Arcanjo um urso e um tubarão martelo, homenagens a Bernardo e David. "Meus filhos são as minhas maiores vitórias."

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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