Para diretora de grupo que protege atletas, decisão do COI ataca mulheres
Para diretora de grupo que protege atletas, decisão do COI ataca mulheres
A coluna convidou Andrea Florence para escrever neste espaço. Ela é advogada especializada em direitos humanos e diretora executiva da Sport & Rights Alliance, representando atletas e grupos impactados pelo esporte em todo o mundo.
Fui dormir ontem à noite pensando em como vou contar à minha filha sobre o que acaba de acontecer. Ela só tem 2 anos, mas temo que, em poucos anos, se ela quiser jogar futebol, em vez de apenas comprar uma chuteira e uma bola, eu também terei de levá-la ao médico para que ela possa "provar" que é realmente uma menina.
Parece loucura, mas é isso que a nova política Olímpica sobre a "proteção da categoria feminina" está propondo: que todas as mulheres e meninas precisam ser testadas antes de poderem ser consideradas "aptas" a praticar o esporte que amam. Como se não bastasse, a nova política proclama que o que define se você é mulher é a presença ou ausência de um Y no exame, deixando mulheres trans — e também algumas mulheres intersexo — mais uma vez marginalizadas.
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Apesar do que afirma o Comitê Olímpico Internacional (COI) e sua nova presidente, não houve "desenvolvimentos recentes na legislação internacional de direitos humanos" e nem na ciência que justifiquem uma revisão das Diretrizes do COI sobre Justiça, Inclusão e Não Discriminação. Pelo contrário, o COI cedeu a uma retórica politizada e à desinformação, fundamentando essa política abrangente e prejudicial em estudos que se recusa a divulgar, e em deliberações conduzidas por um grupo de trabalho cujos membros permanecem secretos.
Longe de dominarem, atletas transgênero estão sub-representadas em todos os níveis do esporte. Desde os Jogos Olímpicos 2003, aproximadamente 82.000 atletas participaram dos Jogos de Verão e Inverno. Apenas dez atletas abertamente transgênero ou não-binários competiram nesse mesmo período. Isso representa 0,12% de todos os atletas. Apenas uma dessas atletas era uma mulher trans.
A nova política do COI também reforça estereótipos nocivos sobre os corpos das mulheres. Ela afirma que as mulheres são mais fracas do que os homens devido ao ciclo menstrual, à gestação e até a "quadris mais largos" ou "tecido mamário". Impactando muitas vidas, essas decisões tomadas pela alta cúpula do esporte global parecem baseadas em ideias restritas e ultrapassadas sobre como mulheres e meninas devem ou não ser. Na prática, a política do COI acaba atingindo de forma desproporcional as mulheres que não se enquadram nesses padrões, incluindo aquelas que são mais altas, mais fortes ou mais musculosas.
Testes genéticos não protegem mulheres e meninas. Como mostram relatórios do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, da ONU Mulheres, da Human Rights Watch e, mais recentemente, de um grupo de especialistas independentes da ONU, esses testes podem causar perseguições e assédios a atletas. Testes genéticos transformam a justiça em medo, ciência em estigma e equidade em exclusão.
A política do COI também expõe todas mulheres e meninas a graves violações de privacidade, humilhação pública, e riscos extremamente perigosos à saúde mental e física. A história nos mostra que essas investigações frequentemente envolvem exames médicos coercitivos, a divulgação indevida de informações íntimas de saúde, e uma exposição midiática que pode causar danos permanentes, em especial a mulheres e meninas intersexo.
É isso que terão de suportar atletas adolescentes de todo o mundo que desejem praticar esportes, ou mesmo participar dos Jogos Olímpicos da Juventude.
Ao mesmo tempo, esses testes genéticos não contribuem em nada para enfrentarmos os desafios reais que mulheres e meninas sofrem dentro do esporte e do Movimento Olímpico. Abusos e assédios sistêmicos, desigualdade salarial de gênero, acesso desigual a treinamentos e instalações, e a persistente sub-representação de mulheres em cargos técnicos e de liderança continuam generalizados. Esses são problemas amplamente documentados, sustentados por pesquisas robustas, e que ainda assim continuam sendo negligenciados e subfinanciados pelo COI.
Com a introdução de testes genéticos, o COI não aumenta a proteção de mulheres e meninas, mas impõe novos obstáculos em seus caminhos no esporte. Ao invés de promover uma participação segura, justa e inclusiva, essa política criará um efeito inibidor, desencorajando meninas e mulheres a se engajarem em esportes como um todo.
O esporte feminino sempre foi mais forte quando as mulheres trabalham juntas, e não umas contra as outras. Mulheres trans e intersexo apenas buscam fazer parte do esporte, assim como qualquer outra atleta. Em um momento no qual o esporte deveria ampliar oportunidades e promover a igualdade, tornando o mundo um lugar melhor para minha filha e milhões de meninas como ela, a nova abordagem do COI nos leva para a direção oposta.
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