Por que aumento real na renda nem sempre gera fidelidade política
Por que aumento real na renda nem sempre gera fidelidade política
Uma pesquisa recente mapeou o significado de prosperidade, distinguindo o sentimento psicológico do aumento real de renda.
Embora inclua a dimensão financeira, a prosperidade depende de como equilibramos as perspectivas de futuro e passado, o que se altera drasticamente ao longo da vida.
Nos primeiros anos, possuir uma "boa qualificação educacional ou reconhecimento social" pode ser mais impactante. Depois, o peso da "satisfação pessoal no trabalho" torna-se proporcionalmente maior.
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Podemos dizer que esses dados são uma versão sociológica do que estudei a partir do cálculo neurótico do gozo. Para Lacan, o gozo é uma espécie de "curto-circuito" da libido: uma subversão da nossa economia racional que atua nas oposições simples entre prazer e desprazer, satisfação e insatisfação.
A ideia de gozo (distante do termo popular para o ápice do prazer sexual) é interessante porque ela desindividualiza a lógica liberal de que agimos sempre para obter o máximo de satisfação com o mínimo de gasto psíquico.
O "mais por menos" funciona bem para liquidações, mas não na vida psíquica. Na economia libidinal, o próprio prazer depende — ou deveria depender — absolutamente da partilha com o prazer do outro.
Isso se torna óbvio quando analisarmos pesquisas sobre prosperidade, segurança e felicidade. Em todos os casos, não basta o ganho ou perda individual; o que importa é a integração desse "superávit" em relação ao estado dos outros.
O gozo não é sobre o seu bem-estar, mas como ele se compara ao dos outros.
Aqui está o truque: a gramática do prazer não é universal, mas cada indivíduo joga com suas próprias regras e sua própria "máquina de calcular" —tecnicamente chamada de fantasia.
Nossa fantasia cria convicções imaginárias sobre como o Outro goza, o que incide diretamente em inúmeros processos de agressividade e violência, especialmente quando agimos contra o outro em nome do seu próprio "bem".
Prosperidade: Depende do sentimento de que os outros (escolhidos por nossa fantasia) não estão tão próximos.
Segurança: Depende de como interpretamos a ameaça do "outro desconhecido", tornado "muito conhecido" pelas certezas da fantasia inconsciente.
Felicidade: A satisfação individual cede ao prazer coletivo de ver a realização dos que nos cercam, mas sempre em comparação com aqueles que ficam "fora do nosso clube".
Isso explica por que países no topo do ranking de felicidade, como Finlândia e Butão (que possuem baixas taxas de imigrantes), costumam apresentar altos índices de segregação contra estrangeiros e "gente que não é tão gente como a gente".
No Brasil, o sentimento de prosperidade é ainda mais importante por refletir o que significa riqueza em um país de desigualdade acentuada —ainda que tenha melhorado um pouco.
Autorizar-se a sentir-se próspero tornou-se uma estratégia discursiva que une o neopentecostalismo ao neoliberalismo do autoempreendedorismo.
Surgiu até o termo depreciativo "CLT" para diminuir quem mantém um emprego formal em vez de se dedicar à vida de "patrão de si mesmo".
Os números da pesquisa revelam essa complexidade:
Dimensão Econômica: 39% do sentimento de avanço.
Dimensões Psicológicas: 26%.
Fator Espiritual: 21%.
Dimensão Social/Comunitária: 14%.
Curiosamente, a aquisição de bens e estabilidade financeira somam apenas 7%, menos da metade dos 15% derivados da qualidade de vida e dos 16% da satisfação profissional.
Gênero, idade e região influenciam decisivamente essa percepção. Na população geral, 23% sentem-se plenamente prósperos e 47% progridem com dificuldade.
No entanto, há um paradoxo: no grupo que ganha até dois salários mínimos, 46% se sentem prósperos, enquanto na elite de renda, o índice cai para 32%.
Quanto mais pobre, maior o peso dos pequenos avanços. Essa tendência se repete em grupos minoritários: mulheres, idosos e moradores do interior sentem-se mais prósperos que homens, jovens e habitantes de metrópoles. Regionalmente, o Norte, Nordeste e Centro-Oeste superam o Sul e Sudeste nesse sentimento.
Inversamente, quem está na "crista da onda" social parece sofrer mais:
Jovens vs. Idosos: O sentimento de prosperidade diminui entre os jovens e aumenta após os 60 anos, acirrando conflitos etários.
Empresários vs. Funcionários: Empresários bem-sucedidos tendem a sentir menos prosperidade (gerando impressões de ganância e egoísmo), enquanto seus funcionários sentem que estão crescendo.
É um alerta político: a "elite" (identitária) não é sinônimo de "classe" (produção). Embora tendam a caminhar juntas, sobrepondo capital financeiro com capital social e cultural, possuem dinâmicas psíquicas inversas.
Muitos associam a depressão ao pessimismo, mas um sinal clínico comum é o desconforto com o próprio aniversário: a vitória de sobreviver foi substituída pela obrigação de expandir e evoluir.
Ainda que as pessoas costumem mentir sobre a idade, outro indício do poder das fantasias, apenas 8% estão sentido que há um decréscimo efetivo ou indiferença quanto à prosperidade.
Isso explica por que melhorias reais na renda e na vida nem sempre geram fidelidade política.
Como na psicoterapia, os ganhos são rapidamente incorporados e esquecidos, enquanto novos desafios ganham um peso desproporcional.
Tanto na economia libidinal quanto na clínica, sentimos que estamos "avançando", mas, quanto mais progredimos, "mais assombração aparece".
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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