Só um mito cairá ao final da apuração do último domingo: João Santana. Ele chegou ao PDT a peso de ouro. Seria o gênio responsável pela vitória de Dilma Rousseff na campanha que massacrou Marina Silva e reduziu para sempre sua base eleitoral. Pelo jeito, as coisas não eram bem assim.

Ciro Gomes é a nova Marina Silva e o PT continua sendo o PT. Assassinato de reputação é especialidade da casa, com marqueteiro famoso ou não. O pessoal ama esse esporte, principalmente quando pode dizer que é em nome da democracia. Se não fosse por um bem maior, jamais permitiriam.

Colunistas do UOL

Meus amigos Claudio Tognolli e Romeu Tuma Jr. escreveram juntos dois volumes do livro "Assassinato de Reputações - Um Crime de Estado". Ali há uma coleção de casos do tipo. Os livros são metralhadoras giratórias, mas jamais as afirmações foram contestadas judicialmente.

Após o advento das redes sociais, o ambiente político-eleitoral atingiu o patamar de chiqueiro moral juramentado. Mas todos têm justificativa para se refestelar na lama.

Chamo de "lama" o assassinato de reputações e ataques em enxame, geralmente envolvendo fake news. Isso se tornou um esporte. É algo muito útil para energizar as militâncias e tratado com a mais absoluta permissividade tanto pelo bolsonarismo quanto pelo lulismo. Um lado argumenta que precisa disso porque o outro faz.

A turma da "falsa equivalência" diz que não se pode comparar Lula e Bolsonaro. Concordo, são populistas com atitudes, histórias e valores profundamente diferentes. O que não é tão diferente é o comportamento da militância dos dois.

A de Jair Bolsonaro é definitivamente mais violenta no sentido físico. Não há como negar que, até o momento, há uma predominância absoluta de ataques físicos violentos partindo dessa militância. Existe ainda o agravante do fetiche sobre armas, que pode derivar em algo pior.

O que contém os efeitos é o rechaço absoluto dessas práticas por parte da mídia mainstream e da maioria das pessoas com voz na cultura e na sociedade. Nenhum excesso bolsonarista fica sem a devida crítica.

A militância lulista tem menos episódios de violência física. Você vai elencar um aqui e outro acolá, mas não é essa epidemia que temos visto no bolsonarismo. A diferença é que eles são minimizados e justificados.

Na questão do "discurso de ódio", a população faz até piada com a diferença de tratamento. Quando vem do bolsonarismo, recebe a condenação social adequada. Quando vem do lulismo, é "gafe".

Tanto o petismo quanto o bolsonarismo promovem discurso de ódio e assassinatos de reputação. A diferença é que, pela leniência com que são tratados, os petistas acabam sendo mais eficientes.

Você pode inventar que Marina Silva é a mãe do fascismo ou que Ciro Gomes virou fascista e ainda ser levado a sério. O bolsonarismo jamais conseguiria a façanha.

Ouço com frequência que estamos num momento de luta da civilização contra a barbárie, em que Lula seria a civilização.

Se isso fosse realmente verídico, o grupo não permitiria a prática de atos que classifica como barbárie bolsonarista. O janonismo e a leniência com ele mostram que não há nenhuma preocupação em manter o próprio grupo dentro dos limites civilizatórios.

Garantir o respeito civilizatório enquanto combate o bolsonarismo seria possível para o lulismo. Não é feito porque não é importante e porque o grupo não quer. Aliás, também porque pode falar que quer e vai ter quem acredite.

O "pas de deux" de barbaridades justificadas tem sido útil para as duas forças políticas. O bolsonarismo não existiria sem o antipetismo. O PT jamais seria - como jamais foi - a unanimidade que se tornou sem o anti bolsonarismo.

Michel Temer já anda falando em anistia de Jair Bolsonaro. Lula já anda perguntando que crime Bolsonaro cometeu. O governo Bolsonaro respira por aparelhos, mas o bolsonarismo não morre tão cedo. Desconfio que, se correr esse risco, não faltarão voluntários para ressuscitar.

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Ciro é a nova Marina, e o bolsonarismo não acabará no domingo

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26.09.2022

Só um mito cairá ao final da apuração do último domingo: João Santana. Ele chegou ao PDT a peso de ouro. Seria o gênio responsável pela vitória de Dilma Rousseff na campanha que massacrou Marina Silva e reduziu para sempre sua base eleitoral. Pelo jeito, as coisas não eram bem assim.

Ciro Gomes é a nova Marina Silva e o PT continua sendo o PT. Assassinato de reputação é especialidade da casa, com marqueteiro famoso ou não. O pessoal ama esse esporte, principalmente quando pode dizer que é em nome da democracia. Se não fosse por um bem maior, jamais permitiriam.

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Meus amigos Claudio Tognolli e Romeu Tuma Jr. escreveram juntos dois volumes do livro "Assassinato de Reputações - Um Crime de Estado". Ali há uma coleção de casos do tipo. Os livros são metralhadoras giratórias, mas jamais as afirmações foram contestadas judicialmente.

Após o advento das redes sociais, o ambiente político-eleitoral atingiu o patamar de........

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