Em Salvador, axé disputa a orla e tradições afro mantêm Carnaval do centro |
Em Salvador, axé disputa a orla e tradições afro mantêm Carnaval do centro
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Todos os anos, o Carnaval de Salvador presencia uma disputa entre as estrelas da axé music que comandam os blocos de trio elétrico pela posição no desfile. Como o critério da ordem é a antiguidade, todos acabam reivindicando tradições, mesmo que sejam criações recentes.
Contudo, as agremiações verdadeiramente tradicionais, fundadoras da diversidade rítmica da festa, não entram nessas disputas, pois ocupam outros espaços da cidade, sem concorrência midiática, mas fundamentais para manter a força que essas entidades têm para a cultura da cidade e especialmente para o Carnaval.
São blocos nascidos nos bairros negros e que todos os anos repetem celebrações em seus lugares de origem, evocando suas tradições religiosas e suas conexões culturais, que fazem a riqueza e a diversidade do Carnaval de Salvador.
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Se não fossem os blocos afro, os blocos de samba e os afoxés, o Carnaval do centro de Salvador, no Circuito Campo Grande, já teria acabado.
Isso porque a indústria do Carnaval e as estrelas da axé music, que nas últimas décadas passaram a brigar pela melhor posição e pelo melhor horário de exposição nas câmeras no circuito Barra-Ondina, deixaram de se interessar pelo centro antigo, que concentra grande parte dos foliões da própria cidade.
É para lá que se deslocam moradores de bairros periféricos, que circulam com mais facilidade nesse espaço, pois é o mesmo onde estudam, trabalham, compram e vendem mercadorias e se divertem ao longo do ano.
Esvaziamento do Carnaval do centro
Desde que foi criado o circuito da Orla, há 30 anos, intensificou-se o esvaziamento das atrações no centro, com artistas midiáticos deixando de desfilar em locais icônicos como a avenida Sete, a praça Castro Alves — aquela que é do povo como o céu é do avião — e a avenida Carlos Gomes, que virou estacionamento de trios desligados. Só recentemente, há menos de dez anos, os desfiles no Campo Grande foram retomados, por incentivo de financiamento público que banca os chamados trios pipoca — sem cordas — desses artistas populares, os quais o povo, sem abadá de bloco ou camarote, também precisa ter o direito de ver e ouvir.
Além dos desfiles dos trios com grandes estrelas, na orla da cidade também estão os camarotes com shows internos que fazem, inclusive, o público ficar de costas para o que passa na rua. É ali que as emissoras nacionais fazem questão de concentrar sua cobertura e transmitir para quem assiste de fora a imagem de que aquele é o verdadeiro centro do Carnaval de Salvador.
Contudo, há a preservação feita por entidades carnavalescas realmente tradicionais que não só mantêm o Carnaval no centro da cidade, como também retornam aos seus bairros de origem e realizam desfiles cheios de emoção, ancestralidade e respeito àqueles locais que, para essas entidades, são espaços sagrados de resistência.
Rituais de Saída do Olodum, Ilê Aiyê e Filhos de Gandhy
Isso acontece todos os anos na sexta, no sábado e no domingo, com os rituais de saída dos mais tradicionais blocos negros de Salvador: o Olodum, o Ilê Aiyê e o afoxé Filhos de Gandhy.
A começar pelo Olodum, que, já na sexta-feira, produziu uma das imagens mais bonitas deste Carnaval, entre os casarões do Pelourinho, onde, há 47 anos, o bloco mantém a esperança na música e na cultura como instrumentos de transformação social, formando jovens daquela comunidade e de outras periferias, atraídos pelo samba-reggae criado pelo mestre Neguinho do Samba e preservado por seus percussionistas.
Toda sexta-feira de Carnaval, à tarde, o Olodum faz uma prévia do seu desfile pelo Pelourinho, apresentando o tema por meio das fantasias, da percussão e da ala de dança, com destaque para a presença de Negra Jhô, símbolo de orgulho daquela comunidade. Em 2026, o bloco celebra as máscaras africanas e homenageia a criatividade das comunidades negras na criação de adereços artísticos e ritualísticos. O Olodum também recebeu convidados especiais, como Caetano Veloso e João Gomes, que cantaram versões de seu repertório no ritmo do samba-reggae, em um encontro marcante entre expressões da arte nordestina.
O momento mais emocionante foi o anúncio da recuperação de Lazinho, o mais antigo cantor de bloco afro em atividade contínua, voz histórica do Olodum desde sua fundação. Após um período afastado por problemas de saúde, ele retornou com força, emocionando o público ao cantar grandes sucessos do bloco. Nem parecia apenas uma prévia do que viria no desfile sem cordas no Campo Grande, que ainda se repetirá na segunda e na terça-feira.
No sábado, foi o dia da saída do Ilê Aiyê, no Curuzu, com seu ritual no terreiro fundado pela ialorixá Mãe Hilda de Jitolu, figura central na criação do primeiro bloco afro, em 1974. Foi ela quem, ao ouvir o desejo dos filhos de enfrentar o racismo nas ruas com uma agremiação negra, respondeu: "Se vocês vão, eu vou junto". Desde então, o ritual renova a fé na ladeira do Curuzu, com os tambores anunciando a apresentação da Deusa do Ébano, da diretoria e da comunidade religiosa do Axé Jitolu, distribuindo banho de pipoca e milho branco, saudando os orixás e pedindo paz, proteção e caminhos abertos.
Em 2026, o Ilê homenageia a resistência afro-indígena de Maricá. Depois do desfile no Curuzu e nas ruas da Liberdade, o bloco seguiu também para o Campo Grande, reafirmando a centralidade desse território.
Por fim, fechando essa trinca de rituais que baianos e visitantes não devem deixar de conhecer, o afoxé Filhos de Gandhy realizou sua saída no domingo, com um padê, oferenda para Exu, orixá mensageiro, senhor dos caminhos, no largo do Pelourinho.
Em seu 77º aniversário, o tema do Gandhy em 2026 é "Exu, nos caminhos da comunicação pela paz". O afoxé renova o legado pacifista que inspirou sua criação, em 1949, por estivadores do porto de Salvador, trabalhadores negros que ousaram levar às ruas os ritmos e símbolos do candomblé, vestidos de branco, pedindo paz após um ano de trabalho duro e enfrentamento do racismo cotidiano.
O afoxé segue como o maior bloco da cidade, com milhares de homens desfilando e espalhando sua mensagem por meio do branco das roupas, das contas no pescoço, do perfume de alfazema e do toque do ijexá.
Do Pelourinho, o tapete branco seguiu para o centro e desfilou no Campo Grande, afirmando a importância desse território e respeitando as histórias de luta e resistência que ainda hoje marcam a ocupação e a circulação da população negra pelo direito à cidade.
É essa presença que mantém o sentido do Carnaval para além da alegria. A festa existe porque possibilita a permanência de símbolos e expressões de memória, fé, cultura e resistência.
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