Qualquer estudante de filosofia sabe que Immanuel Kant nasceu, viveu e morreu na cidade de Königsberg. Em 1724, data do nascimento, a cidade era parte da Prússia e reza a lenda que os seus habitantes acertavam os relógios pelas rotinas pontuais do célebre professor.

Hoje, sob o nome de Kaliningrad, a região pertence à Rússia, que ali tem o seu famoso enclave desde a Segunda Guerra Mundial.

Pois bem: a estátua do filósofo tem sido vandalizada com frequência. Informam os jornais que a fúria começou quando o seu nome foi sugerido para batizar o aeroporto da cidade.

Para a sabedoria dos vândalos, a hipótese é insultuosa: Kant é um "traidor" e um "russófobo". Para além de ter escrito em alemão, não consta que tenha deixado qualquer soneto a Vladimir Putin. Terá perdão?

Se o leitor ri do cenário, por favor, não ria. Os extremos tocam-se e o pecado do anacronismo, quando nasce, é para todos.

Se a extrema esquerda derruba estátuas de qualquer figura histórica que, nos séculos 17 ou 18, não condenou o "racismo sistêmico" e a "masculinidade tóxica", a extrema direita também tem direito a esse esporte.

Aliás, a barbárie não cessa de me espantar. Dias atrás, em conversa com dois colegas universitários de impecáveis credenciais progressistas, fiquei sabendo que Putin merece o "benefício da dúvida".

Raciocínio deles: quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, era a liberdade que chegava ao Oriente Médio. Quando é Putin a seguir esses passos, é o fim da civilização?

A hipocrisia é imensa e eles não são hipócritas.

No meu modesto entendimento, é perfeitamente possível condenar a primeira invasão e condenar também a segunda, ainda que por motivos distintos.

Mas eu percebo a comparação: ela só serve para diluir os crimes de Putin no caldeirão do cinismo antiamericano.

Será preciso lembrar que, apesar de ambas as invasões serem condenáveis, Saddam Hussein não era propriamente Volodimir Zelenski?

E será necessário acrescentar que ainda existe uma diferença qualitativa entre a democracia americana e a autocracia russa?

Os direitos das minorias são sempre um bom teste. Se você fosse gay, lésbica ou trans, preferia morar em Washington ou em Moscou?

Para quem tem dúvidas sobre a matéria, ou pelo menos finge que tem, um documentário talvez ajude.

Assisti recentemente a "Bem-Vindo à Chechênia", de David France, e pasmei com a realidade que o filme mostra.

A partir de 2017, o governo de Grozni, comandado por Ramzan Kadirov, iniciou a sua caça à comunidade LGBTQIA+. Funciona de duas maneiras. Os homossexuais são torturados ou mortos pela polícia do Estado; ou o próprio governo incita as famílias a tratarem do assunto com as próprias mãos.

O Kremlin, que apoia Kadirov e conhece essas barbáries, recusa-se a mexer um dedo, talvez por concordar com a filosofia que anima os criminosos.

O filme de David France não poupa nos pormenores, mostrando filmagens da violência tchetchena sobre a sua própria população.

Mas o mérito do documentário está também na forma como revela o trabalho de ONGs russas. São elas que recebem os pedidos de ajuda; que montam um arriscado esquema de extração das vítimas do país; que as escondem em abrigos (vários) no interior da Rússia; e que finalmente conseguem asilo para os perseguidos num qualquer país do Ocidente.

Às vezes, essa ajuda não se limita a um só indivíduo. Famílias inteiras têm de ser salvas da morte certa.

Repito: se você fosse gay, lésbica ou trans, preferia morar em Washington ou em Moscou?

Nas discussões correntes sobre a Guerra da Ucrânia, temos essa estranha sintonia: direita e esquerda exibem uma sinistra compreensão pelos atos de Vladimir Putin.

Sobre a direita reacionária, pouco haverá a dizer: o falso tradicionalismo de Putin e a sua guerra declarada à suposta decadência do liberalismo sempre animaram essas almas nostálgicas.

Mas como levar a sério as lutas de uma parte da esquerda contra o colonialismo, o racismo e a homofobia quando ela permanece silenciosa, ou até cúmplice, com o colonialismo, o racismo e a homofobia de Putin e seus aliados?

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Se você fosse gay, lésbica ou trans, preferia viver em Washington ou em Moscou?

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19.07.2022

Qualquer estudante de filosofia sabe que Immanuel Kant nasceu, viveu e morreu na cidade de Königsberg. Em 1724, data do nascimento, a cidade era parte da Prússia e reza a lenda que os seus habitantes acertavam os relógios pelas rotinas pontuais do célebre professor.

Hoje, sob o nome de Kaliningrad, a região pertence à Rússia, que ali tem o seu famoso enclave desde a Segunda Guerra Mundial.

Pois bem: a estátua do filósofo tem sido vandalizada com frequência. Informam os jornais que a fúria começou quando o seu nome foi sugerido para batizar o aeroporto da cidade.

Para a sabedoria dos vândalos, a hipótese é insultuosa: Kant é um "traidor" e um "russófobo". Para além de ter escrito em alemão, não consta que tenha deixado qualquer soneto a Vladimir Putin. Terá perdão?

Se o leitor ri do cenário, por favor, não ria. Os extremos tocam-se e o pecado do anacronismo, quando nasce, é para todos.

Se a extrema esquerda derruba estátuas de qualquer figura histórica que, nos séculos 17 ou 18, não condenou o "racismo sistêmico" e a "masculinidade tóxica", a extrema direita também tem direito a esse esporte.

Aliás, a barbárie não cessa de me espantar. Dias atrás, em conversa com dois colegas universitários de impecáveis credenciais progressistas, fiquei sabendo que Putin merece o "benefício da dúvida".

Raciocínio deles: quando........

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