Caso Gisele: como a cultura Red Pill contaminou mortalmente nossa sociedade
Caso Gisele: como a cultura Red Pill contaminou mortalmente nossa sociedade
"Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa. Com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser", diz uma mensagem de Geraldo Neto, tenente-coronel da PM, para a mulher com quem casou, a soldado Gisele Alves. "Sou mais que um príncipe, sou Rei, religioso, honesto, trabalhador, inteligente, saudável, bonito, gostoso, carinhoso, romântico, provedor, soberano", ele segue escrevendo.
O autor da lista de autoelogios está preso por ter imobilizado a esposa e dado um tiro em sua cabeça, segundo a decisão da Justiça e amparada no inquérito policial, tornando-o réu por feminicídio. Os documentos dizem que, depois, teria tomado banho, enquanto ela agonizava. Teria limpado a cena do crime, ou teria tido ajuda de colegas para fazê-lo. E saído crente de que a cena poderia ser confundida com suicídio e ele, inocentado.
O discurso de Geraldo poderia ser cômico se estivesse na série espanhola "Machos Alfa", da Netflix. Um dos episódios da última temporada ridiculariza esse tipo de fala masculina em um daqueles retiros em que homens fardados ensinam aos outros esse comportamento masculino. A ideia da sátira é "tirar uma" de grupos que misturam religião, força, masculinidade e poder financeiro como trunfos para fazer o que quiserem com mulheres. A comédia acaba ali e nem dá para rir. O assunto é muito sério.
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A cultura Red Pill, que dissemina a superioridade masculina na internet, abraça esse tipo de homem. Ele olha no espelho e se acha o suprassumo da humanidade. Forte, gostoso, como ele diz, em um cargo alto e de prestígio, consegue a bela mulher que quer ostentar. E, então, morre de medo de perdê-la. Se gaba de ter acesso a sua intimidade pelo celular. Mina sua confiança, depreciando seus atributos profissionais. Exigindo contrapartidas sexuais, afinal, quem não ia querer transar com alguém com tantas qualidades?
Gisele tem informação. Sabe que aquilo é violento. Oferece a porta da rua, diz que prefere se separar. Verbaliza que trocar moradia por sexo não é para ela. Contesta alguém que se diz o Rei. E a consequência é drástica.
Ao matar Gisele, Geraldo não estaria se livrando só da mulher que o incomoda com suposto desacato à sua autoridade. Ele estaria recebendo de volta o recibo de sua onipotência. Olha só o que acontece com quem os contraria, parecem pensar os tantos protagonistas de casos de agressão pesada às mulheres.
A conta chega aqui na minha casa e na sua, quando, amedrontadas, assistimos às cenas de um espancamento em um elevador corporativo, quando vemos garotos rindo no hall de um prédio após estuprar coletivamente uma colega de escola, quando lemos as mensagens de Geraldo para Gisele. A gente sente medo.
E deixar mulheres com medo é o motor da cultura Red Pill. Quem tem medo, fica acuada e não reage. É interessante para todo mundo ostentar a submissa nas festas de família. É legal também que ela se transforme em uma boneca inflável que o serve entre quatro paredes. Com medo, as mulheres não se articulam, não escutam a voz uma da outra, não sentem que podem mais. E ficam a mercê do agressor.
Ainda que Gisele se indigne com a violência de Geraldo, aquilo não basta para escapar, em uma área como a dos dois, a polícia militar. E em tantas outras áreas. É preciso ter ajuda para pular fora dali.
Geraldo não ligaria para a consequências de seu ato, como não teria ligado para a mulher que agoniza na sua casa. Na internet, pipocam apoiadores que regozijam ao imaginar a imagem que nos contorce o estômago. Gisele bonita, nas fotos. Gisele contestando a agressão, nas mensagens privadas. Gisele ensanguentada e sozinha no chão de sua própria residência. Dói em todo mundo.
O suposto ato de Geraldo quis passar o recado da autoridade e da soberania. Sem a violência usada para confirmar seus supostos atributos perante o grupo de homens frágeis como ele, seria apenas uma esquete patética de sitcom. Como sabem disso, os Red Pill articulam a agressão como podem — todo mundo assistiu à série "Adolescência" no ano passado e entendeu como funciona, e que começa bem cedo.
Se homens que sabem o quanto isso é absurdo não se juntarem às mulheres na luta, estaremos vulneráveis, como Gisele sozinha com o agressor dentro de casa. A nossa liberdade está na mão dos caras inocentes também.Você pode discordar de mim no Instagram.
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