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Entre lixo e violência, Haiti vive a mais pura desesperança

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22.06.2026

Entre lixo e violência, Haiti vive a mais pura desesperança

A frase me foi dita por uma funcionária da embaixada, na noite do jogo entre Brasil e Haiti. "Olha, por menos tempo que você tenha ficado aqui, saiba desde já que ninguém vai embora igual do Haiti".

O choro de um menino de dez anos, corpinho de sete, por perder um jogo de futebol. O enxame de crianças em torno de mim porque eu estava distribuindo alguns chaveirinhos de bola de futebol com as cores do Brasil. O conformismo de uma mulher que fala quatro idiomas, cuida de uma pequena biblioteca e não tem nenhuma perspectiva de conhecer outro país ou mesmo outra cidade, pois a dela está sitiada. O lixo. Lixo e mais lixo e mais lixo. Tudo na rua, na orla, parte integrante da paisagem.

Realmente, há imagens do Haiti que serão difíceis de descolar na retina. Ficarão marcadas, como fica marcada a cobertura histórica aqui no UOL. Jornalismo é mais do que emitir opiniões ou fazer entrevistas banais com torcedores.

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Ninguém sai igual de nenhum país em que pisa. A convivência e observação de culturas e pessoas diferentes nos fazem melhores e mais empáticos. Só que há lugares e lugares. Impactos e impactos. E o Haiti, realmente, é um lugar muito intenso.

Esta viagem foi planejada com muito cuidado nos últimos seis meses, desde o sorteio que colocou Brasil e Haiti no mesmo grupo da Copa do Mundo. Não era somente uma aventura exótica. Era uma aventura bastante cara, porque chegar a Porto Príncipe hoje em dia se faz exclusivamente por uma companhia aérea haitiana desconhecida - a Sunrise -, que tem cobrado preços abusivos para voos de curtíssima duração. O aeroporto internacional está fechado por causa da violência, mas a pista utilizada atualmente é... a mesma. Apenas o terminal para embarque e desembarque é diferente. A quem interessa manter a capital "fechada"? Não tenho resposta, é parte do Haiti complexo.

Uma aventura cara e perigosa. Porque Porto Príncipe é uma cidade sitiada, dividida entre territórios de poder de um ou outro grupo armado e territórios dominados pela polícia local com a ajuda dos cidadãos, porque a força pública não dá conta. É um negócio difuso, como sempre foi na história do Haiti independente. A Revolução Haitiana, promovida por escravizados e na esteira da Declaração dos Direitos do Homem na França, já foi marcada por conflitos internos, entre os próprios comandantes, desde o início. A realidade é que o país está há mais de 200 anos lidando com conflitos e formações de milícias - grupos militares ou paramilitares - para que o líder da vez seja protegido. Até não ser mais. Um círculo vicioso de desconfiança, falta de pacto social e violência.

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Em Porto Príncipe e Cabo Haitiano, o trânsito revela muito sobre o Haiti. Não há semáforos ou qualquer tipo de sinalização. Não há regras. É um enorme "cada um por si" ao som de buzinas. Os carros e motos disputam espaço com os........

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