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Inteligência Artificial encolhe porta de entrada para o mercado de trabalho

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Inteligência Artificial encolhe porta de entrada para o mercado de trabalho

O avanço da inteligência artificial no mercado de trabalho produz ganhos de eficiência, mas abre uma reorganização profunda do valor do trabalho, da formação profissional e da própria relação entre empresas e pessoas.

O fator imediato mais preocupante está longe de ser a narrativa simplista de "as máquinas estão substituindo humanos". O que está nascendo é um processo de ruptura estrutural gerado pela IA.

A nova tecnologia desloca tarefas de entrada, amplia diferenças de produtividade entre grupos, transforma julgamento humano em ativo econômico exportável e pressiona o esgotamento do contrato tradicional de emprego no país.

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A IA estreita a porta de entrada do profissional júnior, amplia a distância entre grupos por hiperprodutividade, cria uma oportunidade inédita de exportação de julgamento humano e acelera a transição do emprego estável para arranjos mais fragmentados, flexíveis e calculados.

No Brasil, esse movimento ocorre em um contexto contraditório. De um lado, o país chega a 2025 com taxa de desemprego entre 5,4% (IBGE, janeiro 2026), a menor da década, com 103 milhões de pessoas ocupadas e 39,4 milhões de vínculos com carteira assinada. De outro, convive com 38,5 milhões na informalidade.

O primeiro efeito relevante da IA surge de forma mais discreta pelo encolhimento das portas de entrada. Segundo análise da Anthropic, empresa dona do Claude, a contratação de trabalhadores de 22 a 25 anos em ocupações com alta exposição já mostra queda de cerca de 14% na taxa de entrada em novos empregos.

A IA passou a absorver tarefas cognitivas básicas que funcionavam como escola do início da carreira, como triagem de documentos, síntese de dados, codificação inicial, organização e atendimento preliminar.

Ainda nos EUA, isso aparece de forma concreta em ocupações como programadores, com 74,5%; representantes de atendimento ao cliente, com 70,1%; digitadores e inseridores de dados, com 67,1%; e analistas financeiros, com 57,2%, segundo estudo da Anthropic, feito neste mês de março.

Em todos esses casos, a tecnologia avança primeiro sobre a etapa de aprendizagem operacional, mostra o Anthropic Economic Index, de janeiro deste ano. O jovem deixa de aprender fazendo as tarefas mais simples porque elas passam a ser realizadas pela máquina. No Brasil, esse dilema é especialmente grave porque o setor de serviços responde por quase dois terços das vagas criadas, e o Sudeste concentra 57,7% das posições publicadas.

O país depende fortemente de funções intensivas em linguagem, coordenação, atendimento, análise e operação informacional, que são exatamente o terreno onde a IA vem reduzindo o espaço do profissional júnior.

O resultado é uma "barreira de entrada silenciosa". O mercado não rejeita o jovem de forma explícita, mas simplesmente para de precisar dele. "O profissional júnior que delega tudo à IA sem desenvolver julgamento crítico entrega volume, mas não entrega valor. O mercado vai perceber essa diferença antes que o próprio profissional perceba", afirma Henrique de Castro, CEO da New Rizon.

A segunda ruptura provocada pela IA inverte a lógica clássica das revoluções industriais. A nova onda de automação tem exposição máxima concentrada no topo da pirâmide socioeconômica.

A maior vulnerabilidade está entre profissionais com ensino superior completo, alta renda, ocupações analíticas. As 10 ocupações de maior exposição observada nos EUA são: programadores de computador (74,5%), atendentes de clientes (70,1%), digitadores (67,1%), especialistas em registros médicos (66,7%), analistas de pesquisa de mercado (64,8%), representantes de vendas (62,8%), analistas financeiros (57,2%), analistas de QA de software (51,9%), analistas de segurança da informação (48,6%) e especialistas em suporte de TI (46,8%).

Em vez de serem eliminados de cara, podem usar a IA como alavanca de produtividade. Na outra ponta, a Anthropic mostra que 30% dos trabalhadores dos EUA) tem zero exposição observada. Esse grupo inclui cozinheiros, mecânicos de motocicletas, salva-vidas, bartenders e lavadores de pratos.

Os trabalhadores mais expostos a IA têm nível educacional superior: 37,1% possuem bacharelado e 17,4% pós-graduação, totalizando 54,5% com ensino superior contra apenas 17,8% no grupo não exposto.

Os dados do HP Work Relationship Index 2025 reforçam essa hipótese. Entre os profissionais que estão na chamada "Zona Saudável" de relação com o trabalho, 42% usam IA diariamente. Na "Zona Crítica", esse percentual cai para 21%. Decisores de TI relatam ganhos de eficiência de 58% com IA, enquanto trabalhadores do conhecimento sem acesso adequado reportam apenas 30%.

Se a IA fecha portas de entrada em algumas funções e amplia a produtividade de grupos específicos, ela também abre uma nova janela: a exportação de julgamento humano. A explicação vem de um gargalo da própria indústria de IA. Roberta Antunes, da Vetto AI, alerta que os dados públicos disponíveis para treinar grandes modelos de linguagem estão praticamente esgotados.

A nova fronteira de valor está no pós-treinamento, uma etapa em que especialistas humanos avaliam, corrigem e refinam as respostas da máquina. "Médicos, advogados, analistas financeiros, enfermeiros, professores e especialistas de diferentes áreas deixam de ser apenas usuários da IA e passam a atuar como treinadores críticos dela", afirma Roberta.

O Brasil combina custo competitivo, massa de especialistas bem formados, diversidade cultural e rápida adoção tecnológica, que oferecem alto nível técnico por custo significativamente inferior ao equivalente norte-americano.

Soma-se a isso a riqueza cultural e linguística de uma sociedade multirracial, elemento relevante para reduzir vieses em modelos globais. A economia da IA cria a possibilidade de exportar algo potencialmente mais sofisticado: nuance, contexto e julgamento cognitivo.

"É uma forma de inserção internacional em que o especialista pode trabalhar do Brasil, receber em moeda forte e participar da cadeia global de valor. É capital humano qualificado com demanda internacional", afirma a executiva.

A quarta força estrutural aparece dentro das empresas. Mesmo com desemprego baixo e ocupação recorde, a qualidade da relação com o trabalho se deteriora. O HP Work Relationship Index 2025 mostra que apenas 20% dos trabalhadores do conhecimento no mundo estão na "Zona Saudável".

No Brasil, o índice é um pouco melhor, com 29%, mas a "Zona Crítica" chegou a 34%, alta de 9 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Há emprego, mas também menos vínculo. Dentre os brasileiros, 71% dizem sentir aumento de demandas, mas 88% acreditam que a IA pode ser aliada no equilíbrio entre vida e trabalho.

É nesse ambiente que ganha força a economia do trabalhador fracionado. A Geração Z lidera a ruptura do contrato tradicional: 4 em 5 trabalhadores aceitariam ganhar menos em troca de flexibilidade e autonomia; 57% já têm fontes de renda extra; e, no Brasil, 57% mantêm atividades secundárias.

Dentro das empresas, existe um "abismo de IA": 49% dos decisores de TI usam IA diariamente no Brasil, mas só 25% dos trabalhadores do conhecimento têm o mesmo acesso.

Os treinamentos corporativos em IA caíram de 79% em 2024 para 67% em 2025; e 42% dos trabalhadores relatam ausência de estratégia clara de IA. Quem recebe ferramenta e treinamento avança. Quem não recebe trabalha mais, indica o estudo HP Work Relationship Index 2025.

"A IA agêntica não pede executores, pede líderes. Quem já aprendeu a delegar, acompanhar e cobrar resultado vai dominar essa nova camada de trabalho muito antes de quem nunca liderou ninguém", alerta Castro.

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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