Renata Di Carmo e o poder de mudar narrativas |
Renata Di Carmo e o poder de mudar narrativas
Por: Ana Claudia Paixão - via Miscelana
Renata Di Carmo fala com a serenidade de quem sabe o peso e a potência de ocupar o próprio espaço. Pioneira entre mulheres negras nas principais salas de roteiristas da televisão brasileira, ela construiu uma trajetória que desafia rótulos e amplia horizontes, entre o teatro, a TV, o cinema e a literatura. Atriz desde a infância e roteirista desde o fim dos anos 1990, Renata fez história ao assinar projetos que atravessam gêneros e linguagens, sempre com a mesma motivação: narrar para existir.
Com passagens por produções como Humor Negro, Cidade de Deus: A Luta Não Para e Os Quatro da Candelária, e prêmios que celebram sua contribuição criativa, Renata segue abrindo caminhos e questionando estruturas. Em No Jogo, reality criado para o Universal , ela idealizou um formato que une arte, propósito e inclusão, selecionando novas atrizes negras para a série (in)vulneráveis), em que também atua. "Vi a chance de construir um projeto onde o que se vê na tela também se reflete nos bastidores", diz.
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Na conversa com a , Renata revisita o início da carreira, fala sobre o teatro como primeiro espelho de pertencimento, analisa os desafios e as conquistas de mais de três décadas de criação e propõe algo essencial: reimaginar o Brasil a partir de quem o conta. "Escrever é uma forma de reconhecer o país, com sua gente, suas dores, suas belezas e contradições. É sobre caber — e fazer caber mais pessoas — dentro das histórias."
- Você começou muito cedo no teatro e se tornou pioneira como autora-roteirista negra na TV brasileira. Quando olha para essa trajetória, qual foi o momento em que entendeu que sua missão era contar histórias — e não apenas fazer parte delas?
Renata: De alguma maneira, essas pontas sempre estiveram alinhadas na minha cabeça. Eu sempre tive uma capacidade de produzir imaginários e eu os contava de muitas maneiras. Antes de entrar para o teatro eu costumava escrever bastante, desenhar e pintar. Era como conseguia me expressar. Quando descobri o teatro, eu me identifiquei com aquele lugar, com aquele espaço, com a possibilidade de ser e estar sensível ao que me atravessava, era uma maneira de lidar com as minhas questões. O primeiro espetáculo que eu assisti na vida foi a peça "Pluft, o fantasminha", de Maria Clara Machado, e eu fiquei encantada com aquele mundo mágico acontecendo na minha frente, com aquela possibilidade de conexão, de envolvimento absoluto. Eu ainda era criança, mas lembro de uma sensação que era um misto de abstração e de reflexão, ao mesmo tempo.
- Quando você volta para essa memória de Pluft, hoje, dá para dizer que ali já havia uma leitura, ainda intuitiva, sobre pertencimento e sobre quem pode ocupar o centro da história?
Renata: Há uma frase muito emblemática para mim, que me conectou com aquele universo para sempre. Pluft dizia "Mamãe, eu tenho medo de gente", e eu me identifiquei tão profundamente com aquilo. Entendi que aquele espaço, o teatro, eu o queria. Ao mesmo tempo, para além da frase que parece inocente, mas não foi pra mim, eu me identifiquei com Pluft, e não com Maribel, a menina da história. E isso dizia, e diz, muito sobre os atravessamentos da experiência negra no mundo. Era assustador, e é, ter medo de gente, da mesma maneira que espelhar a sua vivência em uma não-existência. Se analisarmos bem, eu estava me identificando com um fantasma. Mas bem, ele também era o protagonista da história. Dupla entrada.
- E em que momento essa menina que se reconhece no fantasma começa a entender que atuar também é uma forma de escrever o mundo com o próprio corpo?
Renata: Acredito que para mim sempre foi sobre contar histórias, sobre inscrição no mundo, embora no início, isso comece a aparecer mais profissionalmente, integrando elencos. E ser atriz é uma maneira importante de contá-las, você escolhe o "como", no final das contas. É o seu corpo, suas expressões, suas entonações, sua força. Quando eu começo a escrever profissionalmente, eu tinha algumas demandas: gerar renda pra eu pudesse continuar sendo atriz, pra que eu pudesse permanecer no meu exercício artístico; exercer a criação sendo exatamente quem eu era; me reconhecer nas narrativas, já que o que eu mais ouvia era que eu era excelente, mas não havia papel........