Vorcaro é bom candidato a Judas: malhação une tradição e crítica política

Vorcaro é bom candidato a Judas: malhação une tradição e crítica política

Neste Sábado de Aleluia, a tradição manda "malhar o Judas".Em diversas cidades, moradores se reúnem para confeccionar um boneco de pano, papel ou palha, que é pendurado em um mastro e submetido a diferentes sanções em uma encenação simbólica da punição à traição de Judas Iscariotes contra Jesus Cristo.O boneco pode receber pauladas, ser enforcado ou até queimado. O ódio dirigido à figura bíblica frequentemente é deslocado para personagens do presente, especialmente figuras públicas.Não raro, políticos que despertam rejeição popular tornam-se alvo da "homenagem", com seus nomes ou rostos estampados no boneco, revelando como a tradição religiosa se entrelaça com a crítica social e política.Na minha infância, em Pernambués, um dos bairros mais populosos da periferia de Salvador, a malhação do Judas dividia a atenção dos moradores com o "baba de saia", também chamado "baba do vinho", uma partida de futebol disputada por jogadores com vestes femininas, acompanhada de música e vinho, bebida muito consumida nesse período.Se a queima do Judas parece ter perdido parte de sua força comunitária ao longo do tempo, a prática do baba de saia segue viva. Em muitas localidades, os jogos de travestidos persistem, hoje frequentemente associados aos "paredões" de som, cujas letras, majoritariamente de conotação sexual, destoam dos valores cristãos tradicionalmente associados à Semana Santa, período que rememora a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.Havia uma expectativa coletiva para saber quem seria o Judas da vez. As crianças precisavam segurar o sono para acompanhar os festejos, que avançavam pela noite, recompensadas pela diversão e estrondo dos fogos que marcavam a queima do boneco traidor.Em Salvador, um nome de referência na fabricação desses bonecos era Florentino Fogueteiro, o artesão Florentino Moreira Sales, falecido em 2006, após seis décadas dedicadas à confecção de judas e fogos de artifício, também populares nos festejos juninos.Antes de ser queimado, porém, Judas cumpria outro ritual igualmente aguardado: a leitura do seu testamento. Mantendo o tom de traição e deboche, o texto comprometia outros personagens, como celebridades, políticos ou moradores da própria comunidade, em uma sátira que misturava crítica social, humor e fofoca local.Geralmente escrito em versos rimados, o testamento distribuía "heranças" simbólicas com muito deboche. A leitura, feita por um morador popular, acontecia em um clima que misturava solenidade e gozação. Havia versos repetidos, adaptadas a cada nome citado, como: "Judas morreu, não teve o que deixar, deixou uma meia furada para fulana usar". Bastava isso para arrancar risadas da criançada e, às vezes, a reação constrangida ou bem-humorada de quem era mencionado.Os "judas" podiam representar vilões de telenovelas, técnicos de futebol, cujas escalações fracassadas provocavam a ira das torcidas, ou bandidos envolvidos em crimes de grande repercussão. Os alvos mais recorrentes dessa esculhambação coletiva sempre foram os políticos, frequentemente responsabilizados pelos problemas que atravessam o cotidiano das camadas populares, a exemplo do alto preço dos alimentos, os buracos nas ruas, a falta d'água, entre tantas outras dificuldades persistentes nas periferias.Em anos eleitorais, essa dimensão política se intensifica. A escolha de determinados nomes como Judas podia, inclusive, ser estimulada por disputas locais, com adversários interessados em ver seus oponentes simbolicamente punidos diante da comunidade.Neste ano, a concorrência segue acirrada entre os políticos para ocupar esse lugar simbólico, com a insatisfação que continua crescendo. A pesquisa "Raízes da Rejeição", da AtlasIntel/Arko Advice, publicada nesta semana, aponta o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), ambos presidenciáveis, como os nomes de maior rejeição no país.Quanto mais conhecido e exposto à avaliação maior a possibilidade de rejeição, ainda mais quando se é governo e sobre o qual recai expectativas e frustações da população.Segundo o levantamento, Lula aparece com 50,6% de rejeição, seguido por Flávio Bolsonaro (24%), Jair Bolsonaro (16,3%) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) (5,9%). Também são citados, ainda que com índices menores, Michelle Bolsonaro (1,2%), Fernando Haddad (0,9%) e Tarcísio de Freitas (0,8%).Entre os motivos, 85,9% dos que rejeitam Lula apontam o fato de o presidente "estar envolvido ou ser conivente com corrupção". Em seguida, aparecem a percepção de que ele "quer a população dependente do Estado" (45,7%) e a ideia de que "representa um projeto de poder autoritário ou antidemocrático" (33,2%).No caso de Flávio Bolsonaro, o principal fator de rejeição é o eleitor "não querer um governo semelhante ao de Jair Bolsonaro" (74,4%). O pai dele foi o primeiro presidente a não conseguir a reeleição, sendo derrotado justamente pelo atual adversário do filho.Depois, surgem como motivos de aversão a Flávio Bolsonaro a percepção de envolvimento com corrupção (62,7%) e, novamente, a associação a um projeto autoritário ou antidemocrático (47,2%). Nesse sentido, o eleitor deve lembrar que uma das promessas é que a eventual vitória de Flávio Bolsonaro significaria a anistia dos crimes contra a democracia praticados sob comando do pai, que cumpre prisão após condenação pelo STF.A pesquisa também indica que os "erros na condução da pandemia" de covid-19 (28,6%) e a imagem de "autoritarismo ou caos institucional" (18,7%) pesam entre os motivos de rejeição ao grupo político ligado ao ex-presidente.Ou seja, motivos não faltam para que, entre a tradição religiosa e a crítica popular, o Judas continue sendo atualizado, ano após ano, como símbolo das tensões políticas e do desagravo dos eleitores.Um bom candidato a Judas, em evidência no noticiário por razões nada republicanas, é o banqueiro Daniel Vorcaro. As transações envolvendo sua instituição provocaram um verdadeiro tsunami na política nacional, com suspeitas que alcançam nomes dos três Poderes.Não é difícil imaginar que, em Pernambués, muitos moradores gostariam de ver o esbanjador de gastos, agora preso, simbolicamente malhado no mastro neste Sábado de Aleluia.O que certamente causaria desconforto em Brasília seria o seu "testamento". Já imaginou se, nesse julgamento popular, começassem a surgir os nomes de possíveis herdeiros, comprometidos com os negócios do banqueiro, listados no deboche e crítica de forma mais direta e transparente, sem os interesses escusos de algumas coberturas jornalísticas, como o tal "powerpoint" exibido na TV?Seria um estrondo antecipado, antes mesmo dos fogos de Florentino Fogueteiro anunciarem o fim do boneco. É o que também se espera da delação em negociação com a Justiça, que pode sacudir ainda mais o cenário eleitoral deste ano, ampliando as razões de rejeição do eleitor à classe política e renovando os motivos para que ela siga sendo simbolizada como Judas Iscariotes.

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