O segundo turno consolidou a guerra santa eleitoral em bases muito distantes da brasilidade. O mainstream aparentemente descobriu o evangélico apoiador de Jair Bolsonaro, que vem a ser um evangélico imaginário, espécie de amontoado de preconceitos elitistas.

Surge daí a ideia estapafúrdia de que progressistas gourmet que apóiam Lula ajudariam muito a campanha se comportando como professores de escola dominical, dando aula de Bíblia aos cristãos.

Colunistas do UOL

Eles comparam Lula a Jesus ao dizer que ambos foram "presidiários". Então entram num frenesi sobre Jair Bolsonaro e Michelle frequentando a maçonaria. Imaginam que a informação faria com que o evangélico imaginário, um intolerante por excelência, deixaria de apoiar Jair Bolsonaro.

Não tem a menor chance de dar certo. Primeiro porque é necessário dominar um assunto mais que o interlocutor ou pelo menos tanto quanto ele para enfrentar o debate. Depois porque arrogância é bicho que come o dono.

A guerra santa bolsonarista tem a brasilidade complexa descrita por Darcy Ribeiro e Nelson Rodrigues, distante do ideal da esquerda cirandeira que habita nossos shopping centers. Dela também fazem parte diversos canais místicos videntes que haviam previsto uma vitória em primeiro turno e tiveram de explicar o resultado.

Um médium que trabalhou com Chico Xavier e toca o Portal Despertar tem desgostado outros espíritas cristãos com as lives bolsonaristas que promove.

Geraldo Lemos, o Geraldinho, é muito conhecido no meio e tem feito transmissões com outros médiuns. Eles fazem previsões sobre o Brasil ser a pátria do Evangelho e o carma gerado pelo aborto, o que seriam indicativos favoráveis a Bolsonaro.

Realmente são assuntos do espiritismo cristão e falas da figura mais respeitada do espiritismo cristão brasileiro, Chico Xavier. O canal tem várias entrevistas dele, principalmente para Hebe Camargo.

A questão é que o médium e grande parte de seus seguidores rechaçam a relação de religião e política. Outros, no entanto, começaram a ver este momento como exceção que admite esse posicionamento.

Menos tradicional e mais atual é o canal Extra (A) Normal, com uma série de místicos que previram vitória de Jair Bolsonaro em primeiro turno. Eles justificaram a ação de energias e espíritos malignos para que o resultado não tenha sido atingido.

O Vidente Cigano Iago faz leitura de tarô em um baralho que mistura os orixás com animais como o cachorro, que ele diz representar Geraldo Alckmin, e o urso, que ele diz representar Lula. A previsão é de que Jair Bolsonaro ganhará as eleições.

O sincretismo religioso está presente o tempo todo. "Na calada da noite, né, Oxum, que é dona da riqueza, que é Nossa Senhora da Aparecida, vai fazer uma revelação para mim no dia 12 de outubro, que é na quarta-feira, que é feriado, né. Então, nós vamos ter mudanças profundas no segundo turno sobre traições no governo Lula. O Lula vai ser traído pelos seus comparsas.", diz o vidente.

O canal tem também uma astróloga que garante a vitória de Jair Bolsonaro de virada no dia 30. Ela havia garantido a vitória em primeiro turno, mas explicou que não ocorreu devido à alguma ação sombria, que não deve se repetir.

A previsão foi adiada por "forças ocultas". Júpiter está em conjunção no sol do presidente, segundo a astróloga. Internautas teriam medo de fraudes ou de "algoritmos". Ela garante que não seriam suficientes.

A Cigana Vênus também apontou que forças malignas operaram no plano espiritual no primeiro turno. Ela recebe mensagens diretamente de um santo e também de anjos e arcanjos. Seriam estes últimos e também as Forças Armadas os responsáveis por garantir que os números verdadeiros apareçam nas urnas no segundo turno.

O canal tem ainda a participação do personagem ET Dudu, que fala de ufologia. E, para quem pergunta como ficam os evangélicos nessa salada, o pastor Sandro Rocha faz suas profecias e reclama do ministro Alexandre de Moraes.

São quase 300 mil inscritos e, até agora, algo completamente fora do radar mainstream. Como este, há vários.

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A guerra santa eleitoral não é para amadores: conheça videntes bolsonaristas

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11.10.2022

O segundo turno consolidou a guerra santa eleitoral em bases muito distantes da brasilidade. O mainstream aparentemente descobriu o evangélico apoiador de Jair Bolsonaro, que vem a ser um evangélico imaginário, espécie de amontoado de preconceitos elitistas.

Surge daí a ideia estapafúrdia de que progressistas gourmet que apóiam Lula ajudariam muito a campanha se comportando como professores de escola dominical, dando aula de Bíblia aos cristãos.

Colunistas do UOL

Eles comparam Lula a Jesus ao dizer que ambos foram "presidiários". Então entram num frenesi sobre Jair Bolsonaro e Michelle frequentando a maçonaria. Imaginam que a informação faria com que o evangélico imaginário, um intolerante por excelência, deixaria de apoiar Jair Bolsonaro.

Não tem a menor chance de dar certo. Primeiro porque é necessário dominar um assunto mais que o interlocutor ou pelo menos tanto quanto ele para enfrentar o debate. Depois porque arrogância é bicho que come o........

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