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Delírio? Construir data center no espaço salva a IA ou cria um desastre?

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07.03.2026

Delírio? Construir data center no espaço salva a IA ou cria um desastre?

O futuro da inteligência artificial começa a esbarrar no consumo de recursos naturais. Na minha última coluna, comentei como a demanda crescente por energia já provoca reações até dentro da própria base eleitoral de Donald Trump. A pressão levou o presidente a fechar um acordo com as big techs, nesta semana, para elas financiarem a energia de seus data centers.

Se as coisas ficam complexas e burocráticas na terra, a solução proposta por algumas empresas é inusitada: construir data centers no espaço. No começo do ano, a SpaceX protocolou na FCC um pedido para operar uma constelação orbital de data centers que prevê até um milhão de satélites.

O objetivo é aproveitar a energia solar de forma contínua, sem as restrições físicas e regulatórias do ambiente terrestre. Musk disse que em três anos essa nova infraestrutura poderia superar em custo os data centers convencionais.

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Muitas das promessas de Musk não se cumpriram, então fica a pergunta se isso é factível e quais seriam os riscos e problemas para a humanidade.

A premissa é que em órbita, sem nuvens, atmosfera ou ciclos de dia e noite, painéis solares poderiam gerar muito mais energia do que sistemas instalados na superfície da Terra. A ideia em si não é absurda do ponto de vista conceitual e atraiu o interesse de outras big techs e empresas chinesas.

O Google planeja, por meio do seu projeto Suncatcher, lançar dois satélites-protótipo já em 2027, em parceria com a Planet Labs, equipados com seus chips TPU de IA. A proposta é criar no futuro uma constelações de satélites interconectados que funcionem como um data center distribuído no espaço.

O problema, no entanto, começa com a viabilidade econômica. Rebekah Reed, ex-diretora associada da NASA e pesquisadora de Harvard, publicou um ensaio no Financial Times mostrando que, para a ideia fazer sentido financeiro, o custo de lançamento precisaria cair para menos de 200 dólares por quilograma.

Essa redução seria sete vezes em relação aos valores atuais, um ritmo que, mesmo nos cenários mais otimistas, não deve ser alcançado até 2030.

E, ainda que os custos caíssem, há o problema da manutenção. Quando um chip falha num data center em alguma cidade no planeta Terra, um técnico humano pode ir lá resolver. Em órbita, a alternativa seria usar manutenção robótica ou aceitar o envelhecimento da tecnologia e o acúmulo de lixo espacial.

Tudo isso, como vocês podem imaginar, tem consequências. Uma delas é que a reentrada de satélites injeta metais e poluentes na alta atmosfera, um passivo ambiental que os cientistas ainda estão correndo para dimensionar o real impacto.

Pesquisadores da Saarland University, na Alemanha, também calcularam que, mesmo com essas premissas favoráveis, a pegada de carbono de data centers no espaço poderia ser até dez vezes maior do que a dos equivalentes terrestres. No cálculo entram fatores como a fabricação dos equipamentos, o lançamento dos satélites e o descarte dessa infraestrutura.

Outro desafio é o congestionamento da órbita. A órbita de baixa altitude, justamente a que o projeto do Google mira, é uma das mais congestionadas. Adicionar milhares de novos satélites nesse ambiente, agrupados a menos de 200 metros uns dos outros, como propõe o design de muitas soluções, poderia causar inviabilidade dos projetos.

Resumindo, tudo ainda não passa de uma ambição, mas com muitas perguntas técnicas e regulatórias em aberto. A partir disso, pensei em uma questão ainda mais simples.

Se a inteligência artificial já pressiona recursos naturais, energia e infraestrutura na Terra, faz sentido simplesmente exportar esse problema para o espaço? Talvez precisemos, na verdade, começar a encarar os limites físicos do modelo que sustenta essa indústria.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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