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Como ícone antirracismo, Vini Jr. deve extrapolar a esfera esportiva

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22.02.2026

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Como ícone antirracismo, Vini Jr. deve extrapolar a esfera esportiva

Caso em que brasileiro acusa argentino está sob análise da Uefa, que já puniu um atleta por acontecimento similar

Se veredicto for favorável ao craque do Real Madrid, a gravidade do episódio merece que ele chegue à Justiça comum

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Vinicius Junior na partida do Real Madrid contra o Benfica, em Lisboa, em que acusou o argentino Gianluca Prestianni de chamá-lo de 'macaco' - Filipe Amorim - 17.fev.26 / AFP

Todo acusado tem direito, ou deveria ter, a um julgamento justo, com acusação seguida de plena defesa. Espera-se que isso ocorra na investigação feita pela Uefa no caso em que o craque Vinicius Junior, 25, afirma que o argentino Gianluca Prestianni, 20, o chamou de "macaco" durante Benfica x Real Madrid pela Champions League, em Lisboa.

Evito prejulgamento e tento me ater aos fatos e ao que se pode concluir com base nas imagens e nos depoimentos. O que se pode ver em fotos é Prestianni, com a camisa tapando a boca, falar alguma coisa na direção de Vini. Vídeo mostra Vini correndo em direção ao árbitro para reclamar disso.

Vini, negro, afirma que o atacante do time português, branco, o chamou de "mono" (macaco, em espanhol). Seu colega de Real, Mbappé, negro, com conquista de Copa do Mundo (2018) pela França no currículo, diz que ouviu Prestianni ofender Vini cinco vezes com essa palavra.

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A partida parou por dez minutos, seguindo protocolo da Uefa, a entidade que rege o futebol na Europa, para esse tipo de situação. Por que continuou? Por que o Real não abandonou o campo, em apoio a Vini? O próprio Vini não quis. Desistir de um jogo pode gerar sanções ao clube, já que cabe somente ao árbitro a decisão de encerrá-lo.

Pós-jogo, Prestianni negou o insulto racial. Declarou ter sido mal-interpretado e que houve exagero na reclamação de Vini. A ofensa ao brasileiro seria "maricón" (maricas), e isso já teria sido registrado por ele na investigação iniciada pela Uefa.

Supondo que tenha sido, serve como confissão de culpa, já que ofensa homofóbica é igualmente grave. É ataque à dignidade da pessoa de um jeito ou de outro. Só muda o enfoque: orientação sexual, não raça. Não serve de forma alguma para amenizar a atitude.

Prestianni está encrencado, ou deveria estar. Tanto a punição para ofensa racial como homofóbica é de suspensão, no âmbito de competições europeias (pois o fato ocorreu em um torneio europeu), por pelo menos dez jogos.

Há uma batalha jurídica em curso. O Benfica defende seu jogador: todo futebolista é um ativo financeiro, e uma condenação seria desvalorização imediata, talvez não recuperável. Ao falar em "campanha difamatória", o clube atua para preservar um patrimônio. O Real, do lado de Vini, que é o seu ativo, quer a condenação de Prestianni.

O julgamento da Uefa levará em conta testemunhas (haverá quem sustente a versão de Vini e quem banque a de Prestianni) e as imagens, que, em uma análise fria, não permitem conclusão. Seria necessário áudio, e não há.

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É relevante relatar que existe precedente na alçada da Uefa –e que o agressor perdeu.

Em 2021, em partida da Liga Europa (segundo interclubes em importância no continente), o finlandês Glen Kamara, negro, acusou o tcheco Ondrej Kúdela, branco, de chamá-lo de "macaco de merda" em Glasgow Rangers x Slavia Praga. Observe a amplificação: não basta macaco, tem que ter um palavrão complementar. É o ódio intensificado.

Kúdela não tapou a boca com a camisa, mas com as mãos, ao se dirigir a Kamara. Negou ter proferido tais palavras. Admitiu um insulto, mas genérico ("idiota"). O caso tramitou internamente na Uefa por pouco mais de um mês. A entidade, com base em testemunhos e no contexto, suspendeu o tcheco por dez partidas.

Deveria servir como parâmetro disciplinar? Sim. Servirá? Não necessariamente. Na minha avaliação, o veredicto será político, pois uma prova escancarada do insulto não será apresentada. Como o Real Madrid tem muito mais peso que o Benfica, é bem possível que Prestianni tome um gancho dessa proporção: dez jogos.

Considerando que a conclusão seja de culpa, é de esperar que o caso não se encerre na esfera esportiva. É pouco para uma atitude racista.

Espero que Vini, símbolo do combate ao racismo, vá além e processe o argentino nas esferas cível e criminal em Portugal, que é o foro competente pois o episódio se deu no país, onde racismo (e homofobia) é crime que resulta em multa e até em cadeia.

É preciso coragem para dar esse passo. Vini até agora mostrou-se corajoso contra a desumanização dos negros. Que não recue e aja para ampliar ainda mais sua voz de protesto.

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