Pães e bolos industrializados aumentam o risco de doenças intestinais

Pães e bolos industrializados aumentam o risco de doenças intestinais

À mesa de 95% dos lares brasileiros, alguém desembala o pão de cada dia. Ninguém está falando de tirá-lo do saquinho de papel da padaria, nem do pão amassado em casa.

Vá lá que uma fatia ou outra da versão industrializada talvez não faria mal algum ao intestino ou à saúde em geral. A questão é que esse consumo, ao se somar ao dos bolos prontos, do macarrão instantâneo, da pizza congelada, da bolacha e até de certas barras de cereais, pode ficar alto.

Para fazer justiça à bisnaguinha, o estudo recém-publicado no American Journal of Gastroenteroly não acusa somente o pãozinho que pode morar várias semanas nas gôndolas do supermercado sem endurecer, nem embolorar. Ele foi aqui por ser uma preferência nacional, de acordo com o dado da Abimapi (Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias, Pães e Bolos Industrializados) de que essa categoria está presente em 95% das casas do país.

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Direto ao ponto, o artigo recente afirma quem consome 19 gramas ou mais de grãos que passaram por ultraprocessamento, usados como ingredientes desses produtos, corre um risco 86% maior de desenvolver doenças inflamatórias intestinais, como retocolite ulcerativa e doença de Crohn, em relação a quem limita a ingestão a apenas 9 gramas diários.

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A informação tem o que o que os cientistas chamam de relevância estatística, ou seja, infelizmente é para a gente confiar nesse crescimento de 86% de risco de o intestino inflamar-se em algum momento da vida. Os pesquisadores acompanharam mais 124 mil pessoas por nada menos do que dezessete anos até chegarem a essa conclusão.

Esta é a pergunta fundamental do estudo PURE (sigla de Prospective Urban Rural Epidemiology, que pode ser traduzido como Epidemiologia Prospectiva Urbana e Rural). O pontapé dessa iniciativa de fôlego foi dado na McMaster University, no Canadá, por onde o cardiologista Alvaro Avezum estava na época fazendo um treinamento. Até hoje, ele é pesquisador associado de lá, além de coordenar o Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

"O PURE é um estudo observacional que a gente chama de coorte prospectivo", diz ele, que é responsável pela investigação no Brasil, que está ao lado de outros 26 países participantes. Explicando o "cientificês", é quando os pesquisadores acompanhando um grupo de pessoas, dia após dia, durante muito, muito tempo para entender o impacto de algum fator de risco. "É a melhor estratégia que temos para entender por que adoecemos."

Diga-se, hoje o PURE envolve mais de 300 mil participantes, apesar de "só" quase metade deles serem envolvidos nessa subanálise para enxergar o que fazemos no sentido de prevenir ou, ao contrário, aumentar a probabilidade de sofrermos de uma dessas doenças inflamatórias intestinais.

"Já tínhamos avaliado câncer, doenças cardiovasculares e respiratória, problemas renais e até suicídio", conta o professor Avezum. "E o interessante, mais do que a quantidade de participantes, é a diversidade de países. Existem aqueles com alto nível de renda, como o Canadá e a Suécia. Outros com renda intermediária, como o Brasil e a Polônia. E outros, ainda, de renda mais baixa, como Bangladesh e Zimbábue", exemplifica.

Segundo o médico, desse modo temos uma fotografia global, enquanto a maioria dos estudos foca em uma população única, principalmente a dos Estados Unidos. "E não necessariamente o que acontece lá vale para o mundo inteiro", observa.

No meio de tanta diversidade, os cientistas do PURE encontram pontos em comum e um deles é essa associação entre produtos ultraprocessados à base de grãos e doenças inflamatórias intestinais.

Seria culpa do trigo e de outros grãos?

Nada disso! "Nessas formulações da indústria, os grãos não estão sozinhos. Eles estão mal acompanhados por corantes, aromarizantes, conservantes, flavorizantes", diz Alvaro Avezum. Esse combo de aditivos químicos não apenas tornam esse produtos mais palatáveis, fazendo a pessoa querer mais uma fatia, mais uma porção, enquanto entregam um baixíssimo valor nutricional. "Eles são bastante inflamatórios também", completa o professor.

Ele lembra que a ciência já mostrou a associação de ultraprocessados em geral ao crescimento do diabetes e da obesidade, entre outros males. "Até da depressão, que é uma doença com base inflamatória também, apesar de muitos desconhecerem isso. E, no que diz respeito ao intestino, o PURE já tinha apoiando que ultraprocessados, modo geral, aumenta a ameaça de câncer colorretal", informa.

Tenha cuidado com o que é vendido como "saudável"

Se é ultraprocessado, não se iluda. A associação de pães, biscoitos e pratos prontos industrializados com retocolite ulcerativa, Chron e outras doenças inflamatórias intestinais apareceu até mesmo quando os produtos eram integrais.

Para saber disso, os pesquisadores de todos os países reunidos no PURE fazem questionários validados, iguais para todo mundo, descobrindo o que cada uma dessas milhares de pessoas anda comendo, em um nível de detalhe que chegam a calcular a quantidade de grãos.

Eles não partem do pressuposto de que essa ou aquela quantidade é a indicada. Fazem uma média de consumo. Juntam todos aqueles que têm uma média menor — no caso dos grãos que viraram comida ultraprocessada, 9 gramas —, assim como juntam os participantes com consumo médio intermediário e, em outro grupo, aqueles com consumo elevado. No levantamento, aqueles que comiam mais esse tipo de produto devorava 19 gramas ou mais de grãos por meio deles.

Apesar de grãos integrais serem notoriamente melhores para a saúde, o PURE mostra que o arroz branco caseiro, por exemplo, não eleva o risco para o intestino. Nem o pão fresco, da padaria ou feito em casa, à base de farinha branca. O "x"da questão para inflamações, especificamente, parece ser mesmo o ultraprocessamento e a hipótese é que seria por causa da quantidade de aditivos que esses produtos levam nas formulações. Elas estão longe de ser receita de saúde.

Isso preocupa a gastroenterologista Karoline Garcia, médica do Centro Especializado em Aparelho Digestivo, também do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. "Existem alimentos que se vendem na embalagem como super saudáveis, como uma série de barras de cereais e proteínas fitness, e que são ultraprocessados até a raiz!', comenta.

Para ela, o estudo esclarece ainda mais a relação, nem tão surpreendente, entre ultraprocessados e inflamações crônicas no intestino, incluindo doenças bem sérias e debilitantes nesse órgão. Principalmente, ao colocar no mesmo saco (de plástico) os produtos "ditos" mais saudáveis.

A gastroenterologista ressalta, porém, que a alimentação não é o único fator por trás das doenças inflamatórias intestinais. "Elas são multifatoriais", explica. "Envolvem, ainda, a genética e diversos outros fatores ambientais e comportamentos, como tabagismo e uso de determinados remédios. Mas claro que a alimentação pesa bastante também."

Sem exagerar no pão e nas massas caseiras

O próprio PURE já trouxe, em análises anteriores, revelações importantes e até curiosas. Foi contundente ao reforçar a mensagem que vivemos mais se comemos mais frutas, legumes e verduras. Mostrou que comer um ovo por dia não é um bicho de sete cabeças para ninguém. Criou polêmica ao afirmar que consumir sem exagero gordura animal até reduziria a mortalidade por qualquer tipo de causa.

"Mas, aí, apontava para a carne vermelha e os laticínios integrais. O estudo nunca viu vantagem, ao contrário, no consumo de embutidos e outras fontes ultraprocessasas de gordura animal", esclarece o professor Avezum.

Em relação aos carboidratos, há quase deste anos o PURE mostrou que adoce mais quem obtém mais de 60% das calorias diárias vindas desse tipo de nutriente, presente em doces e também em tubérculos, como a batata , claro, em pães, massas, biscoitos. Portanto, não vale se entusiasmar e exagerar nos pedidos feitos no balcão da padaria.

"O frustante é que antes não sabíamos por que adoecíamos", lamenta o professor. "E hoje, mesmo sabendo, as pessoas não mudam seus hábitos. O marketing da indústria de alimentos é cruel", opina. E não só isso: os pães ultraprocessados, amassados com muito conservantes, duram um tempão. Sem contar que todos os produtos com grãos, com exceção daqueles com o apelo de fitness, são mais baratos. Nessa competição desigual, vem ganhando quem promove as doenças inflamatórias intestinais e outras mazelas

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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