O meu comentário de hoje é feito desde Odense, na Dinamarca, onde me encontro a participar na Conferência daquela que é, provavelmente, a Organização Não-Governamental, mais conhecida dedicada à integridade no Desporto: Play the Game. A Conferência junta especialistas, atletas, ativistas e muitos outros que pretendem contribuir para um desporto que seja fiel aos princípios éticos e valores humanos em que diz assentar. Infelizmente, o tema deste ano, reflete o quanto estamos longe disso: "Há Cura para o Desporto?" A razão são os múltiplos escândalos que têm afetado o desporto nos últimos anos. Desde inúmeros exemplos de corrupção à identificação do desporto como uma das atividades mais propícias à lavagem de dinheiro. Da evasão fiscal à multiplicação dos casos de match-fixing (agravados pelas apostas desportivas online). Mas também podemos falar dos inúmeros casos de violação de direitos humanos, incluindo no âmbito de grandes eventos desportivos. Tal como também se continuam a revelar inúmeros casos de doping (alguns promovidos por Estados) e são inúmeras as relações suspeitas entre política e desporto.

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Em todos estes casos, as organizações desportivas, nacionais (dos clubes às federações) ou internacionais (da FIFA ao Comité Olímpico Internacional) têm sido ou cúmplices ou participantes ativos. O diagnóstico é praticamente unânime na conferência: há um problema profundo com a cultura de governo das organizações desportivas. O seu modelo de governo assenta numa enorme concentração de poder, suportado num cartel político e isento de mecanismos eficazes de escrutínio e contra-poder. Se a isto associarmos os enormes volumes financeiros envolvidos nesta atividade, a sua natureza transnacional, enorme opacidade e quase ausência total de regulação, temos o terreno mais fértil possível para que atividades ilícitas e criminais possam prosperar.

Acresce que o seu conflito de interesses entre serem reguladores das competições desportivas e operadores económicos dessas competições está a fazer com que sejam, também, crescentemente incapazes de promover objetivos fundamentais como o equilíbrio competitivo. No futebol, por exemplo, o desequilíbrio competitivo tem aumentado significativamente. Ao mesmo tempo que a UEFA usa belas palavras contra a Superliga, tem vindo a transformar a Liga dos Campeões na sua Superliga (nos últimos cinco anos apenas 5% dos semi-finalistas da Liga dos Campeões eram de um país de fora das cinco principais Ligas quando esse valor era antes de 50%).

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Significa isto que não há cura? Há cura, o paciente é que não a deseja. Há um enorme conflito de interesses sistémico no âmago das organizações desportivas que as torna incapazes de se auto-reformarem. Aqueles que vivem e prosperam neste sistema não têm qualquer interesse na cura.

A cura só terá lugar com a criação de uma agência independente responsável por licenciar e supervisionar o funcionamento das organizações desportivas e o cumprimento de certas regras éticas e princípios de bom governo. Mas a probabilidade de tal acontecer é reduzida. Tenho defendido a criação de tal agência, mas estou cada vez mais cético que se consiga a vontade política necessária para isso. Acho que quase todos os políticos caem em duas categorias que, por razões diferentes, convergem na mesma inércia. Há aqueles tão amantes do desporto que são facilmente capturados pelo fascínio dos camarotes e o convício com os grandes personagens desportivos. São os que quando aparece mais um escândalo vão a correr pedir conselhos aos líderes desportivos que estão na origem desses escândalos. Há os outros que não gostam de desporto e que estão tão enojados pelo que se passa nesse âmbito que não querem sequer ouvir falar do tema, esquecendo-se que se trata de uma das principais áreas económicas com enorme peso no PIB europeu e mundial.

Como me diziam alguns dos participantes, o meu pessimismo está agora muito próximo do cinismo. É, infelizmente, o que a experiência me tem ensinado. Mas continuarei a defender a necessidade de impor a cura ao desporto. Sobretudo porque é isso que merecem aqueles, muitos que aqui conheci, que dentro deste mundo do desporto batalham diariamente para que as coisas sejam um pouco diferentes, um pouco melhores. É bem mais difícil do que ser apenas um académico algo cínico ou um adepto frustrado. Se não o fizermos por nós, que seja por eles. Sejamos um pouco mais consequentes, um pouco mais exigentes, começando com os nossos clubes.

QOSHE - O desporto tem cura - Miguel Poiares Maduro
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O desporto tem cura

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30.06.2022

O meu comentário de hoje é feito desde Odense, na Dinamarca, onde me encontro a participar na Conferência daquela que é, provavelmente, a Organização Não-Governamental, mais conhecida dedicada à integridade no Desporto: Play the Game. A Conferência junta especialistas, atletas, ativistas e muitos outros que pretendem contribuir para um desporto que seja fiel aos princípios éticos e valores humanos em que diz assentar. Infelizmente, o tema deste ano, reflete o quanto estamos longe disso: "Há Cura para o Desporto?" A razão são os múltiplos escândalos que têm afetado o desporto nos últimos anos. Desde inúmeros exemplos de corrupção à identificação do desporto como uma das atividades mais propícias à lavagem de dinheiro. Da evasão fiscal à multiplicação dos casos de match-fixing (agravados pelas apostas desportivas online). Mas também podemos falar dos inúmeros casos de violação de direitos humanos, incluindo no âmbito de grandes eventos desportivos. Tal como também se continuam a revelar inúmeros casos de doping (alguns promovidos por Estados) e são inúmeras as relações suspeitas entre política e desporto.

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