Por que se aposta na Mega da Virada? Sobre o delicioso exercício da ilusão
Em sucessivos encontros, pelas casas dos amigos, tenho ouvido sobre o ávido sonho do primeiro bilhão. Não que venha frequentando casas abastadas demais, não é isso. É só que a Mega-Sena chegou neste fim de ano ao montante desorbitado de um bilhão de reais, valor inalcançável pela imaginação humana, e alguns milhões de pessoas reais têm se entregado ao inocente empenho de fantasiá-lo em suas contas. À volúpia das ceias soma-se então a volúpia dos bolões: amigos unindo esforços e tostões para sustentar por alguns dias essa pequena ilusão.
Numa das casas a conversa foi além do cálculo estatístico, sempre embrutecedor, e da controvertida escolha dos números. Alguém propôs que cada um falasse o que faria em caso de vitória, que destino daria ao tão altissonante valor, e então a conversa se fez bem mais íntima e sutil, mais branda e reveladora. Não se ouviram grandes ambições, como seria de se esperar, a luxúria de fazendas, carros, mansões, de toda a tacanha extravagância que o dinheiro tem o hábito de comprar. Ouviram-se, em vez disso, os desejos reais que as ambições ocultam, a vida alternativa que cada um concebe para si no dia em que o dinheiro já não for uma preocupação.
Se eu ganhar o bilhão quero aprender a tocar clarinete, disse o mais lírico dos amigos, querido por todos. É um homem sábio e bom, como já se fez anacrônico ser, um homem que dedica cada um dos seus dias às causas justas, sempre preocupado com as urgências do país e........





















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