Michelle Bolsonaro finalmente verbaliza um conceito solidificado no imaginário cristão, que a coloca como a "Rainha Ester" de Bolsonaro. "Não olhe para meu marido, olhe para mim, que sou uma serva do Senhor", disse num encontro de mulheres.

É uma cartada decisiva na reta final da campanha, dado que os petistas optaram por jogar no tabuleiro da discussão religiosa, em que não sabem movimentar as pedras. A primeira-dama sabe, muito melhor que o marido, aliás.

Colunistas do UOL

Existe um elemento cultural que dá ampla vantagem a Michelle Bolsonaro nesse debate, a conexão com as classes C, D e E.

Nas últimas décadas, as igrejas evangélicas cresceram muito nas periferias de todo o Brasil e sua moralidade passou a fazer parte da nossa cultura periférica. Não é só para crentes que Michelle fala, ela usa elementos culturais da moralidade periférica para fazer conexão com esse público.

É uma estratégia inteligente, que leva em conta a imagem que os progressistas do PT fazem dos crentes. São clichês conhecidíssimos e, a partir deles, a primeira-dama calcula muito bem quais serão as reações.

Todos os ataques religiosos feitos até agora reforçam a estratégia de Michelle de se apresentar como a Rainha Ester. O bolsonarismo soube crescer sendo subestimado, é algo que também está no imaginário evangélico, o do povo perseguido.

Um exemplo prático é a ideia de dizer que Bolsonaro não é cristão pelas diversas atitudes em completa dissonância com os ensinamentos de Jesus. Eu costumo dizer que bolsonaristas seguem o Evangelho segundo Quentin Tarantino.

Mas esse tipo de apontamento não é um argumento válido dentro da moralidade evangélica. O progressismo gourmet infere que pode funcionar porque entende a moralidade cristã como algo mais antigo da nossa cultura, o catolicismo.

Nós, católicos, temos o conceito de santidade muito presente no imaginário. Por isso, nessa moralidade, faz sentido analisar à luz dos preceitos bíblicos as atitudes das pessoas. É preciso arrependimento verdadeiro e tentativa de reparação para o perdão dos pecados.

Não é assim a cultura evangélica. A graça de Deus a todos é dada, independe de merecimento. Condenamos o pecado e não o pecador. Não se faz acepção de pessoas. Há várias máximas similares.

É justamente nesse ponto, o de comparar as atitudes de Jair Bolsonaro com os princípios cristãos, que surge Michelle como a Rainha Ester, algo que não é só religioso, faz parte desse caldo de cultura.

A mulher enviada por Deus é a fiadora da qualidade espiritual e moral do marido governante. Ele pode ter inúmeros defeitos, cometer inúmeros desmandos, governantes são assim. Mas, quando houver uma ameaça ao povo de Deus, a Rainha Ester estará lá e evitará o pior.

Na história bíblica, Ester é judia e acaba na corte do rei persa Assuero, que a escolhe como esposa. É uma serva de Deus na corte de um rei pagão. Ela se coloca em posição de obediência, aprende os costumes e ganha a confiança do governante até que influi sobre ele de maneira que nem os conselheiros mais poderosos influem.

Era uma corte em que havia pena de morte para quem se dirigisse ao rei sem ser chamado por ele. Ester sabe que, por questões políticas, o marido decidiu exterminar os judeus, o povo de Deus. É somente diante desse desmando, da destruição completa, que ela resolve intervir mesmo sem ser chamada. Consegue.

É esse o imaginário que Michelle Bolsonaro ativa, algo muito presente na cultura evangélica. Ela é a Ester, a serva do Senhor, fiadora do governo do marido. Há quem diga que também surge daí uma potência política independente.

A campanha sabe que os adversários vão reagir apontando a submissão de Michelle ao marido, interpretando de forma superficial o que ela diz ou buscando podres do passado dela. Nada disso contrapõe a narrativa, só reforça o quanto ela é perseguida por ser de Deus e não do mundo.

Apenas uma trinca na sinceridade da fé de Michelle pode ameaçar o que ela conquistou. Por isso, virou a espinha dorsal da campanha.

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Espinha dorsal da campanha de Bolsonaro, Michelle atua como 'Rainha Ester'

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21.10.2022

Michelle Bolsonaro finalmente verbaliza um conceito solidificado no imaginário cristão, que a coloca como a "Rainha Ester" de Bolsonaro. "Não olhe para meu marido, olhe para mim, que sou uma serva do Senhor", disse num encontro de mulheres.

É uma cartada decisiva na reta final da campanha, dado que os petistas optaram por jogar no tabuleiro da discussão religiosa, em que não sabem movimentar as pedras. A primeira-dama sabe, muito melhor que o marido, aliás.

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Existe um elemento cultural que dá ampla vantagem a Michelle Bolsonaro nesse debate, a conexão com as classes C, D e E.

Nas últimas décadas, as igrejas evangélicas cresceram muito nas periferias de todo o Brasil e sua moralidade passou a fazer parte da nossa cultura periférica. Não é só para crentes que Michelle fala, ela usa elementos culturais da moralidade periférica para fazer conexão com esse público.

É uma estratégia inteligente, que leva em conta a imagem que os progressistas do PT fazem dos crentes. São clichês conhecidíssimos e,........

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