Li aqui no UOL uma reportagem sobre um ato feito no Estádio Nilson Nelson em Brasília por uma das principais apostas da Igreja Católica, as novas comunidades, principalmente da Renovação Carismática.

Estava na página de política. Os repórteres traziam fatos, contando sobre a presença de Jair Bolsonaro, do governador do Rio de Janeiro Claudio Castro, dois padres, cantores gospel e incentivadores da micareta bolsonarista em Aparecida. Até o padre Kelmon estava lá.

Colunistas do UOL

Fui ver a filmagem do evento. Teologicamente, era um sarapatel de coruja. Ocorre ao mesmo tempo em que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil se dedica diuturnamente a combater a idolatria política e à manipulação política por meio das religiões.

Em seio católico isso também está acontecendo, como é o caso específico da celebração promovida pela Comunidade Católica Missão Mundo Novo, fundada em 2005 pelo ídolo gospel e deputado federal eleito Eros Biondini.

Michelle Bolsonaro e Damares Alves reinavam absolutas reproduzindo o mesmo discurso que mistura fé com pauta de costumes e defesa da família. Acharam a porta de entrada no catolicismo.

Aqui estamos diante de um dos maiores desafios da Igreja Católica, o de manter o respeito à sua teologia, hierarquia, sacerdotes e tradições entre os próprios fiéis.

A maioria dos católicos vê como desrespeito absoluto a micareta em Aparecida, mas também há católicos que gostaram. Alguns dos mais ilustres estavam no palco da "Noite de Clamor pelo Brasil - Terra de Santa Cruz", promovida pela Missão Mundo Novo.

A Missão Mundo Novo surgiu primeiro como um movimento dentro das paróquias ligadas à Renovação Carismática em Belo Horizonte. Eros Biondini virou um dos principais cantores desse movimento, com amplo destaque na TV Canção Nova. É daí que nasce o grupo independente criado por ele.

Ocorre que Igreja Católica não é igual igreja evangélica, existe hierarquia. A Missão Mundo Novo foi feita com autorização e orientação do Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo.

A Renovação Carismática tem décadas de existência e une à prática católica algumas práticas pentecostais. O grande desafio do Vaticano é como manter esse movimento dentro da Igreja Católica em plena era da sociedade do espetáculo.

O crescimento monumental do movimento evangélico em todo o mundo é acompanhado também por um enorme crescimento da Renovação Carismática Católica. São grupos que têm em comum algumas práticas pentecostais, o protagonismo dos líderes e o crescimento de baixo para cima.

No movimento evangélico, quando há discordância entre o pastor e a Bíblia, a maior parte da igreja vai ficar com o pastor. Nas "novas comunidades", em sua maioria fundadas por leigos, alguém que não é um sacerdote católico pode agir como se fosse líder religioso, contrariando orientações da Igreja Católica.

Não digo pode no sentido de moral, mas de possibilidade. Tanto pode que fez ontem. Fiz questão de entrar em contato com a CNBB e com a Comunidade Católica Canção Nova para saber se desejariam fazer algum comentário sobre o evento. As assessorias responderam formalmente que nenhuma das entidades vai comentar o ocorrido.

Em 2019, na inauguração da Charis, Conferência Internacional da Renovação Carismática Católica, o Cardeal Kevin Farrel disse em seu discurso que "devemos compreender com profunda docilidade que a Renovação Carismática Católica não pertence aos seus membros, mas sim, à Igreja. Isso pode nos surpreender: afinal, a Renovação não foi uma iniciativa episcopal ou pontifícia. A Renovação Carismática realmente tem crescido de baixo para cima, de pessoa para pessoa, através de uma série de iniciativas privadas, movidas pelo Espírito, como um incêndio florestal impulsionado por um poderoso vento".

Como colocar isso em prática é o grande desafio. Entre a fé com obediência e o protagonismo individual, a sociedade do espetáculo tem uma preferência clara. Ela vem com poder político de brinde.

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Grande aposta da expansão católica sucumbe ao bolsonarismo e ao padre Kelmon

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19.10.2022

Li aqui no UOL uma reportagem sobre um ato feito no Estádio Nilson Nelson em Brasília por uma das principais apostas da Igreja Católica, as novas comunidades, principalmente da Renovação Carismática.

Estava na página de política. Os repórteres traziam fatos, contando sobre a presença de Jair Bolsonaro, do governador do Rio de Janeiro Claudio Castro, dois padres, cantores gospel e incentivadores da micareta bolsonarista em Aparecida. Até o padre Kelmon estava lá.

Colunistas do UOL

Fui ver a filmagem do evento. Teologicamente, era um sarapatel de coruja. Ocorre ao mesmo tempo em que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil se dedica diuturnamente a combater a idolatria política e à manipulação política por meio das religiões.

Em seio católico isso também está acontecendo, como é o caso específico da celebração promovida pela Comunidade Católica Missão Mundo Novo, fundada em 2005 pelo ídolo gospel e deputado federal........

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