Toda a estrutura de discurso de Jair Bolsonaro é feita sob medida para desbaratinar a imprensa. Continua funcionando porque as falas do presidente são analisadas apenas como discurso político tradicional e não são isso.

A comunicação bolsonarista é nativa da internet e bebe diretamente na fonte de Steve Bannon, amigo de décadas de Olavo de Carvalho e militar de carreira.

Colunistas do UOL

Ao analisar esse discurso como pronunciamento político apenas, toda essa trupe é colocada na caixinha da extrema-direita. Passam a ser tratados como esgoto pela ala da sociedade que se considera mais limpinha.

Não temos 58 milhões de extremistas no Brasil. O historiador Daniel Boorstin costumava dizer que "o maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, é a ilusão do conhecimento".

Eu também cometi esse erro quando sofri os primeiros ataques de bolsonaristas em 2014, quando o Escola sem Partido iniciou uma perseguição virtual contra a professor Paula Rosiska e eu, por uma entrevista em que nos manifestamos contrárias ao projeto.

Esse movimento nativo digital fala ao mesmo tempo em duas frequências, uma para iniciados e outra para não iniciados. São técnicas de comunicação antigas, infecciosas e perigosas, adaptadas formalmente para a era da internet.

Andrew Anglin, cria de Steve Bannon, é autor do "Manual de Radicalização" mais famoso. Ele bebe de duas fontes: o capítulo VI do Mein Kampf - que fala sobre a propaganda da guerra - e as "Regras para Radicais" de Saul Alinsky.

Essas teorias são adaptadas em um manual prático com regras de discurso e escrita. Num primeiro momento, serviam para instruir os redatores do Daily Stormer, site neonazista que ele criou.

Como são ideias infecciosas, as pessoas começam a repetir esses comportamentos. A conformidade social é uma característica humana. Chega a um ponto em que os adversários copiam o comportamento, o que leva ao ápice a radicalização da sociedade.

Andrew Anglin instruía claramente a utilizar a seu favor a arrogância de jornalistas e personalidades públicas. O discurso de Bolsonaro fez isso com maestria. Ao anunciar um pronunciamento em que falou claramente para não obstruírem estradas, sabia que seria ridicularizado como se o primeiro pronunciamento tivesse sido fraco.

Também sabia que iria gerar uma gritaria generalizada de gente compartilhando o pronunciamento todo ou em parte para tirar sarro, reclamar que ele não reconheceu a derrota, criticar o cenário e o figurino toscos, falar que ele parece abalado.

Esse movimento é útil porque amplifica a mensagem contida no vídeo que é lida pelo povo que vive nas redes e não é percebida pelo mainstream. Essa mensagem conecta mais com o cidadão comum do que as críticas, até porque elas chamarão o movimento de golpista. Difícil ouvir quem te xinga.

Qual é a mensagem? Bolsonaro disse que está triste, que compreende a tristeza das pessoas. "Estou com vocês e vocês estão comigo", diz. Ao mesmo tempo, fala que todas as manifestações que não bloqueiam estradas são legítimas. É a senha para que continuem e cresçam, mesmo sem ele pedir.

O presidente da República reafirma todas as justificativas morais utilizadas pelas pessoas que estão nas ruas. Diz que vai continuar lutando por democracia e liberdade, exatamente o que essas pessoas acreditam estar fazendo.

Bolsonaro falou textualmente que "os protestos são bem vindos", que estão dentro das "quatro linhas da constituição", são do jogo democrático e espontâneos. Tudo isso se articula com o que ocorre nos grupos digitais.

Neles, um vídeo antigo da campanha, em que Bolsonaro passa na frente do Quartel General do Exército em São Paulo circula como se fosse de ontem. Há um movimento que fez com que os seguidores do Exército no Instagram pulassem de 3 milhões para mais de 6 milhões.

O vídeo do teórico da conspiração norte-americano Mike Lindell dizendo que as urnas roubaram mais de 5 milhões de votos de Bolsonaro está bombando. O programa da Fox News em que Tucker Carlson questiona a parcialidade do Judiciário e da imprensa brasileira começa a aparecer em versões traduzidas.

Não é possível analisar o discurso à parte do contexto informacional que o acompanha, mas isso continua sendo feito. Bolsonaro não falou agora aos caminhoneiros, pediu persistência nas ruas.

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Novo pronunciamento de Bolsonaro revigora e legitima protestos de rua

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03.11.2022

Toda a estrutura de discurso de Jair Bolsonaro é feita sob medida para desbaratinar a imprensa. Continua funcionando porque as falas do presidente são analisadas apenas como discurso político tradicional e não são isso.

A comunicação bolsonarista é nativa da internet e bebe diretamente na fonte de Steve Bannon, amigo de décadas de Olavo de Carvalho e militar de carreira.

Colunistas do UOL

Ao analisar esse discurso como pronunciamento político apenas, toda essa trupe é colocada na caixinha da extrema-direita. Passam a ser tratados como esgoto pela ala da sociedade que se considera mais limpinha.

Não temos 58 milhões de extremistas no Brasil. O historiador Daniel Boorstin costumava dizer que "o maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, é a ilusão do conhecimento".

Eu também cometi esse erro quando sofri os primeiros ataques de bolsonaristas em 2014, quando o Escola sem Partido iniciou uma perseguição virtual contra a professor Paula Rosiska e eu, por uma entrevista em que nos manifestamos........

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