Medicamento retarda em dois anos o início dos sintomas do diabetes tipo 1

Medicamento retarda em dois anos o início dos sintomas do diabetes tipo 1

Pode acontecer em qualquer idade: o sistema imunológico passa a atacar com fúria as células produtoras de insulina no pâncreas até não restar uma única para produzir o hormônio que faz a glicose presente na circulação entrar nas células da cabeça aos pés para abastecê-las de energia. E quer saber? A doença que já foi conhecida como "diabetes infantil" no passado, hoje, na somatória, tem mais pacientes diagnosticados na vida adulta do que na infância, contrariando o senso comum.

Criança ou adulto, a vida parece virar de cabeça para baixo com a descoberta, engolida por uma nova rotina que exige diversas medições da glicose por dia, o que comer e o que não comer e quando se alimentar também, a dose necessária de reposição de insulina a cada momento, as aplicações, o medo da queda brusca do açúcar no sangue durante a madrugada e os exames periódicos. E se tudo isso fosse adiado para dali a dois anos ou mais? Agora é possível.

Na semana passada, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou o teplizumabe, medicamento da Sanofi, farmacêutica de origem francesa. Ele poderá ser usado por pacientes com mais de 8 anos que ainda estiverem no segundo estágio do diabetes tipo 1, quando o ataque autoimune já deu início, mas ainda acontece na surdina, sem dar sinais, a não ser uma alteração bem leve na glicose sanguínea. A promessa do teplizumabe é frear significativamente a progressão da doença e a manifestação dos seus sintomas.

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A vantagem do adiamento

Em um dos estudos que serviram de base para a aprovação do medicamento, 76 pacientes entre 8 e 45 anos de idade que ainda estavam no segundo estágio do diabetes tipo 1 foram sorteados. Parte deles caiu no grupo que, durante duas semanas, ia diariamente a uma clínica ou hospital para receber a infusão de teplizumabe na veia, um procedimento que durava cerca de meia hora. A outra turma seguia o mesmo percurso, mas a aplicação endovenosa era de placebo, ou seja, de um medicamento de mentira.

Na comparação entre os dois grupos, as pessoas que receberam o teplizumabe levaram, em média, 48,4 meses até passarem para o estágio seguinte da doença, quando já há sintomas e o tratamento deve ser iniciado, com todas aquelas medições de glicose e afins. Esse tempo foi cerca de dois anos maior do que naqueles que não receberam o princípio ativo porque tinham recebido placebo na veia.

Talvez você pense que esses dois anos voam num piscar, fazendo pouca diferença. Mas a endocrinologista Melanie Rodacki, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), discorda completamente: "Esse é um tempo importante para o paciente e a família se prepararem, aprendendo a aplicar a insulina e a medir a glicose", diz a médica. "As pessoas não fazem ideia, mas ter diabetes dá muito trabalho no dia a dia. Esse atraso no início dos sintomas pode coincidir com um período de vestibular ou de transição de carreira", exemplifica.

Mas não é só isso: preparar-se significa a chance de a doença ser flagrada antes de a pessoa passar mal a ponto de ser internada em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva), como infelizmente ainda acontece com muita gente.

Como age o medicamento

O nome teplizumabe já entrega: sempre que você lê "mabe" no finalzinho pode apostar sem erro que se trata de um anticorpo monoclonal. Ou seja, um anticorpo criado em laboratório que, uma vez na corrente sanguínea, sai caçando um alvo específico no corpo.

O alvo do teplizumabe é uma proteína chamada CD3 na superfície dos linfócitos. Geralmente, ela informa o que eles devem atacar e dá o sinal de guerra. Mas, no caso, a CD3 aponta justamente para as células do pâncreas que produzem insulina.

"Quando esse anticorpo monoclonal, o teplizumabe, se liga à CD3, ele consegue bloquear essa ativação parcialmente", explica a professora Rodacki. "Não é um bloqueio completo porque existem outros mecanismos envolvidos. De todo modo, é como se os linfócitos ficassem mais exaustos." Cansados, compram menos brigas, podemos dizer assim. E todo o processo que faria essa forma autoimune de diabetes avançar, consequentemente, se torna mais lento.

Quando o tipo 1 de diabetes começa para valer?

"Antigamente, a gente achava que era quando a glicose subia no sangue. Mas isso mudou com estudos mostrando que praticamente 100% das pessoas que tinham dois ou mais autoanticorpos evoluíam para a doença", responde Rodacki, referindo-se a anticorpos equivocados, que se voltam contra tecidos do próprio corpo. "Foi aí que nossa mentalidade mudou: ora, a presença desses autoanticorpos já era o diabetes tipo 1 em andamento!", completa a endocrinologista.

Por esse motivo, hoje a doença se divide em quatro estágios, sendo os dois primeiros assintomáticos. No estágio 1, o que se nota são dois ou mais desses autoanticorpos no sangue enquanto no estágio 2, como resultado dos ataques iniciais contra o pâncreas, já se pode notar uma leve subida da glicemia. Atenção: tão leve que, sem saber dos anticorpos da autoimunidade, ninguém talvez pensaria em um diabetes em curso.

No estágio 3, o indivíduo apresenta sintomas, como sede excessiva e perda de peso, mas seria um diabetes recém-diagnosticado. O quarto e último estágio é o da doença de longa duração. Leia, para o resto da vida.

Segundo Rodacki, mais de 75% das pessoas evoluem dos estágios assintomáticos para os mais avançados no prazo de cinco anos, embora em crianças isso possa acontecer até mais depressa. É o tempo que a medicina tem para agir, isto é, para prescrever o tratamento que retardaria a destruição das células do pâncreas.

O desafio de diagnosticar cedo

O diagnóstico precoce do diabetes tipo 1 ainda não é realidade no país. Na Europa e nos Estados Unidos já existe a recomendação de fazer exames de sangue para rastrear a eventual presença dos autoanticorpos capazes de atacar o pâncreas em toda a população em três momentos distintos: entre os 2 e os 4 anos de idade; depois entre os 6 e os 8 anos de idade e, finalmente, entre os 10 e os 15 anos de idade.

Se bem que, vale notar, os autoanticorpos podem surgir bem mais tarde. Foi graças a testes para flagrá-los que se descobriu que há uma concentração de diagnósticos na infância e na adolescência, por serem fases mais curtas da vida, mas que as pessoas continuam sendo diagnosticadas na vida adulta. "E como a vida adulta dura mais, o número absoluto de pacientes que descobrem a doença mais velhos termina sendo maior", revela Rodacki. "Antes, os médicos pensavam que, pela idade, elas tinham diabetes tipo 2, aquele mais associado à obesidade, sem nem cogitarem o tipo 1, que é autoimune."

Para a médica, além da barreira do custo do exame para ver se alguém tem autoanticorpos, o Brasil precisa se preparar para descobrir esses casos. A SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes), da Rodacki faz parte, pretende iniciar um projeto piloto em dez cidades brasileiras, rastreando os autoanticorpos em toda a população. "Mas os casos positivos serão encaminhados a centros especializados nessas regiões", esclarece. Ora, se não fossem, talvez pouco adiantaria a descoberta precoce.

Outro projeto, conduzido por Rodacki em parceria com a Fiocruz, é buscar testes mais baratos. Assim, a aprovação de medicamentos como o teplizumabe fará ainda mais sentido. E uso o plural de caso pensado, apostando como a professora que o anticorpo monoclonal abra uma nova era no tratamento do diabetes e que, no futuro, outros remédios virão pelo mesmo caminho de proteger o pâncreas de ataques autoimunes.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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