Agrotóxico em drones adoece 222 comunidades rurais no MA: 'guerra química' |
Agrotóxico em drones adoecem 222 comunidades rurais no MA: 'guerra química'
O Maranhão contabilizou 222 comunidades rurais atingidas por pulverização de agrotóxicos por meio de drones no primeiro trimestre de 2026. O número já é maior que o total de ocorrências de 2025 (122 comunidades), e moradores desses territórios denunciam danos à produção agrícola e à saúde.
O número de casos está em relatório da Rama (Rede de Agroecologia do Maranhão), em parceria com a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado e o Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino de Geografia da UFMA (Universidade Federal do Maranhão). A maioria dos casos ocorreu no Nordeste do estado.
A entidade alerta para uma expansão sem controle e classifica o cenário como uma "guerra química contra populações tradicionais, quilombolas, indígenas e assentadas, articulada ao avanço das monoculturas de soja, milho e pastagens".
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Os números são considerados subnotificados, já que muitas vezes o medo de represálias impede a denúncia.
Problemas de saúde apresentados por pessoas contaminadas, segundo o relatório:
Irritações na pele e nos olhos, com queimaduras e coceiras intensas.
Distúrbios respiratórios, como tosse, falta de ar e sensação de sufocamento, especialmente em crianças, idosos e gestantes.
Sintomas sistêmicos: náuseas, vômitos, dor de cabeça, tonturas e febre.
Crise colinérgica, como salivação excessiva, tremores e convulsões.
O caso citado no relatório como modelo foi o do agricultor Joacy Oliveira Marinho, da comunidade de Pau D'arco do Igapó, em Bacabal. No dia 22 de janeiro, uma pulverização em uma fazenda ao lado causou prejuízo de R$ 33,5 mil, segundo levantamento de engenheiro agrícola.
"A gente perdeu todo o plantio de pimentinha, abóbora, quiabo, maxixe, berinjela. As árvores frutíferas ainda estão sendo cortadas pelo meu pai porque as frutas estão nascendo e, quando vão amadurecer, já estão ficando podres. Isso vale para limão, goiaba, caju, bacuri, manga, banana, maracujá", conta Ariele dos Santos, filha de Joacy, que denunciou o caso às autoridades locais.
Ela relatou que estava na roça no momento e filmou a ação do drone. Depois, sentiu queimação nos braços e enjoo.
Após a repercussão do caso e pressão de pequenos produtores, o município de Bacabal proibiu, em lei sancionada em 9 de março, o uso de drones para pulverização.
Ao UOL, o prefeito Roberto Costa (MDB) contou que vinha recebendo relatos de problemas gerados por essa atividade na zona rural. "Vimos que a forma como era feita a pulverização não tinha controle", diz.
Roberto explica que a dona da propriedade se recusou a se responsabilizar pelos danos, atribuindo a culpa à empresa contratada.
"Eu visitei a zona rural e observei os problemas. Os trabalhadores que operam esses drones são despreparados, atuam sem equipamentos e correm risco também", diz.
Houve uma certa movimentação dos agropecuaristas [contra a lei], mas entendo que foi algo necessário. Acredito que chegou a hora de o Maranhão discutir a questão. Não sou contra o drone para pulverizar, mas sou contra a forma como ele está sendo usado.
Outro caso ocorreu na comunidade quilombola de São Bento do Juvenal, em Peritoró, onde moradores tiveram problemas de saúde como febre, vômito e diarreia, além da perda de produção.
"No ano passado, as abelhas morreram. Já no dia 27 de fevereiro ocorreu outro caso, mais perto da gente. Morreram os pés de limão, de melancia, de milho, de mandioca. Perdemos a safra de acerola e cajá; como trabalhamos com produção de polpa de frutas, foi muito grande o prejuízo", conta a agricultora Ivanessa Ramos.
Segundo o advogado Diogo Cabral, consultor jurídico da Rama e membro da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, o cenário de 2026 aponta para uma contaminação massiva. Ele mostrou ao UOL as denúncias que fez esse ano a órgãos como Ministérios Públicos, Conselho Nacional de Direitos Humanos, Defensoria Pública do Estado e ao relator da ONU sobre Substâncias Tóxicas e Direitos Humanos.
"Boa parte dessas situações ocorre em municípios pequenos, sem tanta assistência à saúde e com pouca ou nenhuma estrutura no que se refere ao atendimento mais complexo. Isso tem ocorrido de forma generalizada em comunidades rurais", diz.
Outro aspecto é como essas pulverizações descontroladas afetam a produção da agricultura de subsistência. "Essas comunidades dependem dos alimentos para o consumo imediato. A aplicação massiva de agrotóxicos tem resultado em perda significativa da produção", aponta.
Outro ponto é a poluição dessas partículas, que se espalham a longas distâncias e podem contaminar mananciais e o solo. As crescentes notificações demonstram que a pulverização aérea apresenta risco de dispersão para além da área originalmente pretendida, atingindo casas, escolas, áreas de preservação e produções agrícolas, configurando potencial lesão à saúde pública e ao meio ambiente.Diogo Cabral
Segundo a Rama, a exposição desprotegida a agrotóxicos pode causar quatro tipos de problemas:
Aumento do risco de câncer.
Desregulação endócrina, como infertilidade, malformações congênitas e alterações tireoidianas.
Atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor de crianças expostas in utero ou na primeira infância.
Doenças metabólicas, com risco aumentado de diabetes, obesidade e doença de Parkinson.
Na Assembleia Legislativa, um projeto de lei apresentado este ano pelo deputado Carlos Lula (PSB) está em análise e sugere proibir o uso de aeronaves, salvo em casos autorizados.
Em nota, a Secretaria de Meio Ambiente do Maranhão e Recursos Naturais informou ao UOL que "realiza a apuração de denúncias relacionadas ao uso irregular de agrotóxicos sempre que toma conhecimento dos fatos, adotando as medidas administrativas cabíveis conforme a legislação vigente".
O órgão destaca que vem empreendendo esforços contínuos para aprimorar sua capacidade de resposta, com o objetivo de tornar as ações de fiscalização mais céleres e eficazes, inclusive em áreas sensíveis e com maior vulnerabilidade socioambiental. A Sema reforça ainda a importância da formalização de denúncias pelos canais oficiais, como instrumento essencial para subsidiar a atuação dos órgãos competentes e fortalecer as ações de controle ambiental no estado.
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