Torcedor vira operador de mídias, e o consumo de esportes muda para sempre

Torcedor vira operador de mídias, e o consumo de esportes muda para sempre

Durante décadas, a indústria esportiva funcionou em um modelo relativamente estável: a partida em campo, a transmissão empacotada para a TV e o público como audiência passiva. Mas esse arranjo deixou de ser suficiente. Nesta terceira e última coluna-reportagem sobre esportes, mídia e IA, o espectador — ou fã — surge como peça central e operador da experiência da competição.

A audiência escolhe tela, ângulo, ritmo, contexto, comunidade, estatística e até a camada de informação que deseja consumir. O esporte, nessa nova configuração, deixa de ser apenas um evento e vira interface. E a mídia esportiva, cada vez menos um canal linear de distribuição, torna-se um sistema navegável de dados, vídeo, conversa e participação.

Esse movimento se sustenta em três eixos. O primeiro é o das interfaces de controle da experiência: multiview, segunda tela, streaming personalizado, streaming interativo e realidade aumentada.

Rodrigo MattosNa seleção de Ancelotti, posse de bola é detalhe

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Julio GomesO coquetel do desastre da seleção italiana

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CasagrandeO fundo do poço da Itália, uma seleção previsível

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Josias de SouzaEduardo virou estorvo para irmão e para cárcere do pai

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O segundo é o da arquitetura da jornada do fã, que passa a ocorrer em múltiplas plataformas, com conteúdo vertical, creators e comunidades, antes, durante e depois do apito final.

O terceiro é o da economia do fandom, em que o valor deixa de estar apenas no alcance bruto e passa a se estender à intensidade do vínculo, à recorrência da atenção e à disposição para agir — seja para comprar, comentar, compartilhar ou se identificar com uma marca.

A mudança fica evidente quando se olha para a atuação da Fifa na Copa do Mundo do Qatar de 2022. Durante o torneio, a entidade lançou o Fifa+, que virou o "companheiro digital" do evento, com clipes de melhores momentos poucos minutos após o apito final, estatísticas oficiais em tempo real e cobertura editorial direta dos estádios e das fan fests. A plataforma permitia personalização, com escolha de time preferido, notificações e replays em língua de sinais.

O ponto mais relevante, no entanto, foi a Fifa+ Stadium Experience, uma experiência de segunda tela com realidade aumentada dentro do estádio. Pelo aplicativo, o torcedor podia apontar o celular para o gramado e visualizar, em tempo real, overlays com estatísticas dos jogadores, mapas de calor, velocidade, alinhamentos táticos, replays de múltiplos ângulos e decisões do VAR.

O torcedor na arquibancada passou a acessar, ali mesmo, uma camada de leitura do jogo antes restrita à transmissão e aos analistas. Para quem estava em casa, um aplicativo de realidade aumentada transformava a sala de estar em um centro de dados 3D, onde o fã interagia com tabelas de estatísticas e informações ao redor do ambiente.

A Fifa forneceu ainda às emissoras parceiras serviços de multiângulo, estatísticas sincronizadas, clipes near-live e gráficos interativos para seus próprios aplicativos. O resultado é uma mudança que deixa de empurrar uma narrativa única para todos e passa a oferecer uma infraestrutura capaz de sustentar experiências sob demanda, imersivas e moduladas pelo próprio usuário.

Esse redesenho da transmissão não está restrito ao futebol. A Fórmula 1 é outro laboratório importante. A parceria com a Lenovo envolve suporte técnico, uso de dados ao vivo e exploração de AR/VR para enriquecer o consumo do esporte.

Na MotoGP, cada protótipo Ducati Desmosedici GP carrega cerca de 50 sensores e gera perto de 100 GB de dados por fim de semana de corrida. Nos Estados Unidos, em arenas da NBA, torcedores apontam a câmera do celular para a quadra e, via realidade aumentada, veem estatísticas dos jogadores em tempo real. O estádio vira interface de dados. Leia a primeira coluna-reportagem sobre esportes, dados e poder.

A pesquisa SOA26 (State of Sports Audio Fandom 2026) mostra que a jornada esportiva moderna não cabe mais na lógica de "três horas de jogo". Segundo o estudo, 72% dos fãs monitoram trocas e negociações mesmo na offseason, e 83% seguem notícias sobre seus times favoritos fora da temporada.

O torcedor acompanha live updates, discute no YouTube, ouve programas no deslocamento, volta para highlights, segue atletas nas redes e mantém o esporte como um fluxo permanente de informação e pertencimento. O fã mais engajado vive em ação com múltiplas telas, combinando ao vivo, estatísticas e comentários. Leia a segunda coluna-reportagem sobre transmissões no esporte.

Essa lógica multiplataforma ajuda a explicar parte importante do sucesso da CazéTV, que dá voz ao torcedor desde a narração, com emoção, show de intervalo e repórteres que literalmente vestem a camisa dos times que cobrem — e torcem.

O caso do torneio universitário March Madness, com a parceria entre Tabasco e o creator Bru, aprofunda esse caminho. O conteúdo partiu de áudio e podcasts, passou por social e ativações ao vivo e gerou 5,5 milhões de seguidores ativados e 2,7 milhões de impressões sociais.

Outro ativo já identificado é a Geração Z, que está construindo um universo esportivo personalizado, unindo highlights, análise, podcasts, fantasy leagues, betting e clipes sociais. Essa geração não consome menos esporte — apenas consome de outro modo. Assiste menos à programação tradicional, mas organiza seu próprio pacote de atenção em Twitch, YouTube, podcasts, redes sociais, creators, suas rotinas e suas vozes de confiança.

Avidity: a nova moeda do esporte

O fã é um ativo estratégico. Em vez de medir apenas quantas pessoas foram expostas a uma mensagem, a indústria passa a olhar para o quanto os fãs se importam, quanto tempo dedicam e quão profundamente prestam atenção. A métrica central deixa de ser o alcance e passa a ser a avidity, a intensidade do vínculo.

Fãs altamente engajados são 2,5 vezes mais propensos a considerar uma marca que apoia seu time favorito, e 60% conectam marcas a experiências memoráveis de fã. Campanhas em canais esportivos apresentam lift de 40% em purchase e usage. O torcedor deixa de ser apenas audiência e se torna infraestrutura de marketing, confiança, memória e conversão.

Camila Miranda, head de Marketing LATAM da Adobe, resume essa visão: "Em um mundo digital saturado de informação, a grande pergunta para qualquer marca é: como eu me torno relevante para a minha audiência? A resposta passa por substituir volume por relevância e exposição por relacionamento".

A Adobe não atua no esporte a partir de um modelo tradicional de exposição. A empresa é parceira oficial da NFL e do Real Madrid, usando inteligência artificial e personalização em escala. Durante o Super Bowl, ativou experiências proprietárias como a NFL House, com ambientes imersivos que demonstram personalização de conteúdos em tempo real. "São parcerias estruturadas a partir de tecnologia, dados e criatividade", afirma Camila Miranda.

Esporte como indústria de emoção

O caso do Real Madrid ilustra como a economia do fandom se traduz em operação. O clube, com mais de 600 milhões de torcedores, consolidou dados de todos os pontos de contato — das catracas do Bernabéu ao e-mail, site e aplicativo — em uma plataforma unificada, usando a Adobe Real-Time Customer Data Platform.

O resultado foram 800 campanhas segmentadas, 500 milhões de e-mails enviados com relevância individual, recorde na aquisição de usuários e aumento da satisfação da comunidade no programa Madridistas.

No Brasil, o cenário é ambivalente — e estrategicamente interessante. O país aparece como um mercado de torcedores muito engajados em TV, streaming e redes sociais, com grande audiência de esportes no YouTube e clubes entre os líderes globais em interações no X e no Instagram.

Mas a ocupação média dos estádios no Brasileirão é de cerca de 43%, contra aproximadamente 73% na Premier League, o que revela espaço para avançar em ingressos digitais, programas de sócio-torcedor, conectividade e aplicativos.

Clubes como o Palmeiras já usam IA para análise de desempenho e recrutamento. Corinthians, Flamengo e Atlético-MG lançaram fan tokens via Socios.com, permitindo participação dos torcedores em votações e experiências digitais.

O esporte vende narrativa, identidade e pertencimento. E a indústria que entender isso definirá o próximo ciclo da economia esportiva. Para isso, será preciso medir intensidade emocional em vez de impressões brutas, desenhar interfaces em vez de grades lineares e tratar o torcedor como operador, e não apenas como espectador.

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