O debate deste domingo foi histórico por ser inovador e também por ter subido o nível da campanha. A discussão sobre quem é mais amigo do demônio foi substituída por embates sobre política, biografia e projetos de futuro.

Jair Bolsonaro conseguiu sair do inferno astral em que havia se metido sozinho. A língua do presidente tem feito mais mal a ele durante do que todos os delírios de grandeza do janonismo e seus Che Guevaras de apartamento.

Colunistas do UOL

Não tem como explicar o que o presidente disse sobre as adolescentes venezuelanas. Ninguém forçou a dizer nada, ninguém distorceu, ele realmente disse. Foi distribuído loucamente pela oposição mas acabou pegando mal na rede bolsonarista, que primeiro espalhou o vídeo na ânsia de ter uma defesa unificada.

Aí é que surgiu o grande nó: como defender um negócio desses? Precisou até de live de madrugada e Michelle Bolsonaro garantindo que o marido fala que "pintou um clima" para todo mundo.

Desde a campanha passada o bolsonarismo abusa das acusações de pedofilia e acabou sendo vítima disso. Perdi as contas de quantas personalidades públicas foram acusadas de serem pedófilas pelas razões mais disparatadas.

Até eu entrei na dança. Como tirei uma foto com a artista Marina Abramovic, passei a ser considerada satanista e pedófila por bolsonaristas. Ganhei alguns processos judiciais por dano moral. Este ano, voltaram com a mesma história.

O bolsonarismo passou anos criando pânico moral sobre pedofilia e uma mentalidade segundo a qual as pessoas que menos esperamos podem se revelar pedófilas a qualquer momento. Foi isso - e não o ataque de adversários - que lhe causou o pesadelo.

A história é muito mais atrelada à cultura de levantar suspeição de pedofilia sobre todos, criada pelo bolsonarismo. Por isso essa fala caiu como uma bomba e outras muito graves não. É uma fala que está no contexto da cultura própria dos grupos bolsonaristas.

É exatamente aí que a campanha petista se perde nas redes, não sabe ler o contexto. Existe a ideia de que basta copiar o conteúdo do bolsonarismo para fazer frente a ele. Por isso alguns aplaudem o janonismo. Como ele chega à imprensa, passa a impressão de funcionar nas redes.

Ocorre que não funciona copiar o conteúdo sem ter o mesmo trabalho com o contexto que tem o bolsonarismo. Ontem, no debate, ficou clara a diferença na técnica.

Quando Jair Bolsonaro falou para "dar um Google" em desmatamento, imediatamente os grandes influencers bolsonaristas todos começaram um gráfico elaborado pelo perfil Economista Visual com os dados desde o governo FHC até o presente.

Como existe muita interação entre os influencers bolsonaristas, eles já sabem o que fazer. Seguem o mesmo fluxo de assunto daqueles mais próximos ao presidente, esperando reconhecimento de algum perfil maior. Até os nanoinfluencers, com 100 pessoas, espalham o tal gráfico. Todos ficam de olho na recompensa da citação por um perfil maior.

O resultado é que o tema desmatamento foi o terceiro tema mais pesquisado no Google durante o debate. O segundo foi "quem é Ortega?". O primeiro foi a tradicional "quem está ganhando o debate?".

Só um exemplo. A cada fala de Jair Bolsonaro, já existe todo um material pronto, que é disparado por grandes perfis, seguido por médios e pequenos. Eles interagem de forma quase orgânica e quase a totalidade é de fãs.

Enquanto isso, a equipe de Lula cortava trechos da fala do candidato e espalhava. Os grandes influenciadores da campanha publicavam temas diversos, cada um uma história diferente.

Não há sincronicidade e sinergia nem entre campanha e influenciadores grandes e sequer dentro do grupo dos grandes influenciadores. Imaginem como é a relação dessa ilha com os médios e pequenos.

Reproduzir mentiras pode aplacar o desejo de vingança ou dar o deleite de ter poder nas redes sociais. Não é suficiente, no entanto, para criar um ecossistema como o bolsonarismo. Isso exige um trabalho ao qual talvez se dediquem apenas os que são sistematicamente subestimados.

QOSHE - Debate tira Bolsonaro do inferno em redes sociais, onde ele nada de braçada - Madeleine Lacsko
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close
Aa Aa Aa
- A +

Debate tira Bolsonaro do inferno em redes sociais, onde ele nada de braçada

3 37 10
18.10.2022

O debate deste domingo foi histórico por ser inovador e também por ter subido o nível da campanha. A discussão sobre quem é mais amigo do demônio foi substituída por embates sobre política, biografia e projetos de futuro.

Jair Bolsonaro conseguiu sair do inferno astral em que havia se metido sozinho. A língua do presidente tem feito mais mal a ele durante do que todos os delírios de grandeza do janonismo e seus Che Guevaras de apartamento.

Colunistas do UOL

Não tem como explicar o que o presidente disse sobre as adolescentes venezuelanas. Ninguém forçou a dizer nada, ninguém distorceu, ele realmente disse. Foi distribuído loucamente pela oposição mas acabou pegando mal na rede bolsonarista, que primeiro espalhou o vídeo na ânsia de ter uma defesa unificada.

Aí é que surgiu o grande nó: como defender um negócio desses? Precisou até de live de madrugada e Michelle Bolsonaro garantindo que o marido fala que "pintou um clima" para todo........

© UOL


Get it on Google Play